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Polícia matou 17 pessoas por dia no Brasil, e 12 estados tiveram alta de letalidade

FolhaPress 24/07/2025 09:34

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Policiais militares e civis mataram um total de 6.243 pessoas ao longo do ano passado no Brasil. Embora isso tenha significado uma queda de 3% nos números absolutos, ainda representa uma média de 17 mortes por dia.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Além disso, como houve uma queda geral nos assassinatos em ritmo maior, a violência policial hoje é responsável por uma parte maior do total de mortes violentas intencionais no país.

Os dados são do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (24). A estatística inclui tanto casos em que os autores das mortes estavam em serviço e de folga —ou seja, representa não apenas a letalidade das operações oficiais das forças de segurança, mas da conduta dos policiais como um todo.

A violência do Estado aumentou num período em que o país passava por uma diminuição dos assassinatos. Em 2014, as mortes em intervenções da polícia respondiam por 5,1% do total de mortes violentas no país (em números absolutos, foram 3.146 vítimas). Dez anos depois, essa proporção subiu para 14,1%, com praticamente o dobro de mortes provocadas pelas forças de segurança.

Em paralelo aos 6.243 mortos, um total de 46 policiais foram mortos em serviço e outros 124 morreram de forma violenta quando estavam de folga. Isso significou uma queda de 4,5% na vitimização de policiais, o que está mais próximo da diminuição nas mortes violentas intencionais em geral no país (de 5,4%).

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As vítimas da violência policial foram, na maior parte, homens, negros e com idades entre 18 e 24 anos. A taxa de morte em intervenções policiais foi de 9,6 a cada 100 mil habitantes nessa faixa etária, e de 7,3 entre aqueles de 25 a 29 anos. Todas as demais faixas etárias têm taxas abaixo de 5 mortes a cada 100 mil

O estudo também aponta que o risco de uma pessoa negra ser morta pelas forças de segurança é 3,5 vezes maior do que o para uma pessoa branca.

São Paulo, o estado mais populoso, destacou-se pelo crescimento das mortes provocadas por policiais no segundo ano de mandato do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Foram 813 mortes provocadas por policiais, um aumento de 61% em relação a 2023.

Parte importante dessas mortes ocorreu durante a Operação Verão, que mobilizou centenas de policiais militares na região da Baixada Santista entre o fim de janeiro e o início de abril, em resposta à morte de um soldado da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, tropa de elite da PM). A Verão deixou um saldo oficial de 56 mortos, tornando-se a operação mais letal na história da corporação desde o Massacre do Carandiru, em 1992.

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Para a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, há uma conexão entre as mortes em que a polícia transgride padrões legais de conduta —quando matam quem não oferece risco à vida de ninguém— e os casos mais graves de corrupção, quando agentes do Estado passam a colaborar com o crime organizado.

Num artigo publicado no Anuário com outros dois pesquisadores —Leonardo de Carvalho, da UFRJ, e Thais Carvalho, da USP—, Samira lembra de um dos assassinatos de maior repercussão de 2024: o de Antônio Vinícius Gritzbach, delator do PCC (Primeiro Comando da Capital) fuzilado no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Dezoito policiais militares foram denunciados, inclusive três acusados de matá-lo na área de desembarque.

"Se o controle do crime organizado é uma prioridade, o controle das forças policiais também precisa ser priorizado. O policial corrupto também é o policial que aperta o gatilho, e o policial que aperta o gatilho também é corrupto", disse Samira à Folha. "É muita ingenuidade achar que essas coisas não têm conexão."

Nos últimos anos, a letalidade policial fez surgir o debate sobre a obrigatoriedade do uso das câmeras corporais pela Polícia Militar. Os equipamentos têm servido como meio para obter provas de crimes cometidos por policiais em vários casos desde sua implementação, a exemplo da prisão em flagrante de dois PMs pela morte de um suspeito que já estava rendido há duas semanas em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.

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Até dezembro do ano passado, dez estados tinham programas de câmeras corporais em andamento nas suas PMs, segundo estudo do Fórum. Outros dez estavam em fase de testes e implementação dos equipamentos. Amazonas, Mato Grosso, Tocantins, Goiás, Distrito Federal e Sergipe não tinham programas de câmeras em andamento nem previsão de implementá-las na tropa.

O caso mais singular é o de Santa Catarina, que teve o programa pioneiro no Brasil e o encerrou em setembro do ano passado. A gestão Jorginho Mello (PL) disse, à época, que a tecnologia dos equipamentos estava obsoleta, que havia "fragilidade e vulnerabilidade nos quesitos de segurança", e que faltavam verbas para continuar o programa.

Não houve variação no número de mortes provocadas por policiais em Santa Catarina em 2024, mas a PM passou a maior parte do ano com o programa ainda em vigor.

*

Proporção da letalidade policial nas mortes violentas

Dados de 2024 (em %)

Amapá - 38%

Sergipe - 28%

Goiás - 27%

Bahia - 26%

Pará - 24%

São Paulo - 22%

Mato Grosso - 19%

Rio de Janeiro - 18%

Paraná - 18%

Tocantins - 16%

Mato Grosso do Sul - 16%

Brasil - 14%

Santa Catarina - 12%

Rio Grande do Norte - 10%

Rio Grande do Sul - 9%

Espírito Santo - 8%

Alagoas - 7%

Minas Gerais - 6%

Distrito Federal - 6%

Acre - 6%

Ceará - 5%

Paraíba - 5%

Piauí - 4%

Roraima - 4%

Amazonas - 4%

Maranhão - 4%

Pernambuco - 2%

Rondônia - 2%

Fonte: 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública

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