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Técnica anestésica reduz dor crônica após cirurgia de câncer de mama

FolhaPress 27/11/2023 10:08

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os tratamentos para o câncer de mama têm avançado, com aumento de sobrevida, mas persistem os desafios sobre como lidar com a dor crônica decorrente da cirurgia de retirada da mama, condição que pode afetar entre 40% e 70% das pacientes e que, não raramente, leva a sintomas depressivos.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Uma estratégia anestésica desenvolvida por pesquisadores do Hospital Sírio-Libanês (SP) conseguiu aliviar essas dores, segundo recente estudo publicado na revista Nature.

A técnica associa um bloqueio de nervos da região das mamas à anestesia geral rotineiramente usada na cirurgia. Por meio de um ultrassom guiado, são aplicados medicamentos anestésicos locais para bloquear a condução do estímulo doloroso pelos nervos em pontos específicos na região mamária.

Os resultados mostram que a redução da dor ocorre tanto no período pós-cirúrgico quanto até um ano depois do procedimento —período em que as mulheres foram acompanhadas no estudo.

Os sintomas de depressão também foram bem menores nas pacientes que tiveram o bloqueio associado à anestesia geral: 20% contra 50% daquelas que receberam apenas a anestesia.

A técnica, incorporada nas cirurgias de mama do Sírio e de outras instituições públicas e privadas do país, está sendo estudada em outras situações. Pacientes com fraturas de fêmur têm recebido um bloqueio de nervos periféricos antes mesmo da cirurgia para aliviar a dor.

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O trabalho dos pesquisadores do Sírio começou em 2018 e envolveu 49 mulheres com câncer de mama submetidas à mastectomia total (retirada das mamas). Um grupo recebeu apenas anestesia geral (procedimento padrão), e o outro recebeu também anestésico local em regiões específicas, como entre os músculos peitorais e abaixo do músculo serrátil, localizado entre as paredes laterais do tórax.

"A ideia era garantir que conseguíssemos pegar uma enervação que abrangesse a mama inteira. Hoje a gente discute quais as melhores combinações de bloqueios, mas já está claro que a anestesia sozinha não é mais o padrão ouro. O padrão ouro é o bloqueio junto", explica a neurocientista Raquel Martinez, pesquisadora do Instituto de Ensino e Pesquisa do Sírio e da Faculdade de Medicina da USP.

Para ela, uma das vantagens é o baixo custo da técnica. "Não é uma coisa cara. Precisa ter um ultrassom, um equipamento que já existe. Mas é fundamental ter capacitação, treinamento." O estudo faz parte de um projeto apoiado pela Fapesp e também recebeu recursos do Proadi (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS).

Em 2018, as mulheres que receberam o bloqueio anestésico apresentaram redução dos indicadores de dor após 24 horas da cirurgia. "A gente percebeu que, com diminuição da dor, elas precisaram de menos opioides", diz Martinez.

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As pacientes continuaram sendo acompanhadas e, um ano depois, foi observada também uma redução de dores em outras partes do corpo entre aquelas que receberam o bloqueio associado à anestesia geral. Quem só recebeu a anestesia geral precisou de mais analgésicos após a cirurgia.

A pesquisadora explica que, quando se realiza o bloqueio do nervo periférico com o anestésico local, a condução do impulso nervoso fica bloqueada por horas, deixando de disparar a sinalização da dor durante a cirurgia. "Isso acaba tendo um efeito duradouro."

Para Martinez, avançar em soluções para aliviar a dor crônica nas mulheres após tratamentos de câncer de mama tem impacto direto na melhoria da saúde mental. "A dor gera o que a gente chama de comportamento doloroso, uma situação que leva à ansiedade e sintomas depressivos. Com menos dor, ela terá uma melhor qualidade de vida."

Há outras causas atribuídas à dor crônica após uma mastectomia, como o acúmulo de líquido (linfedema) nos tecidos próximos aos gânglios linfáticos removidos durante a cirurgia. Isso resulta em inchaço, dor e sensação de peso no braço afetado.

Por causar desconforto contínuo e dor no braço, essa condição pode também levar a uma perda de flexibilidade e amplitude de movimento no ombro do lado em que ocorreu a remoção da mama.

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Segundo o mastologista José Luiz Bevilacqua, cirurgião oncológico do Sírio-Libanês, também é muito comum a paciente apresentar desconforto após a mastectomia, especialmente a bilateral, causado pela perda da sensibilidade.

"É como se uma faixa do tórax estivesse anestesiada. A paciente sente como se fosse um aperto. Dependendo do grau da ansiedade e da depressão, sofre muito com isso."

Nesses casos, uma das recomendações é que a paciente faça uma autoestimulação na região operada olhando para um espelho. "A gente orienta passar a mão em cima da nova mama, fazendo um treinamento do cérebro para diminuir essa sensação."

A psicóloga Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, lembra que a dor após uma cirurgia de câncer de mama pode ser multifatorial.

"A retirada da mama traz um impacto físico e emocional muito grande, mexe absurdamente com a questões de feminilidade e sexualidade da mulher."

Para ela, um dos pontos centrais é que essa dor da mulher mastectomizada ainda não é valorizada. "Por mais que técnicas como o bloqueio anestésico sejam importantes, é preciso um olhar integral para essa dor para que ela não perdure."

Holtz conta o caso de uma paciente, enfermeira, que está tentando se aposentar devido à dor crônica que sente após a mastectomia. "A grande queixa dela é essa dor que persiste e que está sendo superdesvalorizada pelo perito [do INSS]."

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