Bianca Borges analisa os protestos em apoio a Lula, critica propostas de Flávio Bolsonaro e cobra investimentos nas universidades públicas
A mobilização de estudantes em diferentes cidades brasileiras ganhou força após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Às vésperas da votação decisiva, marcada para 25 de outubro, universitários e secundaristas participam de assembleias e manifestações em defesa da educação pública, da democracia e da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Para a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, de 25 anos, o movimento representa uma retomada do protagonismo estudantil em um momento de disputa sobre os rumos políticos do país.
Em entrevista publicada no domingo (18), a dirigente explicou as razões da mobilização, apresentou críticas à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e detalhou reivindicações relacionadas ao financiamento das universidades, à assistência estudantil e à permanência de jovens de baixa renda no ensino superior.
A UNE integra o grupo de entidades cujas manifestações nas redes sociais foram alvo de uma tentativa de restrição judicial pela campanha de Flávio Bolsonaro. Na sexta-feira (16), o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), negou o pedido para barrar publicações de 54 dirigentes de organizações sindicais, movimentos sociais e entidades estudantis.
Bianca Borges é estudante de Letras do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e formada em Direito pela Universidade de São Paulo (USP). Nascida em Itapevi e criada em Praia Grande, iniciou sua participação no movimento estudantil aos 14 anos. Atualmente, preside a UNE no mandato de 2025 a 2027.
Confira a entrevista.
O que explica a decisão da UNE e de organizações estudantis de voltar às ruas neste momento? Quais acontecimentos impulsionaram essa mobilização?
“Neste momento, nós vemos não só uma eleição em jogo, mas verdadeiramente o futuro do nosso país em risco”, afirma Bianca.
Na avaliação da dirigente, a candidatura de Flávio Bolsonaro representa a possibilidade de retomada de políticas que a entidade considera prejudiciais à educação e aos direitos sociais.
“Os estudantes se levantam pelos direitos, pela educação, pela soberania e pela democracia brasileira diante dessa ameaça. Isso é da própria vocação dos estudantes brasileiros, desde a fundação da UNE tem sido assim.”
Ela relaciona a mobilização atual à trajetória histórica da entidade, lembrando a campanha O Petróleo É Nosso, a resistência à ditadura militar, o movimento Diretas Já e manifestações contra diferentes governos.
Bianca também afirma que a UNE decidiu participar diretamente da mobilização eleitoral em apoio à reeleição de Lula.
Você avalia que há uma relação do momento atual com a Passeata dos 100 mil, realizada em 1968, durante a ditadura militar?
“Com certeza.”
A presidente da UNE cita a manifestação realizada em 7 de outubro, no centro do Rio de Janeiro, com percurso entre a Candelária e a Cinelândia.
Segundo ela, participantes de outras gerações do movimento estudantil compararam o tamanho da mobilização ao da histórica Passeata dos 100 Mil, realizada em 1968.
A dirigente destaca que o ato também homenageou Edson Luís, estudante morto pela Polícia Militar durante a ditadura, cuja morte se tornou um símbolo da resistência estudantil.
“É um momento em que a nossa indignação se converte nesses protestos que têm tomado o país.”
Quem está participando dos atos? A UNE percebe uma mudança no perfil dos estudantes mobilizados ou na disposição da juventude para participar da política?
Bianca relata que as manifestações começaram nas universidades logo depois da divulgação dos resultados do primeiro turno.
O primeiro grande ato, segundo ela, aconteceu na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, quando uma assembleia convocada para organizar atividades de apoio a Lula reuniu mais de mil estudantes e ultrapassou a capacidade do auditório.
A mobilização acabou ocupando as ruas e atraindo outros participantes.
“O protagonismo e a maioria dos estudantes são universitários, organizados pelos seus centros acadêmicos, pelos diretórios centrais de estudantes, mas também temos tido a feliz surpresa da iniciativa e mobilização dos estudantes secundaristas.”
Ela cita a participação de alunos do Colégio Pedro II na organização da manifestação realizada no centro do Rio de Janeiro.
Também destaca a presença de trabalhadores e representantes de outros movimentos sociais nos atos, incluindo uma manifestação realizada em Brasília, em 13 de outubro.
Quais são as principais reivindicações que mobilizam os estudantes hoje?
A dirigente afirma que a defesa da universidade pública permanece entre as principais bandeiras da entidade.
Ela relembra o programa Future-se, apresentado em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, que propunha mudanças na gestão e no financiamento das instituições federais de ensino superior.
“Era um projeto que nós considerávamos que atacava o caráter público da universidade e que desvirtuava a universidade pública como nós a conhecemos, formada por esse tripé ensino, pesquisa, extensão.”
Na avaliação de Bianca, as universidades devem preservar suas funções de produção científica, formação profissional, pensamento crítico e participação social.
Ela também critica episódios ocorridos durante o governo anterior, incluindo declarações de Jair Bolsonaro sobre entidades estudantis e a nomeação de reitores que não haviam obtido a primeira colocação nas consultas realizadas pelas comunidades universitárias.
Essas experiências, segundo a presidente da UNE, influenciam a posição da entidade na disputa presidencial de 2026.
Quais propostas e posições políticas de Flávio Bolsonaro levam a UNE a considerar que sua candidatura representa riscos para a democracia e os direitos sociais?
Bianca afirma que a entidade acompanha com preocupação as propostas apresentadas pela candidatura de Flávio Bolsonaro para a educação e para os gastos públicos.
“O Flávio pouco tem debatido a educação, porque esse não é o centro da preocupação deles.”
A dirigente também aponta o financiamento das instituições de ensino superior como uma das principais preocupações.
“As nossas universidades sofrem por um subfinanciamento, que já se estende por mais de dez anos, que teve recomposições orçamentárias importantes neste último governo, mas corremos o risco de retroceder.”
Ela questiona como as instituições poderão manter laboratórios, atividades acadêmicas e programas de bolsas caso enfrentem novas restrições orçamentárias.
As declarações representam a avaliação política da presidente da UNE sobre a candidatura adversária.
Em seu programa de governo e em manifestações públicas, Flávio Bolsonaro afirma que pretende investir em educação e preservar o piso constitucional destinado ao setor.
Quais seriam as consequências para as universidades públicas e a assistência estudantil?
A presidente da UNE critica a proposta de transferir a gestão das universidades federais do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Segundo ela, a mudança poderia comprometer o financiamento e a amplitude das atividades universitárias.
“Ele anunciou essa medida dizendo que era necessário aproximar as universidades do setor produtivo.”
Bianca reconhece a importância de relacionar a produção acadêmica às necessidades econômicas do país, mas discorda da orientação que atribui à proposta.
“Nós defendemos as universidades no centro de um projeto nacional de desenvolvimento, ou seja, nós achamos que elas precisam estar conectadas às demandas produtivas do país também.”
A dirigente acrescenta que a universidade deve atender a objetivos mais amplos do que as necessidades imediatas do mercado de trabalho.
Flávio Bolsonaro defende a transferência do ensino superior para o MCTI como parte de uma reorganização administrativa voltada à aproximação entre universidades, pesquisa e setor produtivo.
O que a UNE entende por fascismo no contexto brasileiro atual? Quais características do bolsonarismo justificam o uso desse termo?
Ao explicar a caracterização política utilizada pela entidade, Bianca aponta o que considera práticas autoritárias, incluindo tentativas de enfraquecimento da organização popular e episódios de violência política.
“O autoritarismo. E, por autoritarismo, eu quero dizer a deslegitimação da organização popular, das entidades que são representativas de setores populares.”
A dirigente relata que universidades e organizações estudantis receberam ameaças de incêndios criminosos pelas redes sociais durante o período de mobilização.
Ela também menciona dois incêndios registrados na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), cujas circunstâncias estavam sob investigação.
“Tem dois incêndios na Universidade Federal de Pernambuco que estão sob apuração, a gente não pode afirmar se eles foram criminosos ou não.”
Bianca relaciona essas preocupações à memória histórica da UNE, cuja sede no Rio de Janeiro foi incendiada em 1º de abril de 1964, durante o golpe militar.
As ameaças relatadas e os incêndios citados não estabelecem, por si só, responsabilidade de grupos políticos específicos. A própria dirigente reconhece que a natureza dos episódios registrados na UFPE ainda depende de apuração.
Por que a UNE decidiu apoiar Lula?
Bianca afirma que a decisão resulta da avaliação política da entidade sobre os projetos apresentados pelos dois candidatos à Presidência.
Para ela, a reeleição de Lula permitiria manter políticas que a UNE considera relevantes para a educação pública e para os direitos sociais.
“O apoio ao presidente Lula, neste momento, representa a possibilidade de a gente barrar a chegada mais uma vez do bolsonarismo ao poder no Brasil.”
A dirigente também associa a posição da entidade à defesa da soberania nacional e manifesta preocupação com propostas de aproximação econômica entre o Brasil e os Estados Unidos.
As críticas à candidatura de Flávio Bolsonaro são posições expressas pela presidente da UNE e não conclusões independentes sobre as intenções ou consequências de seu eventual governo.
O que está em jogo nessa eleição para os estudantes e por que a entidade considera esse apoio necessário, embora haja críticas ao governo Lula?
A presidente da UNE reconhece que existem reivindicações não atendidas e divergências em relação às políticas educacionais do atual governo.
Mesmo assim, afirma que a entidade considera a continuidade das políticas de expansão do ensino superior um fator importante na definição de seu posicionamento.
“Nós avançamos muito nos últimos anos, queremos avançar mais.”
Bianca cita a ampliação das universidades federais, dos institutos federais e das oportunidades de acesso ao ensino superior como pontos valorizados pelo movimento estudantil.
Ela também sustenta que a organização política dos estudantes deve continuar independentemente da eleição, inclusive para cobrar medidas do governo que assumir a Presidência.
Que compromissos ainda faltam em relação às universidades, à assistência estudantil e à permanência dos alunos?
Entre as prioridades apresentadas pela presidente da UNE está o fortalecimento do Plano Nacional de Assistência Estudantil, com recursos suficientes para atender estudantes em situação de vulnerabilidade econômica.
“A consolidação do Plano Nacional de Assistência Estudantil com orçamento robusto, porque existem hoje na universidade brasileira muitos estudantes de baixa renda que enfrentam imensa dificuldade para conseguir permanecer.”
A dirigente também defende a ampliação do financiamento das universidades federais e estaduais.
Segundo ela, a UNE apoia uma proposta de emenda à Constituição em tramitação na Câmara dos Deputados para permitir repasses federais às universidades estaduais.
Outra reivindicação é a destinação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) à educação pública.
Bianca também defende maior fiscalização das instituições privadas de ensino superior, com o objetivo de assegurar a qualidade da formação oferecida.
O que a UNE diria aos jovens que não se identificam com nenhum dos candidatos e não acreditam que a política institucional seja capaz de responder às suas necessidades?
Bianca reconhece o desinteresse de parte da juventude pela política institucional e afirma que a dificuldade de mobilizar esse público está entre os principais desafios enfrentados pelo movimento estudantil.
“Esse tem sido nosso principal desafio: encantar os que não estão encantados com a política e com as possibilidades que se colocam.”
Ela considera legítimas muitas das insatisfações manifestadas pelos jovens, mas defende a participação em movimentos organizados como forma de apresentar reivindicações coletivas.
A presidente da UNE cita políticas educacionais, como o programa Pé-de-Meia, e debates sobre direitos trabalhistas, incluindo o fim da escala 6x1, como assuntos que mobilizam parte da juventude.
Para Bianca, a expansão das oportunidades de acesso ao ensino superior também ajuda a explicar a importância da participação dos estudantes nos debates públicos.
“Em um país como o Brasil, a educação ainda é sinônimo de dignidade, de poder viver uma vida melhor, proporcionar uma vida melhor para nossa família.”
Como a UNE pretende manter a mobilização para além do período eleitoral?
A dirigente afirma que o movimento estudantil pretende manter assembleias, centros acadêmicos, diretórios e outras formas de organização depois do segundo turno.
“O caminho para que as mobilizações sejam longevas, com certeza, é a organização dos estudantes no movimento estudantil.”
Bianca defende que as entidades continuem acompanhando as políticas educacionais e reivindicando investimentos, independentemente de quem vença a eleição presidencial.
“Independentemente do resultado eleitoral, seja com Flávio Bolsonaro, em que nós teremos que resistir muito em defesa da democracia e em defesa dos nossos direitos, seja com a reeleição do presidente Lula, que nos levará a um cenário de luta pelas nossas reivindicações, a nossa batalha com certeza não termina no dia 25 de outubro.”
Para a presidente da UNE, a continuidade da mobilização depende da participação permanente dos estudantes nas organizações representativas e da capacidade de transformar demandas educacionais em propostas e reivindicações dirigidas ao poder público.
Fonte: ABr