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Pará prevê 7% da arrecadação com créditos de carbono a médias e grandes fazendas, e MPF diz ver 'total incoerência'

FolhaPress 06/06/2025 17:15

BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - O governo do Pará previu repartir com médias e grandes propriedades rurais uma fatia de 7% da arrecadação com créditos de carbono no estado, mesmo percentual previsto para agricultores familiares.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Em reunião na sede do MPF (Ministério Público Federal) em Belém, em novembro de 2024, uma apresentação de dados do governo de Helder Barbalho (MDB) detalhou a proposta de repartição de benefícios, a partir de eventual arrecadação com venda de créditos de carbono a serem gerados por um programa do estado.

Segundo os dados mostrados, a repartição contemplaria as seguintes fatias: povos indígenas, 24%; extrativistas, 14%; quilombolas, 14%; agricultores familiares, com áreas de até quatro módulos fiscais, 7%; e produtores rurais com áreas acima de quatro módulos fiscais, 7%. Os outros 34% se destinariam à proteção e ordenamento territorial e à gestão do sistema em fase de criação.

O tamanho de um módulo fiscal varia de cidade para cidade, conforme o perfil de cada lugar. No Pará, um módulo pode chegar a 75 hectares. Uma propriedade média tem mais de quatro módulos e um grande imóvel rural, mais de 15 módulos fiscais, segundo critérios do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

Créditos de carbono são gerados a partir de desmatamento evitado da floresta. Empresas que querem compensar suas emissões de gases de efeito estufa compram esses créditos.

Estados amazônicos, como o Pará, desenvolvem programas próprios, mas comunidades tradicionais no estado –responsáveis pela preservação– dizem não ter sido consultadas. O governo paraense já assinou um contrato para venda futura de créditos de carbono no valor de R$ 1 bilhão. Na última terça-feira (3), o MPF ingressou com ação na Justiça Federal com pedido de anulação do contrato.

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Em dezembro, MPF e MP (Ministério Público) estadual manifestaram contrariedade com a repartição de benefícios planejada pelo governo do Pará.

"O pequeno produtor receberá o mesmo percentual, 7%, que os médios e grandes proprietários de terra do Pará, tratando, portanto, da mesma forma grupos com disparidades profundas", afirmaram 18 procuradores da República e promotores da Justiça em um documento com recomendações assinado em 6 de dezembro.

Entre as nove recomendações feitas ao governo do Pará, uma tratou da repartição de benefícios a produtores rurais. O MPF e o MP do Pará pediram que os 7% destinados a "médios e grandes proprietários rurais" fossem redistribuídos a agricultores familiares e comunidades tradicionais.

Isso deveria ocorrer em razão da "total incoerência da participação dos maiores causadores das mudanças climáticas na repartição de benefícios desse sistema", afirmaram os procuradores e promotores. A mudança deveria ocorrer em 30 dias úteis, conforme a recomendação feita.

A reportagem da Folha de S.Paulo questionou o governo do Pará sobre a recomendação.

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Em nota, a Semas (Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade) afirmou que os recursos não serão transferidos diretamente aos produtores, mas investidos em políticas públicas voltadas à sustentabilidade nas áreas produtivas. O objetivo, segundo a Semas, é combater o desmatamento nessas áreas.

"O percentual proposto é de 7% para a produção agropecuária sustentável, independentemente do tamanho da propriedade", disse o governo. No Pará, conforme a secretaria, 90% dos imóveis destinados à pecuária têm até quatro módulos fiscais ou são assentamentos de reforma agrária.

"O estado está executando o maior processo de consultas a povos e comunidades tradicionais de sua história. São 47 consultas a essas comunidades sobre o sistema jurisdicional de REDD+ [o sistema que permite a geração e venda dos créditos de carbono], processo em que a repartição de benefícios é uma das principais pautas", cita a nota.

Na apresentação feita ao MPF, em novembro, foram listadas as ações previstas para agricultores familiares e para proprietários rurais em áreas superiores a quatro módulos fiscais, como pagamento por serviço ambiental, assistência técnica e rastreabilidade animal.

A ação civil pública protocolada pelo MPF no último dia 3 pede a suspensão imediata e a anulação do contrato de venda futura de créditos de carbono, no valor de R$ 1 bilhão.

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Na ação, assinada por 20 procuradores, o MPF pede que o governo de Barbalho seja condenado a pagar danos morais coletivos no valor de R$ 200 milhões, por ter vendido receitas de ativos ambientais sem a devida consulta livre a comunidades tradicionais e por ter estabelecido uma cláusula contratual de ressarcimento a uma instituição intermediária do negócio.

Os alvos da ação são o Estado do Pará e a Companhia de Ativos Ambientais e Participações do Pará, vinculada ao governo local.

A União também foi citada na ação, para que se abstenha de conceder carta de autorização para que o governo do Pará busque uma certificadora internacional, de forma a validar os créditos de carbono.

Segundo a Procuradoria, o contrato configura venda antecipada dos créditos, o que é proibido pela lei que passou a regulamentar o mercado de carbono no país, conforme os procuradores.

Enquanto não houver adequação à legislação, o Estado do Pará deve ser impedido de receber pagamentos por créditos de carbono, pede a ação.

Os procuradores afirmam que o governo de Barbalho tenta aprovar esse sistema de créditos antes da COP30 (conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas), "o que tem gerado considerável pressão sobre povos indígenas e comunidades tradicionais no Pará, com o intuito de uma célere aprovação do referido sistema". Belém sediará a COP30 em novembro.

O governo do Pará afirmou que o contrato é um pré-acordo com condições comerciais futuras, sem transações efetivas ou obrigação de compra antes da verificação da redução de emissões. "Está integralmente dentro da legalidade", disse.

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