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O pagode valorizou as mulheres, diz Leci Brandão, que ganha documentário

FolhaPress 14/06/2025 01:50

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Leci Brandão tem um sonho: produzir um disco com mulheres cantando suas músicas. "Eu acho que vai ser uma coisa legal."

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Seria um novo capítulo de uma longa trajetória na música, na TV, onde trabalhou como comentarista no Carnaval, e na política –nascida no Rio de Janeiro, a cantora está em seu quarto mandato como deputada estadual pelo PCdoB em São Paulo, onde vive desde os anos 1980.

"Você vê que eu estou falando com você e tem hora que eu fico gaga, né? Porque é muita coisa."

A cantora de 80 anos é retratada em "Leci", que estreia neste domingo (15) no Festival In-Edit Brasil, dedicado ao documentário musical. Dirigido por Anderson Lima, o trabalho mostra a carreira da artista, com dezenas de depoimentos de personagens da música e da política.

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PERGUNTA - [O produtor] Moisés da Rocha chama seu trabalho de samba social. Mas a sra. começou a fazer samba depois de uma desilusão amorosa. Como a sra. percorreu esse caminho do sentimento para o samba social?

LECI BRANDÃO - Eu não sabia que era compositora. Sou intuitiva, não toco instrumento nenhum, não sei como a música pinta na minha cabeça. Costumo dizer que é coisa de Deus e de orixá.

A arte mesmo aconteceu por causa de uma saudade. Daí comecei a ver as coisas e pintava música. Do nada. Podia estar passando um café e vir uma música. Podia estar dentro do trem, e a música pintava.

P - A sra. saiu da gravadora PolyGram porque acharam que a temática da sua música estava politizada demais. Esse tipo de problema ainda existe na música?

LB - Acredito que sim. Tem tanta coisa legal que a gente fez que eu nunca ouvi nenhuma rádio tocar. Claro que, dependendo do lugar que você frequente, das pessoas que conheça ao longo da vida, você vai abrindo a sua cabeça. Não sou uma pessoa que tenha tido formação acadêmica. Vejo as coisas, vem a emoção, eu sinto, escrevo. Confesso a você que, depois que entrei nessa coisa de parlamento, diminuiu bastante a minha inspiração.

SESC PICASSO

P - Há uma cena no documentário em que a sra. está discursando para uma Assembleia vazia. Qual é a percepção sobre o trabalho como deputada?

LB - A Assembleia vazia não me importava, porque acho que o poder da palavra, quando você está falando uma coisa de verdade, do teu coração, é importante você falar. É independente de se a plateia está cheia ou vazia. O fundamental é que você fale o que você acredita e que seja uma coisa que vá dar progresso para alguém.

P - Acredita que o samba ainda esteja nessa vanguarda de crítica social?

LB - Acho que [é] a turma do hip-hop. Dessa coisa de rap, esses meninos que chegaram depois. O que eles falam, para mim, é o grande lance que pintou nos últimos anos. Falam da realidade deles, da vida deles, da favela, do morro, da dificuldade que enfrentam para resolver qualquer coisa. É o povo pobre, preto, da periferia, essa gente começou a falar de outra forma.

P - Quando a sra. chegou à Mangueira, lhe foi pedido que fizesse um estágio antes. O samba ainda é machista?

LB - Os caras ficaram assustados. Diziam: "o que essa menina veio fazer aqui"? Quando cheguei à Mangueira eu já era compositora. Então houve uma decisão: vamos fazer um estágio. Comecei a fazer sambas de quadra. E acharam que era interessante.

Mas talvez tido a questão da minha cabeça maluca…Teve um enredo que tinha que elogiar a Petrobras, Fiz uma letra que falava alguma coisa que o petróleo estava sumindo. Aí os caras falaram, não, esse seu não pode ganhar. Fiquei bem chateada na época. O povo vinha: "Leci continua querendo observar coisas que não são necessárias". Mas para mim era necessário.

CONTADOR - BONUS

P - A sra. já contou que teve uma percepção do racismo muito cedo, quando num concurso escolar acabou não levando o prêmio.

LB - Eu era filha da servente, morava na escola Equador, lá em Vila Isabel. A minha redação não ganhou e eu sabia que tinha sido a melhor, aí não recebi a medalha. A minha professora fez uma solenidade pequena na sala de aula e me deu uma medalha.

P - Como evoluiu sua percepção sobre o racismo?

LB - Quando entrei para o colégio Pedro 2o, escutava na minha turma um negócio assim: "Tiziu, Tiziu, Tiziu". E eu não sabia que era isso. Aí uma amiga falou: "Leci, isso é com você". Tiziu é um passarinho preto e o pessoal fica gritando "tiziu" porque eu era a única pretinha. Depois acabei fazendo uma música: "Apelido Tiziu".

Outro exemplo: quando morava em Realengo e fui procurar emprego. Passava nas provas e era reprovada no psicotécnico. Era isso, eu era uma garota preta. Existia nessa época nos classificados: precisa-se de moça de boa aparência. Eu achava que moça de boa aparência era ir arrumada, com roupa direitinha, limpa. E chegava nos lugares, a cor da minha pele é que me reprovava, e não percebia isso. Até que uma amiga disse: meu irmão sabe que vai ter uma vaga na firma em que trabalha. Fui lá, fiz a prova, passei e fui admitida. Ali a cor da pele não atrapalhou.

P - A sra. já deve ter visto uma entrevista em que o Jô Soares pergunta ao Zeca Pagodinho qual a diferença entre o samba e o pagode, e o Zeca dá uma resposta que não responde muito. Queria fazer a mesma pergunta para a sra.

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LB - As pessoas faziam música, mas a mulher era retratada de qualquer maneira. O grande lance do pagode foi que eles começaram a cantar música de amor para as mulheres. Ou seja, a mulher começou a ficar mais valorizada, sabe? Lembra que nessa época tinha muita música "meu benzinho", "meu amorzinho"? Isso fez com que a mulher se sentisse mais desejada, mais amada. Vejo por aí. Você lembra quando o Almir [Guineto] gravou "aquela boca sem dente que eu beijava"? Era desse jeito. Aí a moçada chegou, o Raça Negra, que foi o responsável por essa coisa do pagode. O menino, o Luiz Carlos, fazia música de amor, tudo com muita ternura. Para as mulheres. E isso foi tomando impulso.

P - Isso influenciou o samba de volta?

LB - O samba não muda. Um dia, o Bira, do Fundo de Quintal, falou assim: "para de falar negócio de política, você tem que mudar um pouco para aparecer mais". Eu achei legal, mas continuei minha missão de fazer música social.

P - Que impacto esse crescimento do Carnaval de rua vai ter sobre o samba?

LB - O Carnaval mudou muito. Você me lembrou agora um samba que fiz chamado "Apenas um Bloco de Sujo": "O pessoal lá do morro resolveu formar um bloco de sujo pra sambar, porque a escola de samba enriqueceu, e a gente nossa já não tem lugar." Isso foi tomando um vulto que, de repente, blocos também começaram, aqui em São Paulo, a se destacar.

O desfile das escolas antigamente tinha bastante gente preta. Depois foi clareando. Porque as pessoas começaram a perceber que não era ruim desfilar. Aí acontece o seguinte: rainha da bateria, tiraram as meninas da periferia, da favela, que sabiam sambar, pretas e bonitas, e substituíram por famosas. Começou esse negócio de celebridade ser rainha, e você acabou não vendo mais as meninas que eram escolhidas pelos ritmistas na comunidade.

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LECI

Onde In-Edit Brasil: Dom. (15), às 16h, na Cinemateca; qua. (18), às 15h, no Cinesesc; dom. (22), às 18h30, Spcine Olido, às 13h nas salas CEUs e às 16h no CFC Cidade Tiradentes

Preço Sessões gratuitas ou com entrada a R$ 10

Produção Brasil, 2025

Direção Anderson Lima

Link https://br.in-edit.org/

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