Localizada no bairro São Torquato, em Vila Velha, a Grêmio Recreativo Escola de Samba Independente de São Torquato é uma das agremiações mais tradicionais do Carnaval do Espírito Santo. Com cinco títulos conquistados, a escola tem origem no bloco Caveira, fundado no início da década de 1950. O nome atual foi adotado em 1974, após vitórias em concursos oficiais de blocos em Vitória e Vila Velha, consolidando a transformação em escola de samba.
A estreia como escola ocorreu em 1975, com o enredo “Exaltação a Pedro Nolasco”, que garantiu o quarto lugar. Ao longo dos anos seguintes, a agremiação apresentou temas variados, passando por referências folclóricas, culturais e nacionais, acumulando posições de destaque e consolidando sua identidade estética.
O primeiro título veio em 1981, com o enredo “Festas e Folguedos Populares do Brasil”, dividido com a Mocidade da Praia. A escola conquistou ainda o bicampeonato em 1982 e o tricampeonato em 1983. Nos anos seguintes, manteve presença constante entre as primeiras colocadas, com desfiles marcados pelo uso de grandes carros alegóricos e investimento em luxo visual, característica que ajudou a redefinir o padrão estético do carnaval capixaba.
Após o período de paralisação dos desfiles na década de 1990 e a retomada gradual do carnaval, a São Torquato voltou à avenida em 2005. Ao longo de sua trajetória, recebeu premiações como melhor escola de samba e melhor samba-enredo, consolidando-se como referência artística no Estado.
Enredo 2026 destaca saber ancestral
Para o Carnaval de 2026, a escola apresenta um enredo centrado em Ossain, divindade de origem africana associada às folhas sagradas e aos saberes medicinais. A proposta aborda o uso das ervas em diferentes tradições culturais, relacionando conhecimentos indígenas, afro-brasileiros e populares.
O desfile propõe uma narrativa que percorre o uso ritualístico das folhas por pajés, caboclos e benzedeiras, destacando preparos como banhos, chás, xaropes e unguentos. A construção do enredo também menciona o papel dos povos ribeirinhos e o comércio tradicional de garrafadas em feiras e estradas do país.
A escola associa o tema à preservação ambiental, defendendo a proteção das matas como espaço de saber e resistência cultural. A proposta conecta tradição religiosa, medicina popular e consciência ambiental.
Sinopse do enredo
A sinopse apresenta referências à tradição iorubá e ao papel das ervas como elemento central de cura e proteção. O texto evoca Ossain como guardião dos segredos das folhas e associa a floresta ao dom de curar.
Os versos mencionam práticas de purificação, saberes transmitidos por pajés e ancestrais africanos, além da valorização da cultura nagô e das contribuições de pretos e pretas velhas, caboclos e comunidades tradicionais.
O encerramento reforça o pedido por preservação ambiental e afirma a avenida como espaço de celebração da ancestralidade e da resistência cultural.
KÓ SÍ EWÉ, KÓ SÍ ÒRÌSÀ
DA FLORESTA EMANA O DOM DE CURAR
A SÃO TORQUATO FAZ A REZA PRA VENCER
E O SAMBÃO VIRAR UM ILÊ
OSSAIN... SENHOR DAS ERVAS SAGRADAS
OSSAIN... A CANDURA QUE O MISTÉRIO GUARDA
EWÉ, NA SOMBRA DA MATA REFLETE UM CLARÃO
NO VERDE SAGRADO A CURA, A MISSÃO
TEU FUNDAMENTO É PROTEÇÃO
O TOQUE DO AWÔ VAI ECOAR
PRA DANÇA DO MEU ORIXÁ
DO BANHO DE FOLHAS À PURIFICAÇÃO
CHÁ DE ESPERANÇA PRA DOR DA FERIDA
BATEU O CAJADO PAJÉ, TREMEU O CHÃO
AGUÉ SUSSURRA PRA VIDA
AXÉ QUE RELUZ NO PODER DO ORUN
VENTO ENCANTADO YORUBÁ
NO RESSOAR DO TOQUE DO BRAVUM
AO GRANDE GUARDIÃO DO LUGAR
DO POVO NAGÔ, A SABEDORIA
PRETOS DA SENZALA, A LUZ DA VISÃO
CABOCLOS PLANTARAM VITÓRIA E ALEGRIA
HOJE CLAMAMOS POR PRESERVAÇÃO