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Mortalidade por diabetes em São Paulo é até 20 vezes maior na periferia que em bairros nobres

FolhaPress 07/08/2024 16:47

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Morar nos bairros mais periféricos da cidade São Paulo está intimamente associado a um risco maior de morte por doenças crônicas como diabetes, AVC (acidente vascular cerebral) e infarto. Um novo estudo mostrou que a mortalidade chega a ser 20 vezes maior a depender do local de moradia, como no caso de mulheres com diabetes mellitus.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O estudo, comandado pelo Insper e pela Umane, utilizou a dimensão e a estruturação dos dados públicos da capital paulista, incluindo dados cartográficas, populacionais, epidemiológicos, socioeconômicos e de recursos de saúde, referentes ao período de 2010 a 2019.

Para fazer a análise, foi adotada uma escala de mortalidade padronizada (dada pela razão entre óbitos observados e óbitos estatisticamente esperados), na qual o distrito administrativo que está na média fica com valor 1.

Em Moema, bairro rico da zona sul da capital, o índice entre mulheres é de 0,11, ou seja, bem abaixo da média. Por outro lado, no Jardim Helena, na zona leste, a cifra é de 2,32 -cerca de 21 vezes o valor de Moema e mais que o dobro da média.

Assim, pesquisadores correlacionaram a variação da mortalidade das mulheres (38%) em relação às condições socioeconômicas. Para os homens esse efeito é menos pronunciado (25%), com os extremos nos bairros Alto de Pinheiros (0,25) e Jardim Helena (1,84).

SESC PICASSO

"São Paulo é um laboratório natural de saúde urbana, porque permite que se estude a desigualdade do acesso social", afirma o patologista Paulo Saldiva, coordenador do estudo e do Observatório de Saúde Urbana do Insper e professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Outro achado da pesquisa é que, diferentemente da tendência em outras faixas etárias, ao longo dos anos, as mortes entre adultos jovens (entre 30 e 39 anos) por causa de diabetes têm uma tendência de aumento.

Isso preocupa por que o diabetes, assim como hipertensão e sedentarismo, embora seja silencioso no início, provoca dano cumulativo no organismo. A conta chega anos após o diagnóstico, seja na antecipação da morte ou na diminuição dos anos de vida saudável.

"Controlar diabetes é muito difícil, mais que hipertensão. A pessoa tem que ir em algum tomar uma picada no dedo em jejum, depois voltar para acertar a dose de insulina. E mesmo se o programa de saúde da família pudesse ir até a casa da pessoa, a pessoa trabalha, nem sempre ela está disponível no horário convencional. Uma solução era fazer postos de coleta, por exemplo, ao longo das linhas de metrô. A pessoa faz o exame de glicemia, ganha um biscoito e pode receber o resultado por WhatsApp", diz Saldiva.

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Um dos objetivos do trabalho é influenciar políticas públicas, aproveitando também o período eleitoral para apresentar os resultados aos candidatos à Prefeitura. Segundo Saldiva, a ideia é que o eleito, municiado dos dados, tenha força para implementar mudanças.

No caso das doenças isquêmicas do coração, a discrepância entre bairros também é notória. No Grajaú, na zona sul de São Paulo, por exemplo, a taxa padronizada de mortalidade entre homens de 30 a 39 anos é de 5,2, ou seja, 420% maior do que a média.

No caso das doenças cerebrovasculares, como AVC, o destaque negativo entre mulheres ficou com o Brás (1,6), e o positivo, Jardim Paulista (0,3). Já entre os homens, os extremos ficam em Perus (1,7) e Moema (0,1).

A análise indicou também uma tendência geral de redução na mortalidade materna (seja direta, por condições com pré-eclâmpsia e hemorragia, ou por outras causas que levam ao desfecho) ao longo do período. No entanto, essa melhora não foi observada de maneira uniforme, com gargalos regionais.

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Nos dez anos analisados, foram contabilizados 845 óbitos maternos. Nenhum deles aconteceu no Alto de Pinheiros, Mooca, Saúde, Pinheiros e Tatuapé. Na outra ponta, em números absolutos, destacam-se negativamente Itaim Paulista, zena leste, com 26 mortes, e Brasilândia, na zona norte, com 25. Os piores números estão na região sul da capital: Grajaú (38), Cidade Ademar (31), Jardim Ângela (28), Capão Redondo (27) e Jardim São Luiz (25).

Proporcionalmente, os bairros mais afastados em geral tem mulheres mais jovens em sua estrutura demográfica e maior taxa de fecundidade.

O grupo também apresenta ideias, como repensar o financiamento do serviços, ter maior incentivo ao emprego da telessaúde, aperfeiçoar sistemas de acompanhamento dos pacientes, ampliar de serviços de reabilitação, e implementar unidades de saúde anexas a estações de trem e metrô.

"A saúde pública de um bairro não é um problema isolado. A gente tem que ter políticas públicas que considerem o território, entendendo e abraçando essa complexidade, principalmente devido às questões socioeconômicas. Não é o mesmo tipo de unidade básica de saúde que vai ter bom desempenho em bairros com contextos completamente diferentes. Uma mensagem que queremos deixar é o quanto é importante reconhecer o impacto dessa desigualdade para conseguir planejar melhor os serviços de saúde para a população", afirma Evelyn Santos, gerente de parcerias e novos projetos da Umane.

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