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'O Deserto de Akin' é frágil ao retratar dramas de médico cubano

FolhaPress 02/08/2025 11:02

FOLHAPRESS - O grande, irrecusável mérito de "O Deserto de Akin" é alargar o repertório temático do cinema brasileiro —e nos lembrar de que ele é alargável— ao tratar do quase desconhecido trabalho dos médicos cubanos durante os anos do programa Mais Médicos.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Quem eram eles? Quase não sabemos. Como executavam seu trabalho, que tipo de atenção conseguiam dar aos pacientes etc... É por esse terreno que vai o filme de Bernard Lessa, a partir do trabalho do médico Akin. Estamos no momento da eleição de Bolsonaro, que prometeu mandar os cubanos de volta e fechar o programa. Existe certa ansiedade com o retorno ou não desses profissionais.

Akin está disposto a voltar. Ele gosta das "missões", como diz, que lhe são confiadas pelo governo cubano. Encontra-se, numa das cenas, com um colega, Rafael, que vive com uma brasileira, que por sinal está grávida naquele momento. Voltar não é uma opção para ele.

Desde o início, Akin namora uma moça brasileira, papel de Ana Flavia Cavalcanci. Talvez não fosse a melhor solução: ele a encontra numa balada e logo se tornam íntimos. Seria mais interessante, talvez, se o conhecêssemos antes disso: sofria muito com a distância do país? Tinha amigos? Era hostilizado por bolsonaristas? Era acolhido pelo pessoal do SUS? Era um solitário?

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À parte isso, Lessa cria cenas bem interessantes do atendimento do Mais Médicos a pacientes indígenas e idosos, sempre pobres, que antes não possuíam nenhum atendimento razoável. São cenas vivas, tão boas quanto Akin e seu amigo cubano Rafael jogando beisebol —esporte nacional de Cuba.

A situação dois dois é diferente: Rafael mora com uma brasileira e pretende se instalar no país. Akin sente-se bem livre e disposto a voltar para Cuba, pois gosta de viver em missão. Poderia ser um bom caminho para o roteiro, mas Lessa opta por outro.

A namorada tem um amigo, vivido por Guga Patriota, gay simpático e cozinheiro. Essa particularidade dá lugar a outra bela observação, esta sobre o trabalho na cozinha, quando uma assistente do rapaz recebe o prato, coloca-o num suporte e aperta uma campainha para chamar o garçom. Parece uma bobagem, mas captar essas pequenas cenas do cotidiano talvez seja um dos aspectos mais difíceis dessa estranha arte do cinema. E Lessa faz isso muito bem.

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Como nada é perfeito nesse mundo, o filme logo se desvia para o assunto central da vida brasileira, ou pelo menos da vida brasileira no cinema brasileiro: a vida sexual, de preferência envolvendo a homossexualidade.

Ou, no caso de Akin, bissexualidade. Ele se encanta com o rapaz, o que não é de estranhar, porque ele é simpático, bem-apessoado e tudo mais. Isso poderia criar variantes interessantes, quando se sabe que as relações homossexuais em Cuba não são exatamente do agrado do governo cubano.

Daqui por diante o leitor pode se preocupar porque estará diante de spoilers, isto é, de revelações capazes de frustrar o seu prazer com as surpresas que o filme reserva. Mas não faz diferença, porque daqui por diante o filme trata de arruinar a si mesmo.

Prosseguindo: talvez Akin se sentisse reprimido em Cuba. Diz à moça que só uma vez teve relações com outro homem. Ela é bem emancipada e não se incomoda com a atração que o médico sente pelo outro rapaz. Os dois começam a namorar concomitantemente.

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Mas aí entra em cena o novo governo e os cubanos são retirados pelo próprio governo de seu país. Uma questão lançada nunca será respondida: o que terá acontecido a Rafael? Será forçado a voltar para Cuba? E, se decidir ficar, será ele forçado a aderir ao novo governo, com camisa da seleção e tudo mais? E como ficará sua situação caso um dia queira voltar a Cuba? Eis um aspecto que o filme abandonou.

Em troca, Akin, que parecia bem feliz com a hipótese de ir embora, de repente passa a hesitar. Será que cooperar em várias partes do mundo, destino dos médicos cubanos, ainda lhe interessa? Se apaixonou pelo país ou pelos seus dois amores, o rapaz e a moça? Ótimo, isso pode resolver sua situação emocional e sexual. Mas como ficará no SUS, de onde o novo governo pretende se livrar de qualquer traço de cubanismo?

Diante desse impasse o que resta é largar Rafael, o amigo médico cubano na estrada e nos levar a uma espécie de final feliz, tão simpático quanto banal. Diante das perspectivas que abriu é uma pena.

O DESERTO DE AKIN

- Avaliação Regular

- Quando Em cartaz nos cinemas

- Classificação 14 anos

- Elenco Reynier Morales, Ana Flávia Cavalcanti e Guga Patriota

- Produção Brasil, 2024

- Direção Bernard Lessa

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