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O preço da violência na Serra

Vitória News 02/09/2026 08:52
O preço da violência na Serra
Foto: Edson Reis/Secom/PMS

Por Marcelo Rossoni

A Serra é uma potência econômica. Tem localização privilegiada, grandes corredores logísticos, áreas para expansão empresarial, parque industrial consolidado e uma das maiores economias do Espírito Santo. No papel, quase um convite irrecusável para quem procura endereço para instalar uma fábrica, um centro de distribuição ou uma nova operação comercial.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O problema é que, ultimamente, a criminalidade também parece ter descoberto as vantagens de se instalar por lá.

Os números de 2026 não recomendam euforia. No acumulado divulgado em julho, a Serra chegou a 61 homicídios, à frente de Vila Velha, com 54; Cariacica, com 44; Linhares, 32; São Mateus, 26; e Vitória, 20.

Não é exatamente o tipo de primeiro lugar que costuma aparecer nas apresentações destinadas a investidores.

E os homicídios não caminham sozinhos. Nos cinco primeiros meses do ano foram registrados 697 roubos a pessoas na Serra, contra 650 em Cariacica, 613 em Vila Velha e 454 em Vitória. Entre os quatro grandes municípios metropolitanos comparados, portanto, a Serra novamente ocupou o lugar mais alto do pódio.

Naturalmente, existem números melhores para apresentar.

Os crimes contra o patrimônio diminuíram 21,1% nos cinco primeiros meses de 2026 em comparação com igual período de 2025. Os furtos recuaram 22,8%, os roubos 19,8% e também houve queda expressiva nos assaltos ao transporte coletivo.

Tudo verdadeiro.

A estatística tem essa qualidade extraordinária: dependendo da gaveta que se abre, sempre existe alguma coisa capaz de melhorar o humor.

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O cidadão, entretanto, costuma trabalhar com uma matemática menos sofisticada. Para quem foi assaltado, pouco consola saber que naquele mês houve menos assaltos do que no mesmo mês do ano anterior. E para a família de uma vítima de homicídio, redução percentual dificilmente funciona como argumento tranquilizador.

O prefeito Weverson Meireles não ficou parado. Sua administração convocou novos agentes para a Guarda Civil Municipal, manteve ações de videomonitoramento e buscou ampliar a integração entre os organismos envolvidos na segurança pública.

As providências existem e devem ser reconhecidas.

O inconveniente são os resultados.

Os números de 2026 indicam que as medidas adotadas até agora não foram suficientes para conter a violência na dimensão em que ela se apresenta na Serra. Talvez seja necessário aumentar a dose, porque o remédio administrado aparentemente ainda não produziu o efeito esperado.

É preciso fazer também uma ressalva indispensável. Segurança pública não é responsabilidade exclusiva da Prefeitura. Polícia Militar, Polícia Civil, investigação e repressão ao crime pertencem fundamentalmente à estrutura do Governo do Estado.

Mas prefeito de um município do tamanho da Serra também não pode simplesmente assistir ao problema da arquibancada alegando que o campo pertence a outro time.

Principalmente porque violência custa dinheiro.

E muito.

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Pesquisa divulgada em 2026 pela Confederação Nacional da Indústria mostrou que 81% das 1.003 empresas industriais consultadas consideram que a insegurança patrimonial contribui para aumentar o Custo Brasil. Para 62%, os gastos com segurança no transporte aumentam o custo final dos produtos. Outros 45% apontaram os investimentos gerais em segurança como fator de encarecimento da produção.

A violência criou, assim, seu próprio imposto.

Não precisa de aprovação da Câmara Municipal, não tem alíquota, não aparece no carnê e tampouco oferece desconto para pagamento em cota única.

Mas é cobrado religiosamente.

A empresa paga vigilantes, câmeras, alarmes, rastreadores, seguros, escoltas e estruturas de proteção. O comerciante reforça portas e vitrines. O trabalhador calcula o risco do caminho para casa. A transportadora modifica rotas e procedimentos.

E o investidor observa tudo isso antes de decidir onde colocará alguns milhões de reais.

É nesse ponto que a violência deixa de ser exclusivamente assunto das páginas policiais e começa a frequentar as reuniões de empresários.

A Serra possui atributos econômicos invejáveis. Logística, mercado consumidor, disponibilidade de áreas, mão de obra e tradição industrial. Mas nenhuma apresentação consegue eliminar completamente uma pergunta bastante simples de quem pretende instalar uma empresa: quanto vai me custar operar aqui com segurança?

Seria irresponsável afirmar que empresas estejam abandonando a Serra exclusivamente por causa da criminalidade. Não existem elementos suficientes para fazer essa afirmação.

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Mas acreditar que violência não pesa na decisão de investimento exige uma dose considerável de otimismo — talvez maior do que aquela utilizada para comemorar algumas estatísticas.

Capital gosta de incentivos fiscais, boas estradas e mercado consumidor. Gosta também de segurança, previsibilidade e tranquilidade para funcionar.

Por isso, os investimentos realizados pela administração de Weverson Meireles na segurança devem ser reconhecidos. O problema é que investimento público não pode ser avaliado apenas pelo dinheiro empregado ou pelas medidas anunciadas. Precisa ser medido pelo resultado que entrega.

E os números de 2026 continuam sobre a mesa.

A Serra aparece na liderança dos homicídios em números absolutos entre os municípios comparados e também apresenta o maior número de roubos a pessoas entre as quatro grandes cidades metropolitanas analisadas.

É uma liderança que ninguém disputaria numa eleição.

A Serra tem potencial econômico suficiente para continuar sendo uma das locomotivas do Espírito Santo. O desafio agora é impedir que a violência viaje no primeiro vagão.

Porque, quando chegar a hora de o empresário decidir onde instalar sua próxima empresa, haverá muitas colunas naquela planilha.

Tomara que “custo da insegurança” não seja justamente aquela que faça a Serra perder a conta.


*Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas


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