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Sem demarcação, mundurukus no entorno de floresta nacional sofrem com garimpo e desmatamento ilegal

FolhaPress 06/07/2024 14:08

TRAIRÃO, PA, E TERRA INDÍGENA SAWRÉ MAYBU, PA (FOLHAPRESS) - Com um facão na mão, Juarez Saw Munduruku, cacique da aldeia Sawré Muybu, vai desbastando a mata densa que cresceu sobre o caminho aberto há pouco mais de um ano. O trabalho ajuda a manter a trilha da floresta onde fica o limite da terra indígena de mesmo nome, da etnia munduruku.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O limite, porém, só é reconhecido -e, portanto, respeitado- pelos próprios indígenas.

Com uma área de 178.173 hectares entre os municípios de Trairão e Itaituba, no Pará, a terra indígena Sawré Maybu quer ampliar o território pertencente aos mundurukus. Atualmente, eles ocupam a Terra Indígena (TI) Munduruku em uma área de 2,4 milhões de hectares no Alto Tapajós, próximo ao município de Jacareacanga, sudoeste do estado.

O processo de reconhecimento da terra se arrasta desde 2007, quando foi instituído um grupo de trabalho na Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) para avaliar a demarcação do território. Em abril de 2016, o órgão indigenista reconheceu a localidade e iniciou os estudos para delimitação da área. Contudo, desde então não houve a homologação da terra, o que deixa os indígenas à mercê do garimpo e do desmatamento ilegal, que crescem na região.

"Esse arco da [aldeia] Sawré Muybu está centrado em muitos projetos que [o governo] tem a intenção de construir no rio Tapajós, de hidrelétricas a hidrovias, portos e também estradas para o transporte de madeira e minério. Sem a demarcação, acabam vindo muitos invasores para derrubar a floresta e garimpar dentro da terra indígena", afirma Alessandra Korap Munduruku, liderança indígena à frente da Associação Indígena Pariri.

Apesar de terem procurado o governo diversas vezes para a homologação, Alessandra e os demais mundurukus dizem que o processo está parado. "Enquanto isso, o território segue sendo invadido por garimpeiros, por madeireiros, grileiros, e aí a nossa terra cada vez mais vai ficando pequena."

Em novembro do último ano, o Ministério Público Federal fez uma recomendação ao governo Lula (PT) para seguir com a demarcação, mas a ação não teve resposta há mais de oito meses.

Procurada, a Funai não respondeu até a publicação deste texto. O Ministério da Justiça e Segurança Pública disse que houve o retorno ao órgão da função de reconhecimento e demarcação no ano passado, e que a demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu passa por processo de reanálise ainda não concluída. Já o Ministério dos Povos Indígenas afirma que os processos demarcatórios precisam avançar para que os direitos dos Munduruku sejam assegurados.

SESC PICASSO

"A gente sabe que muitas vezes o governo quer demarcar, mas há um grupo no Congresso que é contra a demarcação de terras indígenas, o que impede a aceleração do processo", diz Jairo Saw Munduruku, cacique da aldeia Sawré Aboy, que fica dentro do território.

Com a chegada dos invasores, além da retirada de madeira em área de preservação, os animais, fonte de alimento pela caça dos mundurukus, ficam cada vez mais distantes. Já no garimpo, o uso de mercúrio tem contaminado as águas, com efeitos devastadores na saúde e no meio ambiente.

Frente à ação insuficiente do governo, os próprios mundurukus têm atuado na fiscalização do território.

"Tiveram algumas operações de desintrusão do garimpo, mas isso não encerra o problema. Eles continuam entrando, inclusive os madeireiros, que não podiam estar ali porque é uma Flona. Não estamos vendo o órgão tomar medidas", diz o cacique. A Flona é a Floresta Nacional Itaituba II, um tipo de Unidade de Conservação, sob a tutela do ICMBio (Instituto Chico Mendes da Biodiversidade).

As placas, colocadas pelos próprios indígenas, informam que a entrada no território de pessoas não autorizadas é proibida, mesmo sem a homologação oficial da área.

No cotidiano, porém, madeireiros e garimpeiros entram e saem diariamente, sem punição. "Às vezes, conversamos com eles, dizemos que não está certo invadirem, e eles saem. Mas tem vezes que chega ao conflito. Já recebi ameaças de morte", conta o cacique Juarez, de Sawré Muybu.

Procurado, o ICMBio afirma que "há um esforço institucional de combate aos ilícitos ambientais" na região da terra indígena, com ações de incursões no final de junho para fiscalização dos invasores.

CONTADOR - BONUS

"Devido aos impactos causados na população indígena próxima, inclusive afetando a atividade de pesca (...), foi inutilizada uma draga no leito do rio Tapajós, sendo constatada a utilização de mercúrio com licença municipal de operação, mas que estava distante 22 km da poligonal onde deveria exercer suas atividades", informa, em nota.

O órgão também disse que há uma orientação para que os indígenas "não realizem a fiscalização de forma autônoma devido aos riscos associados a esta exposição" e que, de 2021 a 2023, houve uma queda acentuada no desmatamento na Flona Itaituba I, de 145 ha para 23 ha (-16%) e Flona Itaituba II (de 1.625 ha para 186 ha, ou -88%).

Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), não há nenhum processo aberto junto ao órgão de licenciamento para exploração mineral na Flona de Itaituba.

Já o Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática afirma que, no ano passado, uma operação remota para fiscalizar as autorizações e licenças de Permissões de Lavras Garimpeiras em todo o estado resultaram em 64 autos de infração e 26 termos de embargo. "Nos municípios próximos à TI Munduruku, foram aplicados 33 autos de infração e 13 termos de embargo", diz o instituto.

Em nota, o governo do estado do Pará disse fiscalizar e combater o garimpo ilegal, e que como órgão responsável por emitir licenças prévia, de instalação e de operação em empreendimentos localizados em área de administração estadual, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade realiza estudos técnicos para subsidiar a análise de processos de licenciamento ambiental.

O garimpo que avança nas terras indígenas do país viveu um período de explosão durante os anos do governo Bolsonaro (PL), quando medidas de fiscalização foram cortadas e os garimpeiros foram favorecidos. Segundo o monitoramento do MapBiomas, com dados até 2023, o garimpo ilegal nas terras indígenas Munduruku, Yanomami e Kayapós já ocupa mais de 26 mil hectares (áreas somadas). Só em 2023, foram 1.410 ha, o equivalente a quatro campos de futebol por dia.

"O prejuízo que o garimpo causa não é só ambiental. Ele também leva para dentro de territórios tradicionais um prejuízo social, porque muda a dinâmica das populações, traz problemas de criminalidade, de violência sexual", reflete Jorge Dantas, porta-voz do Greenpeace Brasil para povos indígenas.

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"O principal desafio, no Brasil, é buscar meios de fiscalizar os projetos de licenciamento ambiental, que é hoje nosso principal gargalo", afirma Larissa Rodrigues, diretora de pesquisa do Instituto Escolhas, que divulgou um estudo sobre o uso do mercúrio no país de 2018 a 2022 para garimpo.

Ela cita a falta de capacidade técnica para analisar e monitorar os pedidos de licenciamento na região munduruku como um gargalo. "É claro que estamos melhor, em 2024, em relação a 2023, porque o assunto voltou a ser discutido, há interesse em frear. Mas está longe de ser resolvido", lembra.

Mesmo com o interesse do governo atual de fiscalizar o garimpo e o desmatamento, os indígenas lamentam que há poucas ações concretas, principalmente para avançar com a homologação do território. O receio é que seja tarde demais.

"Nós fizemos uma aliança entre os três povos, mundurukus, yanomamis e kayapós para retirar os invasores e trazer de volta um equilíbrio para proteger a natureza", diz Jairo.

O modelo adotado de mineração e comércio ilegal de madeira só escancara ainda mais a pobreza, beneficiando alguns poucos, ao contrário dos povos tradicionais, que vivem em equilíbrio, explica Caetano Scannavino, coordenador da ONG Projeto Saúde e Alegria, que atua na região.

"[Vemos] a insistência em um modelo de ocupação que deu errado, baseado no desmatamento e na degradação para garimpo de ouro. Se fosse um modelo bom de progresso, Jacareacanga, que explora há 70 anos o garimpo, seria uma cidade 100% asfaltada, com hospital de ponta e saneamento de qualidade, o que não ocorre", ressalta.

A urgência para a recuperação das áreas degradadas tem também como objetivo amenizar os efeitos da mudança climática na região, que já apresenta secas mais prolongadas.

"A gente vê que o clima, hoje, está diferente. E precisamos cuidar desse clima, porque ele serve para todo mundo. Minha esperança é ver os meus netos cuidando disso aqui também, porque é parte do futuro, do que queremos da floresta", afirma o cacique Juarez.

A reportagem foi realizada com o apoio da Earth Journalism Network.

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