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'Prende e provoca', diz Denise Fraga sobre protagonista que quer morrer em filme

FolhaPress 10/09/2025 16:11

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O riso e o choro caminham juntos em "Sonhar com Leões", longa que estreia na quinta-feira (11) nos cinemas brasileiros. Dirigido pelo grego-português Paolo Marinou-Blanco, o filme apresenta uma tragicomédia sobre eutanásia, tema delicado que aqui ganha contornos de humor ácido e melancolia.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Na trama, Denise Fraga interpreta Gilda, uma imigrante brasileira em Lisboa que, após ser diagnosticada com doença terminal, decide planejar a própria morte. "Gilda não se arrasta, ela inventa meios, toma riscos, protagoniza até uma cena de ação", diz a atriz à reportagem. "O valor está justamente nessa contradição: a vitalidade dela para morrer."

Com apenas um ano de vida pela frente e após quatro tentativas frustradas de suicídio, Gilda busca apoio em uma organização clandestina chamada Joy Transition International, que promete ensinar doentes terminais a morrer sem dor.

É nesse espaço que ela conhece Amadeu (João Pedro Mamede), um funcionário de agência funerária que também luta contra uma doença terminal. Entre oficinas de eutanásia, fracassos e fugas improváveis, os dois acabam se tornando parceiros de uma aventura que mistura lirismo, humor e dor.

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Paolo explica que nunca pensou em alterar o destino da protagonista. "Em nenhum momento cogitei que Gilda pudesse sobreviver. Seria uma traição à personagem e também ao meu pai, que foi inspiração para o filme", avalia. "Além disso, eu sentiria que estaria desrespeitando pessoas que passam por escolhas tão difíceis. O objetivo não é dar uma resposta, mas provocar debate. Se ela sobrevivesse, a mensagem seria outra, quase uma negação da realidade."

Denise concorda que o roteiro só tem força porque encara a morte de frente. "Isso nos faz pensar muito. É um filme que começa como uma comédia quase fabular e termina como um suspense existencial. Essa virada é o que prende e provoca", afirma.

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O diretor ressalta que esse contraste sempre esteve nos planos: "Desde o início, a ideia foi trabalhar na chave da tragicomédia, com ironia e sátira, mas sem virar as costas para a dor. Há um ponto em que o tom muda e o espectador percebe que, apesar do humor, estamos diante de questões existenciais profundas".

Denise afirma que enfrentou um dos papéis mais desafiadores da carreira. "Foi um trabalho de precisão", comenta. "Paolo é muito rigoroso no que quer e eu também sou obsessiva com tempo cômico, com o olhar certo, o gesto exato. Essa é uma das personagens mais incríveis que já interpretei e me ensinou muito. Carreguei um pouco dela comigo depois das filmagens."

A química com João Pedro Mamede, parceiro de cena, também foi essencial. "Eu não o conhecia, mas nos tornamos grandes amigos. É um ator jovem, de enorme estofo intelectual e artístico", elogia. "A relação entre Gilda e Amadeu não é convencional, não é explicada. Ela simplesmente acontece, nasce da afinidade. E isso mostra que pessoas podem se amar por cumplicidade, por essa centelha que surge entre corpos afins, independente de idade ou gênero."

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Paolo reforça que essa escolha não foi por acaso. "Estamos acostumados a ver homens muito mais velhos com mulheres jovens no cinema sem questionar. Quando é o contrário, a estranheza aparece. Eu quis justamente subverter isso", diz. "O par Gilda-Amadeu mostra que a conexão verdadeira não obedece a estereótipos."

Outro detalhe que chama atenção no filme é a trilha sonora. Diferente de muitos longas nacionais, "Sonhar com Leões" aposta em silêncios. "Foi um desafio. Se a música pendesse demais para o leve, tiraria a importância de certas cenas. Se fosse muito pesada, perderíamos a ironia", explica Paolo. "Trabalhamos para que a música entrasse apenas quando pudesse intensificar um momento. Ela é quase uma personagem discreta, que aparece na hora certa."

Para Denise, o resultado é uma obra que desconcerta, mas também consola. "É raro a gente terminar um filme se sentindo bem com o próprio trabalho. Esse eu termino feliz. Gilda é muito diferente de mim, mas me transformou. E acho que pode transformar quem a assistir também", afirma.

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