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Mostra narra gênese do hip-hop no Brasil, das danças às batidas na lata de lixo

FolhaPress 07/08/2025 08:21

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma roda de pessoas de braços cruzados se forma. Curiosos, eles observam três dançarinos, cada um com sua luva, cruzando as pernas para completar passos de uma dança que começava a ser praticada no Brasil —o break.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A descrição é de uma das imagens presentes na exposição "Hip-Hop 80'sp – São Paulo na Onda do Break", em cartaz no Sesc 24 de Maio, na capital paulista. Ela compõe, junto a roupas de época e recriadas, equipamentos de som, flyers, filmes, discos e recortes de jornais e revistas, o cenário da chegada do movimento hip-hop no país.

"Contamos a história da primeira geração que absorveu esse meteoro que veio dos Estados Unidos nos anos 1980 —de que forma isso foi entendido, filtrado e abrasileirado", diz Gustavo Pandolfo, que faz parte da dupla Osgemeos, que assinam a curadoria ao lado de outros pioneiros do hip-hop no Brasil, como Rooneyoyo O Guardião, KL Jay, Thaíde, Sharylaine, Rose MC e Alam Beat.

A mostra destaca a chegada do hip-hop ao país enquanto movimento, com enfoque especial no grafite e na dança, além dos MCs e DJs do rap. "O que explodiu aqui mesmo foi a dança, mas sempre vinha junto com a música", afirma Alam Beat, DJ do Sampa Crew e b-boy. Para a rapper Sharylaine, essa cultura chegou através dos bailes, que já existiam desde os anos 1970. "Conheci o hip-hop no baile, através do breaking, e os DJs tinham que tocar os breakbeats para os b-boys e b-girls dançarem."

Um dos pontos de encontro de dança —que incluíam também a praça Roosevelt, o parque Ibirapuera e os arredores da estação São Bento do metrô— era justamente a esquina onde hoje fica o Sesc que abriga a exposição, entre as ruas 24 de Maio e Dom José de Barros, no centro da cidade.

Rooneyoyo, dono de grande parte do acervo da mostra, diz que começou a colecionar o material a partir de uma revista do começo de 1983 que trazia uma reportagem sobre o breaking. Ele trabalhava no centro e conheceu a dança justamente na roda da 24 de maio, comandada pelo lendário Nelson Triunfo, que é figura constante na mostra, em imagens, textos e roupas.

SESC PICASSO

"Hip-Hop 80'sp" começa na verdade antes da chegada do movimento ao Brasil. A primeira sala é dedicada a Nova York, berço do hip-hop, que desde 1973 já dava seus primeiros passos na metrópole americana. Há um filme inédito que o cineasta americano Michael Holman preparou para a exposição, com as primeiras imagens de batalhas de breaking nos Estados Unidos.

Destacam-se também as fotos inéditas de Martha Cooper, testemunha do período, e o documentário "Style Wars", lançado em 1983 pelo fotógrafo Henry Chalfant, que destaca o grafite. Os desenhos ganham vida no ambiente, em especial os vagões do metrô nova-iorquino cobertos por pinturas. "O mesmo cara que começou a pintar, se envolveu com a dança e com a discotecagem", diz Gustavo, um dos dois Osgemeos.

Um espaço da mostra é tomado pelos filmes que foram referência de dez entre dez integrantes do movimento hip-hop nos anos 1980 —entre eles "Flashdance", "Beat Street", e "Breakin’"— e inclui material original usado nas filmagens, como peças de roupa. Alguns desses longas foram exibidos em cinemas do centro de São Paulo e eram consumidos avidamente pelos fãs e curiosos daquela cultura.

"Hoje um jovem vê um vídeo e pega os passos. A gente tinha que ir ao local, ver o Nelsão [Triunfo] dançar para aprender. É só depois do filme, o ‘Beat Street’, que a gente começa a entender o que é o hip-hop", diz Rose MC. Otávio Pandolfo, a outra metade de Osgemeos, se lembra de ficar o dia todo assistindo aos filmes para aprender os passos de dança.

"O ‘Flashdance’ não é um filme de breaking, mas tem uma cena emblemática de uns dois ou três minutos que tem os caras da Rock Steady Crew dançando na rua", diz Rooneyoyo. "Para a nossa época, quando a gente viu isso, era referência máxima, inspiração para todo mundo. Tinha que ir ver no cinema umas dez vezes para ver rever aqueles dois minutos."

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São mais de 3.000 itens distribuídos nas salas. Há uma bateria eletrônica Roland TR-808, o mesmo modelo usado por Afrika Bambaataa para criar a música "Planet Rock", seminal no rap. Também a recriação de roupas usadas por Michael Jackson, que popularizou passos de breaking, e até uma original de Tim Maia, ícone do soul, que junto ao funk de James Brown eram os gêneros mais sampleados e tocados por DJs de hip-hop.

A moda da época, desde o estilo futurista, passando pelas jaquetas pintadas à mão e os uniformes originais das equipes de dança, ganham destaque. As luvas, uma marca de estilo desse primeiro momento do hip-hop, também estão presentes. "Era para dar um efeito. Um cara no escuro, todo de preto, a luva branca se destacava", afirma Alam Beat.

Um espaço recria como era o quarto de um DJ, com móveis, toca-discos, vinis e posters, inspirado na experiência pessoal de KL Jay, dos Racionais MCs. O ambiente inclui um mixer Gemini antigo que ele mesmo forneceu à mostra, além de uma espécie de discoteca básica de quem selecionava o que tocar para os b-boys e b-girls dançarem.

Toda uma extensa parede conta a história da pioneira roda de breaking da 24 de maio, comandada por Nelson Triunfo e com destaque para Ricardo, b-boy do grupo Funk e Cia. "O mais importante dessas rodas é a resistência", conta Alam Beat. "Nessa época, era ditadura militar, e a polícia proibia a gente de dançar na rua. Às vezes levava à delegacia para averiguação. Quem não tinha carteira de trabalho registrada era levado como vagabundo. A dança na rua salvou muita gente da marginalidade."

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Outra parede é dedicada à primeira geração do grafite de São Paulo. "Começamos a ver que eles faziam grafite no metrô e fizemos a mesma coisa. Demorava uns 15 dias para pintar uma jaqueta, mas o cara andava com uma obra de arte na rua", diz Otávio, da dupla Osgemeos. "A gente estava tentando descobrir um estilo, tinha muito pouca gente fazendo grafite no estilo hip-hop em São Paulo. Cada um pintava no seu bairro, e foi só no fim dos anos 1980 que começamos a desbravar a cidade."

A sala principal de "Hip-Hop 80'sp" traz a réplica cenográfica de um vagão do metrô da linha azul onde acontecem oficinas dos quatro elementos do hip-hop. Ainda que tenha nascido nos passos, no cabelo black power e através das caixas de som de Nelson Triunfo na 24 de maio, o hip-hop se instalou nos arredores da estação do metrô. Foi lá, por exemplo, onde os integrantes dos Racionais se conheceram.

O espaço começou a ter movimento por causa dos b-boys João Break e Luisinho. "Quando o João chegava com o rádio, era a alegria da São Bento, porque precisava de música para dançar", diz Alam Beat. "Os encontros eram sábado à tarde. Aí tem muita história."

Uma delas tem a ver justamente com a falta de equipamentos para tocar música —e com uma lixeira. "Esse aqui era o instrumento da São Bento", diz Gustavo, nas mãos a réplica de uma lata de lixo de metal, típica dos metrôs de São Paulo, que integra a mostra. "Usava-se rádio ligado na tomada, e às vezes o metrô desligava a energia —para você não usar a tomada, porque eles não queriam. Aí ficava sem música."

As batidas na lata de lixo, recorda Rooneyoyo, davam o ritmo para os primeiros raps feitos de improvisação. "Foi ali que nasceu o primeiro beatmaker", diz. "Todo mundo que frequentou a São Bento, como não tinha equipamento de som, acabou indo para o som da batida do lixo."

HIP-HOP 80’SP – SÃO PAULO NA ONDA DO BREAK

- Quando Ter. a sáb., das 9h às 21h. Dom. e feriados, das 9h às 18h. Até 29 de março de 2026

- Onde Sesc 24 de Maio – r. 24 de Maio, 109, República, região central

- Telefone (11) 3350-6300

- Preço Grátis

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