Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 09h46m
Vitória News — Um jornal de verdade
Variedades

Pixar interferiu em 'Elio', que tinha protagonista queer em sua versão original

FolhaPress 01/07/2025 13:12

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lançado em junho pela Pixar, "Elio" originalmente retrataria seu protagonista como um personagem queer. É o que disseram fontes de dentro do estúdio, à revista especializada The Hollywood Reporter, sobre os bastidores da animação, que amargou a pior abertura em bilheteria da história da empresa.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Segundo funcionários da Pixar, as primeiras versões do filme, que sofreu mudanças ao longo do processo, eram mais próximas das ideias de seu criador, Adrian Molina, que é um homem gay e deixou a produção sob o pretexto de assumir a continuação de "Viva: A Vida É uma Festa".

Eles descrevem duas cenas específicas, citadas pela reportagem —numa delas, o menino Elio coletava objetos numa praia para produzir novas peças de roupa, incluindo um top rosa.

Em outra sequência, fotografias de seu quarto sugeriam interesse por outro garoto. Segundo o texto, entretanto, o cineasta nunca teve a intenção de que a narrativa do menino de 11 anos fosse sobre "sair do armário".

Nem por isso a produção deixou de sofrer interferências. A relação de Elio com a moda foi um aspecto retirado do filme, e, com o tempo, os supervisores da produção teriam buscado reforçar a masculinidade do personagem.

SESC PICASSO

"Ficou muito claro, durante o desenvolvimento da primeira versão, que [líderes do estúdio] estavam constantemente derrubando os momentos do filme que sugeriam a sexualidade de Elio como sendo queer", afirmou um artista que trabalhou na Pixar que esteve envolvido com os primeiros estágios da animação.

A situação se agravou quando o desenho passou por uma exibição-teste, em 2023. Segundo a revista, apesar de elogios, ninguém do público levantou a mão quando questionado sobre se este seria um filme que os levaria às salas de cinemas.

Foi nessa mesma época que Molina teria apresentado a sua versão mais recente à chefia da Pixar. Embora não exista um consenso a respeito das reações de Pete Docter, presidente do estúdio, fontes anônimas dizem que o diretor ficou magoado com a resposta.

Ele se ausentaria do projeto pouco depois, mas a notícia só viria a público no ano passado. O pretexto foi a agenda exigida por outra produção, que este ano foi revelada como sendo "Viva 2".

Molina teria tido a opção de seguir com o projeto ao lado da diretora Madeline Sharafian, que estava se juntando ao projeto. Diante das mudanças impostas sobre a sua ideia original, porém, decidiu abandonar de vez o filme e Domee Shi, de "Red: Crescer É uma Fera", tomou o seu lugar.

CONTADOR - BONUS

"De repente, você remove essa peça chave, que é sobre identidade, e 'Elio' se torna um filme sobre absolutamente nada", diz um dos ex-artistas da Pixar no texto.

"Quando vou aos parques da Disney e vejo pessoas gostando dos filmes que fizemos, a esperança é que criamos algo que pode fazer qualquer um se sentir visto", disse Sharafian em entrevista à Folha de S.Paulo, em que ela ainda fala sobre os esforços que ela e Shi fizeram para preservar as raízes latinas do diretor no projeto.

O filme arrecadou cerca US$ 20 milhões em seu final de semana de estreia e teve um orçamento estimado em US$ 150 milhões, segundo o IMDb. Entretanto, outro artista envolvido com a produção afirma que o orçamento teria excedido esse valor, por conta das mudanças e adiamentos.

Apesar das controvérsias, o desenho foi bem recebido pela crítica e conquistou 83% de aprovação da crítica no agregador de avaliações Rotten Tomatoes. Os funcionários concordam que Sharafian e Shi fizeram o melhor trabalho possível diante das circunstâncias.

Anuncio - Raimundo - Bonus

Mesmo assim, muitos integrantes da equipe abandonaram o projeto após a apresentação do primeiro corte dirigido pelas duas.

"O êxodo de talento depois daquele corte demonstra o quão infelizes as pessoas estavam com o fato de que haviam mudado e destruído um lindo trabalho", diz a ex-editora assistente da Pixar, Sarah Ligatich, na reportagem. Ex-integrante do conselho LGBTQIA+ do estúdio, ela seguiu o desenvolvimento inicial do desenho.

O caso de "Elio" não é o único na história recente da Pixar. No ano passado, uma entrevista de Docter levantou discussões após a afirmação de que o estúdio deveria investir em histórias universais, o que muitos interpretaram como uma tentativa de afastamento em relação a temáticas identitárias.

Antes disso, em 2023, a estreia do filme "Lightyear", derivado da saga "Toy Story", trouxe polêmica após a viralização de uma cena envolvendo um beijo entre duas mulheres. O momento dura poucos segundos e se tornou alvo de críticas nas redes sociais.

Este ano, o lançamento da primeira série original da Pixar, "Ganhar ou Perder", que chegou ao Disney+ em fevereiro, levantou um debate a respeito de uma personagem trans, que segundo um porta-voz do estúdio acabou sendo cortada.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas