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Remanescentes do Moinho vivem entre demolições enquanto buscam moradia em SP

FolhaPress 23/10/2025 20:06

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Leidivânia Teixeira, 30, restringiu o espaço das brincadeiras dos filhos ao quarto que é quase todo ocupado por uma cama de casal desde que as casas próximas à dela começaram a ser desmanchadas na favela do Moinho. Integrante de uma das cerca de 230 famílias remanescentes da comunidade na região central de São Paulo, ela tenta evitar a circulação das crianças de 2 e 8 anos pela área esvaziada e repleta de entulho.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A viela de chão de cimento que era como um quintal para as crianças ficou insegura sem os vizinhos que se revezavam na vigília dos pequenos. "Agora a gente fica com medo", diz a mãe.

Com 639 famílias já reassentadas, a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) avançou significativamente em seu plano de remoção e passou a demolir habitações desocupadas. O início da operação completa seis meses nesta quarta (22).

As condições sanitárias sempre foram um problema no Moinho —uma ocupação que se formou ao longo de mais de três décadas em um terreno da União espremido entre duas linhas férreas, cujo núcleo é caracterizado por enormes silos de concreto em ruínas. Mas a situação piorou agora, dizem moradores que permanecem no local.

Ao percorrer a área, a Folha de S.Paulo encontrou pilhas de escombros e lixo que restaram das cerca de 150 construções demolidas e de outras aproximadamente 450 que tiveram portas, janelas e telhados arrancados para que não fossem reocupadas.

SESC PICASSO

O acúmulo de entulho agrava infestações de ratos, baratas e escorpiões, segundo moradores. Eles dizem que só permanecem no local porque precisam de mais tempo para encontrar um imóvel que se enquadre na faixa de preço de R$ 250 mil, valor do subsídio dado às famílias por meio de um acordo firmado entre os governos de Tarcísio e do presidente Lula (PT), sendo R$ 180 mil da União e R$ 70 mil do estado.

Liziane Santos Ferreira, 37, afirma que a busca não é simples. Com mercado imobiliário aquecido, o subsídio foi suficiente para aquisição de um apartamento de 28 m². O imóvel precisará acomodar ela, o marido e os dois filhos pequenos.

Após uma demorada procura para continuar vivendo na região central da capital, Liziane precisou aceitar um apartamento menor do que a casa de dois quartos e dois banheiros que ela, vendedora, e o marido, caminhoneiro, construíram ao longo de dez anos no Moinho.

Emissões de certidões e outras questões burocráticas ainda podem atrasar a mudança em semanas, relata.

Enquanto não consegue sair, Liziane diz se sentir pressionada pelos constantes questionamentos sobre a previsão de saída vindos de funcionários da CDHU, a companhia de habitação do governo paulista. "Estou perdendo o sono, tomo remédios controlados", diz.

A CDHU diz oferecer "pleno suporte às famílias" em processo de reassentamento e afirma que o contato diário com esses moradores é para prestar orientações. A companhia ainda ressaltou que o local já era insalubre antes do início do plano de reassentamento.

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Terminará nesta sexta (24) o prazo de dez dias estabelecido pela Justiça Federal para que o governo estadual retire materiais inservíveis da área, período em que também estão suspensas novas demolições. A Secretaria de Habitação da gestão Tarcísio diz estar cumprindo o acordado, tendo já retirado 75 caminhões de entulhos.

A questão das demolições é um ponto de divergência entre os governos Lula e Tarcísio. O governo paulista considera que o acordo judicial dá aval para a retomada das demolições após a limpeza da área.

Já a gestão federal avalia que o estado deve apenas desmontar cuidadosamente as casas, procedimento que é chamado de descaracterização do imóvel. Ambos os termos, demolição e descaracterização, são mencionados na decisão.

Outro ponto do posicionamento da Justiça sobre o Moinho interpretado como positivo pela gestão Tarcísio é a liberação da entrada da polícia para prevenir a reocupação de casas ou barracos.

O governo paulista vê na comunidade um ponto de distribuição de drogas que ajudava a abastecer a cracolândia, atrapalhando um plano de requalificação da região central, realizado em conjunto com a prefeitura de Ricardo Nunes (MDB).

Segundo a Secretaria de Segurança do governo paulista, mais de 1 tonelada de entorpecentes foi apreendida na região central nos oito primeiros meses do ano e uma recente operação policial prendeu líderes comunitários sob a suspeita de envolvimento com atividades criminosas. Atos realizados por moradores e grupos de oposição a Tarcísio classificam as prisões como arbitrárias.

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O governo Lula fez diversas críticas às ações policiais na comunidade após intervenções com bombas de gás e tiros de balas de borracha contra pessoas que protestavam contra a remoção, ainda no início do processo, há seis meses.

A discordância da gestão petista sobre o uso da força policial é apontada por fontes do governo federal como o principal motivo para que a União não dê um dos últimos passos do acordo feito com o governo Tarcísio sobre o Moinho, que é a cessão da área para São Paulo. No local, o estado estuda construir um parque e uma estação de trens.

Em nota, a Secretaria do Patrimônio da União afirma que mantém diálogo permanente com a gestão estadual desde o início das negociações para cessão do terreno.

Se ainda há alguma incerteza sobre o futuro da área, é certo que a favela vai aos poucos deixando de existir com o desmonte de construções que davam a ela a característica de comunidade.

Após a última missa na igreja Nossa Senhora do Moinho, o missionário Vagner Tinelli, 42, retirava a marteladas madeiras e outras partes reaproveitáveis do espaço. "Muita gente chorou na celebração de encerramento, afinal, esse é um local de referência e fé", conta. "Mas também é gratificante ver as pessoas indo para novos lares, a gente torce para que trilhem um caminho melhor."

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