Especialista alerta para impactos no cérebro, coração e fígado e orienta sobre recuperação após excessos
O período pós-Carnaval costuma expor os efeitos do consumo excessivo de bebidas alcoólicas durante a folia. Embora pesquisas indiquem mudança de comportamento no país — com 64% da população declarando não consumir álcool em 2025, segundo levantamento Ipsos-Ipec encomendado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) — o consumo episódico abusivo ainda representa risco relevante à saúde.
Entre jovens de 18 a 24 anos, o percentual de abstêmios passou de 46% para 64% entre 2023 e 2025. Apesar desse movimento, especialistas alertam que episódios pontuais de exagero podem provocar impactos significativos no organismo.
Segundo o clínico-geral Rede de Hospitais São Camilo, Thiago Piccirillo, o álcool é uma substância tóxica e psicoativa que desencadeia reações sistêmicas. No sistema nervoso central, atua como depressor, comprometendo julgamento e coordenação motora no curto prazo.
Ele cita ainda estudo conduzido pela Universidade de Oxford indicando que o consumo de álcool pode afetar a massa cinzenta do cérebro, com impacto proporcional à quantidade ingerida. A pesquisa é observacional e não passou por revisão por pares.
De acordo com o médico, alterações estruturais no cérebro estão associadas a quadros de ansiedade, depressão e distúrbios do sono. O sistema cardiovascular também pode ser afetado, já que o excesso de álcool eleva a pressão arterial e pode induzir arritmias agudas, além de aumentar o risco de cardiomiopatias e infartos.
O fígado, responsável por metabolizar cerca de 90% do álcool ingerido, pode desenvolver esteatose hepática e, em casos persistentes, evoluir para hepatite alcoólica e cirrose. O consumo excessivo também compromete temporariamente o sistema imunológico, reduzindo sua eficiência por até 24 horas após a ingestão.
Outros órgãos, como pâncreas e estômago, podem sofrer inflamações, como pancreatite e gastrite aguda, o que interfere na absorção de nutrientes e no controle glicêmico.
Recuperação após excessos
A orientação médica para o período pós-folia inclui foco em hidratação, alimentação adequada e descanso. O álcool tem efeito diurético, o que favorece a desidratação. Água, água de coco, sucos naturais e chás são indicados para auxiliar na recuperação.
Na alimentação, a recomendação é priorizar vegetais crucíferos, como brócolis e couve, que auxiliam nas enzimas hepáticas de desintoxicação, além de carboidratos complexos, como raízes e grãos integrais, para estabilizar os níveis de glicose no sangue.
O sono é considerado fundamental no processo de recuperação. O descanso adequado contribui para a eliminação de subprodutos metabólicos acumulados no cérebro. A recomendação é priorizar ao menos oito horas de sono nas primeiras noites após o feriado. Após esse período, a retomada gradual de atividades físicas leves pode estimular a circulação sem sobrecarregar o sistema cardiovascular.