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Mudança na pós-graduação quer mais autonomia para instituições abrirem cursos

FolhaPress 07/08/2024 07:42

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sob o argumento de modernizar o sistema de pós-graduação do país, o CNE (Conselho Nacional de Educação) aprovou uma nova regra que dá autonomia para que instituições de ensino consideradas consolidadas possam abrir novos cursos sem precisar de autorização da Capes.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O parecer do conselho ainda precisa ser homologado pelo Ministério da Educação para que as mudanças comecem a valer. Em nota, a Capes, órgão vinculado à pasta, disse ser favorável às alterações.

Um grupo de entidades científicas afirma que, se aprovada, a diferença de autonomia entre as instituições vai ampliar as desigualdades regionais e dificultar a interiorização da produção de pesquisas e conhecimento no país.

Pelos critérios estabelecidos, apenas 17 instituições de ensino poderiam ser classificadas como consolidadas —14 delas estão no Sul e no Sudeste. Há apenas uma, a UnB (Universidade de Brasília), é do Centro-Oeste, e duas estão no Nordeste: a UFC (Federal do Ceará) e a UFPE (Federal de Pernambuco). Nenhuma no Norte se beneficiaria da maior autonomia.

O documento do CNE definiu que vão ser enquadradas como "instituições consolidadas" aquelas que têm ao menos dez programas de pós-graduação nos maiores níveis de avaliação da Capes, ou seja, com notas 6 ou 7. Maiores notas ajudam a garantir mais recursos financeiros.

Por isso, as entidades dizem que a nova regra vai concentrar ainda mais recursos (os auxílios e bolsas para os pesquisadores) para instituições e regiões que historicamente já recebem mais fomento.

SESC PICASSO

"Algumas poucas instituições, que já são historicamente aquelas que concentram mais recursos para pesquisa, vão ter a vantagem de abrir novos programas sem precisar do crivo da Capes. Elas vão ter um potencial de atrair mais recursos, sendo que o país precisa investir naquelas regiões em que ainda não há programas tão consolidados e onde a interiorização da pós-graduação é mais recente", diz Charles Morphy.

Ele é presidente da Foprop (Fórum Nacional de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação), entidade com representantes de 273 universidades estaduais e federais de todo o país. O fórum pede que o ministro Camilo Santana não aprove a nova regra.

"O Foprop solicita que o MEC exclua o item [que cria a regra] garantindo isonomia na proposição de programas de pós-graduação, que devem todos ser avaliados pela Capes seguindo o mesmo instrumento, e evitando, por fim, o aprofundamento do fosso de desigualdade que, infelizmente, ainda grassa no Sistema Nacional de Pós-Graduação", diz o documento enviado ao ministro.

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A Abruem (Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais) e a Animes (Associação Nacional de Instituições Municipais de Ensino Superior), que juntas reúnem 75 instituições de ensino, também se manifestaram contrariamente à nova regra.

"Esse critério aponta um forte entrave para a redução de assimetrias, considerando, especialmente, as regiões em que o desenvolvimento da pós-graduação é recente. Ressaltamos que a Abruem representa as instituições nas quais o ensino de pós-graduação está mais capilarizado na direção dos interiores dos estados, e que levam o conhecimento científico às mais remotas regiões do país", diz ofício da entidade.

Nos últimos anos, o país vem discutindo estratégias para reduzir a concentração dos programas de pós-graduação nas regiões Sul e Sudeste —juntas, elas reúnem 48% dos cursos de mestrado e 60,8% dos doutorados oferecidos no Brasil.

"Essa mudança vai na contramão do que temos discutido como prioridade para o sistema de pós-graduação do Brasil, de que o país precisa levar mais programas e ciência para o interior e regiões que historicamente não foram privilegiadas", diz Morphy.

"A concentração dos programas de pós-graduação no Sul e Sudeste estimula a migração de pessoas de outras regiões e retira o estímulo para pesquisas que poderiam trazer contribuições para essas áreas, nos interiores, no norte e nordeste", conclui.

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Luiz Roberto Curi, relator do documento aprovado pelo CNE, defendeu a nova regra e negou que ela vá provocar mais desigualdades no sistema.

Segundo o documento do conselho, a medida tem como objetivo modernizar o sistema de pós-graduação no país, deixando que instituições com reputação tenham mais liberdade para inovar na abertura e formulação de novos cursos.

"Entende-se que é o momento de explorar as potencialidades do sistema existente, conferindo maior liberdade às instituições para uma gestão mais autônoma, inovadora e responsável da sua pós-graduação, sem prejuízo à qualidade da pós-graduação e sem que isso resulte em uma fragilização dos rigores inerentes aos padrões internacionais", diz o documento.

Em nota, a Capes também defendeu o novo modelo como uma forma de estimular programas de pós-graduação em maior sintonia com "um mundo cada vez mais interdisciplinar e sem fronteiras" e diz que as desigualdades nessa etapa de ensino têm sido perpetuadas pelas regras atualmente em vigor.

"Para resolver as assimetrias é preciso uma política direcionada para o conjunto de instituições localizadas nas regiões com menos oferta de pós-graduação, levando em consideração as diferenças históricas e possibilitando a criação de pós-graduação por demanda induzida", diz a nota.

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