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Mostra das Serigrafistas Queer no Masp questiona gênero e sexualidade

FolhaPress 15/12/2024 15:29

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Repleta de cartazes com palavras de ordem em letras bastão, cores neon, pedidos por direitos como o aborto e o fim da fome, além de alusões a leis e presidentes, a sala ocupada pelo coletivo Serigrafistas Queer no Masp, o Museu de Arte de São Paulo, mais se parece com o célebre vão da instituição, ponto de encontro dos inconformados em dias de protesto.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

De fato, a primeira vez que o grupo argentino formado em 2007 veio ao Brasil, em 2018, fez uma oficina no célebre vão do Masp. O momento era tenso -elas vieram pouco depois da polêmica do Queermuseu, a exposição sobre diversidade sexual em Porto Alegre que foi acusada de pedofilia e zoofilia por políticos de extrema direita, quando o bolsonarismo se consolidava institucionalmente.

A curadora Amanda Carneiro diz ter sido marcante que integrantes do coletivo não tenham se acanhado daquele debate e tenham se apropriado das questões em suas obras e discussões. "No momento de polarização, você tem um coletivo ativista que conseguia falar com o público de uma maneira aberta o suficiente para trocar em relação a seus sentimentos e sensações", diz.

Essa ideia de reparação é o mote da mostra "Serigrafistas Queer: Liberdade para as Sensibilidades", primeira individual do coletivo no Masp, depois de o museu flertar com o trabalho do grupo desde essa primeira visita de 2018 e adquirir mais de 50 obras.

SESC PICASSO

São cartazes em papel, retalhos de tecido, toalhas de mesa e toalhinhas estampadas e trabalhadas com dizeres variados -críticas ao ex-presidente da Argentina Mauricio Macri, acusação de golpe de estado por parte do ex-presidente brasileiro Michel Temer, protestos contra a fome e palavras de ordem em favor do aborto e das identidades de gênero.

"Aborto para cuerpos gestantes", diz uma toalha de mesa grande. "Beso no transmite", afirma um pequeno papel, em referência a transmissão do HIV. "Esta panza es re gay", brinca um retalho. "Cuceta decolonial", brada um pequeno cartaz

Num contexto social ainda conservador, permeado por retrocessos que questionam até o direito a mulheres que foram estupradas de acessar um aborto depois de 22 semanas de gestação, ler as palavras "cuceta decolonial" impressas numa ilustração de calcinha ainda pode chocar.

CONTADOR - BONUS

Segundo Carneiro, "o choque é positivo, porque desloca a pessoa do lugar em que ela está". A ideia da exposição, ela diz, é também produzir, com as poucas palavras típicas das artes gráficas, boas perguntas para o público.

Mas a escolha pelo coletivo não se dá só por esse fator. Carneiro lembra que há uma tradição histórica de artes gráficas na América Latina desde o início do século 20 -lastro que foi recuperado na 35ª Bienal de São Paulo, no ano passado, com os coletivos Taller 4 Rojo, da Colômbia, e Taller NN, do Peru.

As Serigrafistas Queer também têm lastro próprio. Estiveram na última edição da Documenta, em Kassel, na Alemanha, e teceram uma rede de contatos no mundo das artes gráficas que tem impacto. Parte da mostra no Masp inclui oficinas -ou "talleres", em espanhol- com grupos brasileiros como Fudida Silk, Jamac e Parquinho Gráfico.

O coletivo oferece uma zine com algumas técnicas de serigrafia diferentes, para que cada um possa escolher o que convém. O passo a passo da serigrafia oferece opções com uso de sala escura para a revelação da imagem impressa. Há, ainda, uma opção com o emprego de tinta à base de látex. A técnica está ali, disponível sem segredo.

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A mesa em que isso vai ocorrer, instalada no espaço expositivo, é na forma de um roedor argentino chamado "cuis". O grupo explica que adotou o mascote pela similaridade que a palavra tem com queer e acabou usando o nome também no coletivo, que pode ser Serigrafistas Cuis, ou Cuises. É, dizem eles, mais latino-americano.

É da experiência de ensino de técnica que nasce a possibilidade de encontros e reparação sobre a qual se apoia o coletivo. Um projeto desafiador para instituições museológicas que, em sua essência, se consagram nas ideias de autoria e de exclusividade.

Com as Serigrafistas Queer, esses valores caem por terra. Para o coletivo, o fato de uma obra que está na parede do museu também estampar uma camiseta, ou um cartaz, ou sabe-se lá onde, é transgressor. "O museu também pode ser uma caixa de ressonância a ser 'hackeada em alguns momentos", diz Guille Mongan, integrante do grupo.

SERIGRAFISTAS QUEER: LIBERDADE PARA AS SENSIBILIDADES

Quando Qua. a dom, das 10h às 18h; ter., das 10h às 18h. Até 16 de março

Onde Masp - av. Paulista, 1.578, São Paulo

Preço R$ 70; grátis às terças

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