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Poeira Pura faz da roda de samba uma festa para pessoas negras e LGBTs

FolhaPress 20/10/2024 14:04

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Nas imagens gravadas com filtro quente, transborda na tela o calor do ambiente regado a álcool, celebração, fumaça de cigarros, música e sedução. Gente preta, gente de tons de pele que Gilberto Gil já definiu como "povo chocolate e mel", tênis Nike, Tranca Rua, beijo gay, beijo triplo, corpos sem camisa, decotes, repique de mão, guitarra, dispositivos eletrônicos, Zé Pelintra, samba no pé.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O refrão sustenta: "Meu samba é a cura em forma de suor e febre/ Putaria, liturgia, o antigo e o novo". "Suor e Febre" é o primeiro clipe do Poeira Pura, marcando o início do trabalho autoral da roda de samba acústica que se popularizou no Rio de Janeiro a partir de 2021, e que já realizou edições em São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Salvador.

"Poeira Pura, o nome, já é uma provocação", diz Mateus Professor, criador da roda ao lado de Rogério Família. "Porque a poeira é feita de impureza. Poeira pura, na verdade, é pura impureza. O que a gente faz é assumir essa poeira da rua, do movimento. A poeira que tá no ar".

"Suor e Febre" tem, portanto, um valor de manifesto em sua poética de encruzilhada, com versos que cruzam veneno e remédio, putaria e liturgia, antigo e novo. É a tentativa de levar para a lógica de banda, de palco, o pensamento que vem guiando a roda desde seu nascimento em 2019. Um pensamento radicalmente inclusivo no olhar sobre a sociedade, e sobre o samba --mais do que isso, a partir do samba.

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"De vez em quando, a galera do ambiente do samba tradicional vem falar da nossa roda: 'pô, os caras vão ficar se beijando na boca?'", conta Família. "Eles vêm dizer que é 'samba de veado'. Eu respondo que é samba de veado, de macumbeiro, de puta, de polícia, de desempregado. É samba de gente".

As redes sociais do Poeira Pura refletem e potencializam essa postura, com imagens do público que retratam a beleza negra, carregada na sensualidade. "'Desde o início a gente queria investir numa estética mais arrojada. Mais urbana, menos saudosista", explica Professor.

"A ideia é comunicar com uma galera nova que trafega pelo funk, pelo hip-hop, pela cultura afrourbana da contemporaneidade. Uma comunicação mais sensual, mais noturna, mais quente, para falar com quem curte Anitta, Ludmilla, Racionais, Oruam", completa Família.

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Mais do que simplesmente uma opção de marketing, eles buscam fundamento num olhar que entende o samba como cultura viva, pulsante. Isso implica na presença do sexo e da alegria -- assim como da luta política. O Poeira Pura se afirma como espaço inegociável da negritude.

"Poeira Pura não é excludente nem exclusivo, porém é da comunidade preta. Quem criou o samba foi a comunidade preta. E criou para ser um lugar de acolhimento", Família aparece falando em um vídeo publicado no perfil da banda no Instagram.

Noutro post, é destacada uma fala de Marina Reis, produtora do Poeira Pura. "Se você, que não é pessoa negra ou originária, não consegue compreender que esse espaço não é pensado para atender prioritariamente suas demandas e desejos, um recado: não venha! O Poeira não é pra você."

Portanto, o samba como espaço modelo da ideia de democracia racial, na qual se harmonizam livremente e sem conflito negros e brancos, pobres e ricos, partido-alto e bossa nova, é uma ideia que o Poeira Pura procura tensionar.

"Existe a ideia de conservar o samba num passado ideal que nunca existiu. A gente tem que escalar esse conflito, porque já não cabe mais esse papo de que o samba é para todo mundo, que o Brasil é uma democracia racial, que racismo não existe, que machismo ficou no passado. A gente vai negociando de acordo com o momento, mas esse dedo na ferida a gente nunca deixa de colocar."

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A roda --que ficou famosa na Casa do Nando e hoje acontece na Casa Savana, ambas no Centro do Rio-- abre espaço para canções como "Banho de Folhas", da Luedji Luna, e "Baby 95", da Liniker, mas elas são exceções. O repertório é fundamentalmente garimpado da história do samba, dos clássicos aos sucessos.

A dinâmica leva em conta a lógica orgânica da roda, sobretudo por não usar aparelhos amplificadores --o que faz com que a banda dependa do gogó da plateia.

Já na passagem para o estúdio, trabalho no qual o Poeira Pura dá seus primeiros passos, a ideia é explorar outras sonoridades, como mostra "Suor e Febre" --em novembro, eles apresentam o segundo single no Circo Voador, dentro da programação da Flup, a Festa Literária das Periferias.

Ter o samba, portanto, não como limite, e sim potência. "Talvez o que falte para o samba como movimento é se entender como árvore", diz Professor. "Porque a raiz nutre e sustenta. Mas quem transforma o nutriente que a raiz capta em alimento para a planta é a fotossíntese, que é feita na folha."

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