Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 09h09m
Vitória News — Um jornal de verdade
Variedades

Série 'Adolescência' levanta debate sobre os caminhos sombrios da construção da masculinidade moderna

Vitória News 26/03/2025 09:28

Desde que foi lançada na Netflix, a série britânica "Adolescência" tem gerado debates intensos sobre os desafios da juventude contemporânea. Com um impressionante número de 24,3 milhões de visualizações apenas nos primeiros quatro dias, o drama psicológico mergulha na vida de Jamie (Owen Cooper), um adolescente de 13 anos acusado de matar uma colega de classe. O sucesso da série é atribuído ao modo como ela aborda questões sociais contemporâneas como a masculinidade tóxica e os impactos das redes sociais na construção da identidade dos jovens.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Discussões acentuadas nas redes sociais

A série não passou despercebida nas plataformas digitais. No TikTok Brasil, a hashtag “adolescência” alcançou 182,7 mil citações em menos de 10 dias, evidenciando como o tema reverberou no país. Para Ana Matos, psicanalista, filósofa e autora do livro O Caminho para o Inevitável Encontro Consigo Mesmo, esse impacto é um reflexo positivo. Ela destaca que a produção toca em um ponto crucial da dinâmica social ao evidenciar a construção de um ideal de masculinidade que desconsidera as complexidades emocionais dos meninos, promovendo uma visão de mundo que os desumaniza. “A série toca em um ponto central da dinâmica social: a construção de um ideal de masculinidade que desconsidera a complexidade emocional dos meninos, em uma dinâmica que os desumaniza”, afirma a psicanalista.

SESC PICASSO

O peso de padrões sociais rígidos

Ana Matos também ressalta a problemática de um modelo de masculinidade baseado na força e na repressão emocional, que resulta em comportamentos destrutivos e frequentemente violentos. “Não existe uma sociedade do afeto; estamos desestruturados, sem diálogo eficaz entre escola, família e outras instituições”, analisa.

Essa visão de masculinidade é refletida em dados alarmantes sobre o bullying nas escolas brasileiras. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 23% dos estudantes do ensino fundamental já sofreram bullying, uma estatística que revela como esses padrões culturais de agressividade estão enraizados na sociedade. “O bullying não nasce na escola. Ele é um sintoma de uma estrutura social que ensina os meninos a responderem com violência quando se sentem inseguros”, observa a psicanalista.

CONTADOR - BONUS

A alienação emocional e seus efeitos

A série também aborda a alienação emocional dos personagens masculinos, que enfrentam enormes dificuldades para expressar seus sentimentos e construir relações saudáveis. Ana Matos alerta que essa alienação imposta desde a infância tem efeitos diretos na saúde mental dos jovens. "O sofrimento psíquico dos meninos é frequentemente ignorado ou minimizado. Eles são ensinados a silenciar suas emoções, a resolver conflitos na base da força. Essa dinâmica perpetua um ciclo de angústia e frustração que pode culminar em transtornos como ansiedade e depressão", afirma.

Redes sociais e a pressão pela imagem perfeita

Outro ponto importante levantado por "Adolescência" é o impacto das redes sociais na formação da identidade dos jovens. As plataformas digitais amplificam dinâmicas de exclusão e reforçam estereótipos prejudiciais. A busca incessante por validação nas redes sociais faz com que a imagem pública se torne mais importante do que o bem-estar emocional. "A internet cria um espaço onde a competitividade e a busca incessante por aprovação substituem o autoconhecimento. Isso gera uma identidade frágil, moldada por expectativas irreais", explica a psicanalista.

Anuncio - Raimundo - Bonus

O papel da família e da escola na formação de um ambiente seguro

Em meio a esse cenário, "Adolescência" se apresenta como uma reflexão profunda sobre as falhas de um sistema social que negligencia a complexidade emocional dos meninos. Para Ana Matos, é essencial repensar a forma como educamos as crianças, especialmente os meninos, para que possam desenvolver relações mais saudáveis consigo mesmos e com os outros. “É necessário repensar como educamos nossas crianças, sobretudo os meninos, para que possam desenvolver relações mais saudáveis consigo mesmos e com os outros”, conclui.

Para que essa mudança aconteça, a psicanalista enfatiza a importância de garantir que os adolescentes se sintam seguros para se expressar, tanto em casa quanto na escola. “Precisamos fomentar espaços de diálogo aberto e escuta ativa, onde os meninos possam falar sobre seus sentimentos sem medo de serem julgados. Isso pode mudar completamente o desenvolvimento emocional e social dessas crianças”, finaliza Ana Matos.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas