Segunda escola da noite apresentou enredo inspirado na união entre matrizes africanas e indígenas e no protagonismo feminino
Segunda escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial do Carnaval de Vitória 2026, a Novo Império apresentou, no Sambão do Povo, um desfile marcado por forte carga simbólica, estética elaborada e narrativa alinhada ao enredo “Aruanayê – Guardiãs dos Mistérios Ancestrais”.
Com cerca de 1.500 componentes, a agremiação conduziu o público por uma travessia simbólica centrada na união entre xamãs africanas e guerreiras indígenas, representadas como mulheres guardiãs do saber ancestral, da espiritualidade e da continuidade da vida.
A identidade da escola esteve presente desde os primeiros momentos do desfile. O símbolo da coroa protegida por leões, associado à Novo Império, reforçou o sentimento de pertencimento da comunidade imperiana, que acompanhou a apresentação de forma participativa, com canto intenso vindo das arquibancadas e camarotes.
Mais do que narrar uma história linear, o desfile apresentou um conceito. Aruanayê foi retratada como uma aliança tecida ao longo do tempo, fortalecida pelos elementos da natureza e pela resistência coletiva. A proposta evocou a relação entre terra, memória e espiritualidade, destacando a importância da preservação cultural frente ao esquecimento.
No centro da narrativa, a figura feminina de Aruanayê surgiu como representação simbólica da Mãe Terra, associada à proteção, à cura e à resistência. A leitura proposta encontrou resposta imediata do público presente no Sambão do Povo.
A Comissão de Frente, assinada por Mauro Marques, abriu o desfile com o espetáculo coreográfico “O Ritual da Jurema Sagrada”. Com 15 componentes, sendo oito mulheres e sete homens, a apresentação utilizou movimentos sincronizados e símbolos ritualísticos para marcar o início da jornada apresentada pela escola. Em um dos momentos iniciais, os bailarinos desenharam no chão da avenida o formato de uma flecha, estabelecendo a conexão entre céu, terra e público.
O primeiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Weskley Blank e Alana Marques, foi um dos destaques do desfile. Com a fantasia “Espíritos Guardiões da Jurema”, o casal traduziu a ligação entre o mundo material e o espiritual. Alana conduziu o pavilhão com giros precisos e controle técnico, enquanto Weskley manteve leitura clara do enredo e diálogo constante com a coreografia.
A Ala das Baianas, intitulada “Guardiãs da Lua”, abriu oficialmente o desfile da escola. Vestidas de branco e adornadas com símbolos lunares, as 35 baianas representaram os ciclos do tempo, da natureza e da espiritualidade. Entre elas, destacou-se Dona Val, de 75 anos, integrante da escola há quatro décadas, cuja presença simbolizou a memória viva da agremiação.
O primeiro carro alegórico, “Guardiã de Todas as Tradições”, funcionou como síntese visual do enredo. A alegoria apresentou o feminino como símbolo da sabedoria ancestral e da continuidade cultural, com raízes conectando a figura central à terra, à memória e aos saberes originários.
A bateria da Novo Império, a Orquestra Capixaba de Percussão, contou com 180 ritmistas e foi conduzida por Mestre Vinícius Seabra. O ritmo manteve regularidade e intensidade ao longo do desfile, com bossas bem distribuídas e resposta imediata do público. A presença de jovens ritmistas reforçou a renovação da escola, mantendo a tradição aliada à continuidade.
À frente da bateria, a rainha Rayane Rosa, com a fantasia “Soberana do Pulsar Ancestral”, traduziu em dança a proposta rítmica do setor, reforçando a conexão entre som, corpo e energia da escola.
No último setor, a Novo Império celebrou a herança cultural das tradições ancestrais como força de renovação. Cores, símbolos e manifestações projetaram uma visão de futuro baseada em resistência, identidade e continuidade.
Ao cruzar a linha final, a escola foi aplaudida pelo público, que reconheceu a consistência do conjunto apresentado. O desfile encerrou a passagem da Novo Império pela avenida como uma experiência marcada pela integração entre passado, presente e futuro no Carnaval de Vitória 2026.
Fotos: Marcos Salles/PMV/Divulgação