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Novo presidente da Comissão de Educação, Nikolas Ferreira nunca apresentou projeto sobre o tema

FolhaPress 08/03/2024 08:05

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Nenhum dos sete projetos de lei apresentados na Câmara pelo novo presidente da Comissão de Educação da Casa, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), tratam do tema que é o foco do colegiado.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O parlamentar é conhecido pelo apoio ao bolsonarismo e defesa de pautas ideológicas, o que, segundo interlocutores no Congresso e do governo, pode nortear suas atividades no cargo em detrimento de pautas importantes.

O deputado foi indicado por seu partido para presidir essa comissão permanente da Câmara, o que foi efetivado na quarta-feira (6). O colegiado é responsável por, no trâmite regular, apreciar projetos de lei sobre o tema, promover debates e convidar especialistas e políticos --é recorrente que ministros da Educação e dirigentes de órgãos ligados à pasta tenham de prestar esclarecimentos.

Há receio entre parlamentares envolvidos com o tema de que discussões ideológicas sequestrem as atividades da comissão e prejudiquem a análise de matérias importantes para a área. Por isso, a visão entre eles é que a falta de conexão do deputado com a discussão sobre os desafios da educação possa impactar os debates.

É comum que muitas pautas de interesse do governo não passem pelas comissões. Mas uma preocupação é de que, enquanto o governo deposita energia para garantir aprovação de pautas prioritárias de caráter econômico ou político, a comissão se torne palco para o avanço de uma agenda no campo dos costumes.

Nikolas Ferreira foi procurado pela Folha, mas não retornou. No X (antigo Twitter), ele publicou que pretende garantir espaço para todos os membros e que "a democracia não será relativa na comissão". E elencou temas que pretende tocar.

SESC PICASSO

"Neste ano de presidência, debateremos assuntos importantes e complexos como: Plano Nacional de Educação, Segurança nas Escolas, fortalecimento da Educação Básica, homeschooling, dentre diversos outros temas que são importantes para a Educação em nosso país. Para isso, realizaremos audiências públicas, criaremos subcomissões e fiscalizaremos a política nacional de educação do atual Governo. Estou comprometido em trabalhar com a Comissão para que a educação no Brasil seja um alicerce sólido para todos", disse.

Uma das bandeiras de grupos de direita e religiosos, a regulamentação da educação domiciliar (homeschooling) já foi aprovada na Câmara em 2022. O texto segue parado no Senado.

O deputado Bacelar (PV-BA) afirma que Nikolas Ferreira tem o direito de pleitear e ocupar o cargo por ser eleito, mas critica a decisão do PL de indicá-lo devido ao risco de que possa politizar e partidarizar as discussões.

"É muito ruim um deputado de primeiro mandato, no segundo ano de mandato, presidir uma comissão com a importância da Educação. E não é uma pessoa da área, não tem conhecimento", diz Bacelar. "Assuntos que precisam de muita discussão podem ficar prejudicados por uma pauta retrógrada que ele indica."

O deputado Idilvan Alencar (PDT-CE) é outro que se mostra bastante preocupado com a indicação e afirma que haverá combatividade. "A Comissão de Educação não será picadeiro de circo. Que o espetáculo circense dele permaneça nas suas redes sociais", diz.

A deputada Dandara (PT-MG) classifica o novo presidente da comissão como inimigo da educação pública, diversa, plural e democrática. "Sabemos que onde a extrema-direita está a discussão é reduzida a falsos debates ideológicos que querem esconder o verdadeiro projeto de censura, de exclusão e de discriminação, de criminalização dos professores e da privatização da educação", afirma.

CONTADOR - BONUS

"É uma vergonha termos um deputado presidente da Comissão de Educação condenado em segunda instância por discurso transfóbico, réu por crime de transfobia contra uma criança de 14 anos e que defende o negacionismo antivacina", acrescenta.

No ano passado, a Justiça em Minas Gerais acatou denúncia do Ministério Público contra o parlamentar por intolerância por identidade ou expressão de gênero. A denúncia foi feita em julho de 2022, depois de o então vereador por Belo Horizonte mostrar nas redes sociais parte de um vídeo sobre uma aluna trans de 14 anos no banheiro de uma escola particular da capital mineira -o registro foi feito pela irmã da aluna, também adolescente.

Em fevereiro de 2023, a Justiça em Minas Gerais já havia aceitado outra denúncia contra o parlamentar, apresentada pela deputada federal Duda Salabert (PDT), que é mulher transexual, por injúria racial. Em abril o deputado foi condenado, em primeira instância, a pagar R$ 80 mil a Salabert.

Um novo formato para formação de professores e melhorias para a carreira, ensino médio, sistema nacional de educação e recomposição dos orçamentos das universidades federais são alguns dos temas que parlamentares colocam como prioridade para as discussões na comissão.

A composição de um novo PNE (Plano Nacional de Educação) será um dos maiores desafios legislativos para o governo a partir deste ano. O plano elenca metas educacionais para o prazo de dez anos, e o atual vence neste ano. O MEC (Ministério da Educação) deve encaminhar uma proposta de texto em breve. Ainda não é possível saber se ele passará pela comissão de educação.

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Quando o PNE em vigência foi definido, em 2014, uma mobilização de políticos e militantes de direita conseguiu retirar do texto metas e estratégias relacionadas à igualdade de gênero, por exemplo. É bem provável que haja novas disputas nesse sentido.

Apesar de não dedicar atenção à educação nas suas poucas propostas de novas leis, Nikolas Ferreira tem feito coro ao discurso de que haveria doutrinação ideológica de esquerda em escolas e faculdades. Ele é vice-presidente de uma frente parlamentar, articulada pelo seu partido, que tem esse objetivo.

Há um consenso entre educadores, especialistas e formuladores de políticas públicas de que essa suposta doutrinação não se configura como um desafio real da educação pública, mesmo que haja casos pontuais.

A exploração de um viés ideológico é uma das marcas de políticos de direita quando o tema é educação. Essa foi uma das características do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Uma suposta sexualização precoce que seria encampada em escolas é outro ingrediente comum nesse meio.

Uma das facetas legislativas desse discurso é o projeto Escola sem Partido, que defendia limitar o que os professores podem falar em sala de aula. Os parlamentares de direita que encampam essa ideia nunca conseguiram um avanço no Congresso. Em 2018, uma comissão tratou a matéria, mas encerrou os trabalhos sem conseguir votar.

Houve tentativas de retomar a pauta durante o governo Bolsonaro, mas também sem sucesso. O principal motivo foi decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que considerou inconstitucional limitar o que o professor pode falar dentro da sala de aula por princípios como a liberdade de cátedra.

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