Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 11h05m
Vitória News — Um jornal de verdade
Geral

OAB-SP diz ver retrocessos na gestão Derrite e cria comissão especial de segurança pública

FolhaPress 25/06/2024 10:37

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Preocupada com os rumos tomados pela política de segurança pública na gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), a seccional paulista da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) decidiu criar uma comissão especial para tentar frear retrocessos que diz ver na profissionalização das polícias de São Paulo.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A comissão será presidida pelo advogado Alberto Zacharias Toron, e terá a participação de representantes de setores da sociedade civil, ainda a serem convidados pela OAB, como do Instituto Sou da Paz, da Conectas Direitos Humanos e das próprias polícias estaduais.

Segundo Toron, a decisão de criar o grupo foi tomada após uma série de notícias que trouxeram preocupação à entidade. Entre elas o aparente fim da política de redução da letalidade policial e a interferência do secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite, na cúpula da Polícia Militar.

"A Polícia Militar, antes deste governo, vinha desenvolvendo um programa para diminuir a letalidade nas ações policiais. O que a gente vê, a partir dessa reforma empreendida pelo secretário, é que se abandonou esse programa, feito a duras penas, uma verdadeira conquista, um momento de superação da própria Polícia Militar em termos de métodos de trabalho", disse o advogado.

O criminalista critica, nesse contexto, a ideia do governo paulista de adotar um modelo de câmeras corporais nas PMs com o botão de liga e desliga, abandonando o sistema atual de gravação ininterrupta.

"Isso é muito ruim, é um indicador, uma sinalização de um retrocesso em termos da ação policial. Nos parece muito ruim, nos preocupa, e nós vamos trabalhar essas e outras questões junto a outras entidades", afirmou Toron.

SESC PICASSO

Ainda conforme o advogado, conselheiro federal da OAB, Derrite fez uma espécie de "arrastão na cúpula da PM" para colocar pessoas afinadas politicamente a ele. "É uma espécie de instrumentalização da polícia."

Conforme reportagens da Folha, o secretário movimentou 34 coronéis da cúpula da PM, mudanças feitas em fevereiro deste ano, e rebaixou de cargo os oficiais favoráveis às câmeras corporais e à política de redução da letalidade, como o coronel José Alexander de Albuquerque Freixo, subcomandante-geral. O oficial foi para reserva nesta semana, após um período de afastamento.

Para os postos-chaves, chamados internamente de núcleo da PM, Derrite indicou apenas oficiais alinhados a ele e todos com passagem pela Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), principal tropa de elite da corporação e com histórico de altos índices letalidade nos enfrentamentos.

"Nossa preocupação é que a Polícia Militar volte a ser uma polícia que mate muito e faça pouco policiamento. Ou seja, uma polícia mais letal, uma polícia de pior qualidade", disse Toron.

CONTADOR - BONUS

Entre outros pontos que devem ser acompanhados pela comissão é a crise entre as polícias Civil e Militar envolvendo a elaboração do Termo Circunstanciado pelos militares, e também apurações conduzidas dentro de batalhões que deveriam ficar à cargo de delegados e investigadores.

O advogado se refere ao episódio envolvendo a morte de um aposentado na zona leste da capital, em suposto tiro acidental de um sargento, e cuja prisão em flagrante do PM foi feita pela própria corporação. O caso só foi levado para a Polícia Civil tempos depois, após o caso ser revelado pela Folha.

"Não é só um problema de eventual despreparo, que me parece estranho esse disparo, ainda mais vindo de um sargento. Mas a questão fundamental é não ter sido levado o fato à delegacia de Polícia Civil, ficando no âmbito de uma investigação, entre aspas, corporativa da Polícia Militar."

Toron continua: "Este assunto também se imbrica com outro, que é a questão da lavratura dos termos circunstanciados de ocorrência por policiais militares. Nós entendemos que essa é uma atividade privativa da Polícia Civil".

Outro ponto de discórdia agravada na gestão Derrite foi a predileção de PMs por parte do Ministério Público em operações de combate ao crime organizado, em detrimento dos delegados.

"Me parece equivocada a ideia de levar apenas policiais militares e não trabalhar com a Polícia Civil. O que a gente vê é uma crescente militarização da segurança pública, e isso nos parece um grande equívoco. A Civil é uma polícia importante, com métodos importantes, e ela não pode ser alijada desse processo nas operações. É preciso questionar também ao Gaeco por que ele chama a PM e não a Polícia Civil."

Anuncio - Raimundo - Bonus

GOVERNO DIZ INVESTIR EM TREINAMENTO DE POLICIAIS

Desde o início da gestão atual, a Secretaria da Segurança Pública afirma ter investido para aprimorar e modernizar as políticas de segurança. Há avanços importantes como a manutenção de uma taxa de homicídios mais baixa e reduções expressivas em crimes violentos e contra o patrimônio.

"No ano passado, houve queda nas mortes intencionais, latrocínios, lesão corporal seguida de morte e em todas as modalidades de roubos. Nos primeiros quatro meses de 2024, a tendência se manteve, com recuo nos indicadores de homicídios, estupros, e nos furtos e roubos em todas as suas modalidades", diz o governo, em nota.

A gestão Tarcísio cita também a quantidade de droga apreendida e de pessoas presas e apreendidas. Segundo o governo, o resultado faz parte de investimentos em tecnologia, veículos e amas, concentrando esforços para combater o crime organizado.

"A pasta também investe permanentemente na capacitação dos policiais e no aprimoramento dos procedimentos e estruturas investigativas de agentes das forças de segurança", afirma.

O governo não fez comentários sobre o suposto fim do programa de redução de letalidade policial, nem sobre as críticas a uma possível interferência de Derrite na PM.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas