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Petrobras já treina resgate de animais atingidos por óleo na Foz do Amazonas, e invasões avançam em Oiapoque

FolhaPress 08/02/2025 09:58

BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - A Petrobras já faz treinamentos em campo na região de Oiapoque (AP), no extremo norte do país, em que técnicos são preparados para resgate e transporte de animais que possam ser atingidos por óleo em eventual acidente na prospecção de petróleo no chamado bloco 59, na margem equatorial brasileira.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Os treinamentos incluem exercícios práticos para locomoção por áreas de lama, numa região altamente sensível em termos de biodiversidade, regida por um ciclo de marés e constituída predominantemente por mangues, de difícil acesso. Exercícios do tipo foram feitos nesta semana, com o uso de tapetes flutuantes que permitem acesso a áreas enlameadas.

As ações da estatal na região ocorrem antes da concessão da licença ambiental para a perfuração do poço na bacia Foz do Amazonas, que fica a 160 km da costa brasileira no Amapá.

O presidente Lula (PT) pressiona para que a licença seja concedida e passou a intensificar os discursos a favor do empreendimento. Vão na mesma linha o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo Lula no Congresso.

A expectativa de que o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) vai expedir a licença, diante do avanço do processo do licenciamento, gerou uma movimentação de diferentes atores do empreendimento em Oiapoque, além de um avanço de fluxos migratórios e ocupações de casas em áreas verdes da cidade.

Além do treinamento de resgate, já foram levados para os rios em Oiapoque embarcações adaptadas para a coleta de animais que venham a ser impactados por óleo, em caso de vazamento na plataforma.

Também está sendo costurado um acordo para que embarcações maiores, dentro do plano de proteção à fauna, fiquem ancoradas em dependências do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Em nota, o Ibama disse que as lanchas de atendimento a fauna oleada foram apresentadas como parte da estrutura de resposta a emergências e estão em análise pela equipe técnica. Sobre incursões de equipes da Petrobras na região, o órgão ambiental afirmou que não acompanha "atividades paralelas do empreendedor".

SESC PICASSO

A estatal, também em nota, disse que a unidade de acolhimento de animais em Oiapoque funcionará em "sinergia" com o centro de despetrolização de fauna em Belém. "Ao todo, serão mais de cem profissionais dedicados à proteção animal."

A Petrobras afirmou estar otimista quanto à licença para perfuração em águas profundas no Amapá. "Será possível realizar a avaliação pré-operacional e em breve obter a licença."

Na região de Oiapoque está o Parque Nacional do Cabo Orange, o ponto extremo do Amapá que invade o oceano Atlântico. O parque, administrado pelo ICMBio, se estende por 590 km de litoral. É um gigante berçário de peixes, uma área de mangue e floresta que garante a sobrevivência de milhares de pescadores.

A unidade está no ponto de contato entre o rio Oiapoque e o oceano. Pode ser considerada como a porção de terra mais próxima do bloco que a Petrobras pretende perfurar.

Além da presença dos barcos, a Petrobras constrói uma unidade de estabilização e despetrolização de animais em Oiapoque, na BR-156. A licença para a construção da unidade foi concedida em dezembro pela Secretaria do Meio Ambiente do governo do Amapá.

As obras estão em ritmo acelerado, segundo profissionais que atuam na região, e a previsão da estatal é que seja concluída neste semestre.

Esse entreposto para animais impactados por óleo, em caso de acidente, terá capacidade para atender aves, répteis e mamíferos marinhos, como cetáceos de até três metros e peixes-boi, segundo a Petrobras.

"Após sua conclusão e operacionalização, [o centro de atendimento] passará por vistoria pelo Ibama, como parte da avaliação da estrutura de resposta a emergências para a atividade", afirmou o órgão ambiental do governo federal.

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Os treinamentos já em curso, as embarcações e a construção do centro de reabilitação de animais estão a cargo de uma empresa contratada pela Petrobras, a Mineral Engenharia e Meio Ambiente. O empreendimento foi contratado para executar o plano de proteção à fauna, cobrado pelo Ibama no curso do licenciamento.

Técnicos da Petrobras também fazem visitas frequentes à região. Na última visita feita, percorreram áreas do entorno do Parque do Cabo Orange e fizeram fotos.

"Em todas as áreas em que atua, a companhia desenvolve ações de reconhecimento de campo, treinamentos e iniciativas de comunicação, com o objetivo de desenvolver suas operações de forma segura e ambientalmente responsável, com respeito às pessoas e às comunidades locais", disse a estatal.

Toda a movimentação na cidade, antes mesmo da licença, tem um efeito no boca a boca sobre oportunidades de emprego na região, embora não exista nada certo sobre o que vai ocorrer.

O que já é concreto é a intensificação de fluxos migratórios para Oiapoque. São pessoas de diferentes partes do país, especialmente de outros lugares da região Norte, que se mudam para a cidade na expectativa de alguma oportunidade.

A reportagem esteve na região em julho de 2024 -ocasião em que a reportagem percorreu as bordas do Cabo Orange e comunidades indígenas dispostas em rios distintos do rio Oiapoque- e constatou que, no ambiente urbano, ocupações aumentaram exponencialmente, ao longo de estradas que levam ao aeroporto da cidade.

As principais ocupações naquele momento eram a Areia Branca e a Nova Conquista. Agora existem outras ocupações em expansão, que avançam por áreas de floresta e que se conectam com bairros já existentes, segundo profissionais que acompanham as movimentações em Oiapoque decorrentes do petróleo. São os casos de Belo Monte e Novo Canaã, segundo esses profissionais ouvidos pela reportagem.

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"Os estudos apresentados pela Petrobras ao Ibama não previram esse tipo de impacto", disse o órgão. "A gestão territorial e de ocupação do uso do solo não é de competência do licenciamento ambiental da atividade em questão. Cabe ao município e ao estado a atribuição de fiscalizar eventuais ocupações irregulares em curso no seu território."

Fora da cidade, lideranças indígenas da região dizem que existe uma pressão da Petrobras para que o empreendimento seja aceito pelas comunidades.

Os ciclos das marés influenciam a vida de boa parte dos 12 mil indígenas, de quatro etnias, que vivem em três territórios demarcados na região de Oiapoque. Esses indígenas foram ignorados pela estatal e não houve um processo de consulta às comunidades -são 66 aldeias ao todo.

As modelagens feitas pela Petrobras sustentam que, em caso de vazamentos, o óleo não tocaria a costa brasileira -isso poderia ocorrer com a costa de oito países e dois territórios da França, vizinhos do Brasil e no Caribe, conforme essas modelagens.

No plano de monitoramento e resgate de animais que a Petrobras apresentou ao Ibama, em novembro, a estatal afirma: "Conservadoramente e em função da sensibilidade ecológica do Parque Nacional do Cabo Orange, ações de monitoramento costeiro são também previstas em sua fração norte, próximo à foz do rio Oiapoque, em Oiapoque (AP)".

Um helicóptero ficaria disponível para emergências. A estrutura de resposta, em caso de derramamento de óleo, "definirá a alocação das aeronaves, de acordo com a demanda apresentada no cenário acidental".

A definição de um plano para fauna oleada em casos de acidentes, com estruturas em Oiapoque, não somente em Belém, foi uma exigência técnica do Ibama. Com a adoção das medidas, a Petrobras espera que o órgão ambiental conceda a licença.

O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, encaminhou o material apresentado pela estatal para análise dos técnicos, num despacho em 18 de dezembro.

No último dia 21, a Petrobras apresentou mais informações sobre o plano, e disse aguardar o aval do Ibama para que "possamos iniciar a preparação da sonda".

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