Por Marcelo Rossoni
A Serra é uma potência econômica. Tem localização privilegiada, grandes corredores logísticos, áreas para expansão empresarial, parque industrial consolidado e uma das maiores economias do Espírito Santo. No papel, quase um convite irrecusável para quem procura endereço para instalar uma fábrica, um centro de distribuição ou uma nova operação comercial.
O problema é que, ultimamente, a criminalidade também parece ter descoberto as vantagens de se instalar por lá.
Os números de 2026 não recomendam euforia. No acumulado divulgado em julho, a Serra chegou a 61 homicídios, à frente de Vila Velha, com 54; Cariacica, com 44; Linhares, 32; São Mateus, 26; e Vitória, 20.
Não é exatamente o tipo de primeiro lugar que costuma aparecer nas apresentações destinadas a investidores.
E os homicídios não caminham sozinhos. Nos cinco primeiros meses do ano foram registrados 697 roubos a pessoas na Serra, contra 650 em Cariacica, 613 em Vila Velha e 454 em Vitória. Entre os quatro grandes municípios metropolitanos comparados, portanto, a Serra novamente ocupou o lugar mais alto do pódio.
Naturalmente, existem números melhores para apresentar.
Os crimes contra o patrimônio diminuíram 21,1% nos cinco primeiros meses de 2026 em comparação com igual período de 2025. Os furtos recuaram 22,8%, os roubos 19,8% e também houve queda expressiva nos assaltos ao transporte coletivo.
Tudo verdadeiro.
A estatística tem essa qualidade extraordinária: dependendo da gaveta que se abre, sempre existe alguma coisa capaz de melhorar o humor.
O cidadão, entretanto, costuma trabalhar com uma matemática menos sofisticada. Para quem foi assaltado, pouco consola saber que naquele mês houve menos assaltos do que no mesmo mês do ano anterior. E para a família de uma vítima de homicídio, redução percentual dificilmente funciona como argumento tranquilizador.
O prefeito Weverson Meireles não ficou parado. Sua administração convocou novos agentes para a Guarda Civil Municipal, manteve ações de videomonitoramento e buscou ampliar a integração entre os organismos envolvidos na segurança pública.
As providências existem e devem ser reconhecidas.
O inconveniente são os resultados.
Os números de 2026 indicam que as medidas adotadas até agora não foram suficientes para conter a violência na dimensão em que ela se apresenta na Serra. Talvez seja necessário aumentar a dose, porque o remédio administrado aparentemente ainda não produziu o efeito esperado.
É preciso fazer também uma ressalva indispensável. Segurança pública não é responsabilidade exclusiva da Prefeitura. Polícia Militar, Polícia Civil, investigação e repressão ao crime pertencem fundamentalmente à estrutura do Governo do Estado.
Mas prefeito de um município do tamanho da Serra também não pode simplesmente assistir ao problema da arquibancada alegando que o campo pertence a outro time.
Principalmente porque violência custa dinheiro.
E muito.
Pesquisa divulgada em 2026 pela Confederação Nacional da Indústria mostrou que 81% das 1.003 empresas industriais consultadas consideram que a insegurança patrimonial contribui para aumentar o Custo Brasil. Para 62%, os gastos com segurança no transporte aumentam o custo final dos produtos. Outros 45% apontaram os investimentos gerais em segurança como fator de encarecimento da produção.
A violência criou, assim, seu próprio imposto.
Não precisa de aprovação da Câmara Municipal, não tem alíquota, não aparece no carnê e tampouco oferece desconto para pagamento em cota única.
Mas é cobrado religiosamente.
A empresa paga vigilantes, câmeras, alarmes, rastreadores, seguros, escoltas e estruturas de proteção. O comerciante reforça portas e vitrines. O trabalhador calcula o risco do caminho para casa. A transportadora modifica rotas e procedimentos.
E o investidor observa tudo isso antes de decidir onde colocará alguns milhões de reais.
É nesse ponto que a violência deixa de ser exclusivamente assunto das páginas policiais e começa a frequentar as reuniões de empresários.
A Serra possui atributos econômicos invejáveis. Logística, mercado consumidor, disponibilidade de áreas, mão de obra e tradição industrial. Mas nenhuma apresentação consegue eliminar completamente uma pergunta bastante simples de quem pretende instalar uma empresa: quanto vai me custar operar aqui com segurança?
Seria irresponsável afirmar que empresas estejam abandonando a Serra exclusivamente por causa da criminalidade. Não existem elementos suficientes para fazer essa afirmação.
Mas acreditar que violência não pesa na decisão de investimento exige uma dose considerável de otimismo — talvez maior do que aquela utilizada para comemorar algumas estatísticas.
Capital gosta de incentivos fiscais, boas estradas e mercado consumidor. Gosta também de segurança, previsibilidade e tranquilidade para funcionar.
Por isso, os investimentos realizados pela administração de Weverson Meireles na segurança devem ser reconhecidos. O problema é que investimento público não pode ser avaliado apenas pelo dinheiro empregado ou pelas medidas anunciadas. Precisa ser medido pelo resultado que entrega.
E os números de 2026 continuam sobre a mesa.
A Serra aparece na liderança dos homicídios em números absolutos entre os municípios comparados e também apresenta o maior número de roubos a pessoas entre as quatro grandes cidades metropolitanas analisadas.
É uma liderança que ninguém disputaria numa eleição.
A Serra tem potencial econômico suficiente para continuar sendo uma das locomotivas do Espírito Santo. O desafio agora é impedir que a violência viaje no primeiro vagão.
Porque, quando chegar a hora de o empresário decidir onde instalar sua próxima empresa, haverá muitas colunas naquela planilha.
Tomara que “custo da insegurança” não seja justamente aquela que faça a Serra perder a conta.
*Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas