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Moderação de 'A Festa de Léo' faz contraponto a 'Cidade de Deus'

FolhaPress 02/06/2024 15:47

FOLHAPRESS - Lançado em 2002, "Cidade de Deus" se tornou um paradigma do cinema brasileiro. Goste-se ou não do filme dirigido por Fernando Meirelles, é preciso reconhecer que jamais na produção nacional uma favela tinha sido retratada com tamanha intensidade, exposta na profusão de fragmentos visuais e sonoros, além do roteiro engenhoso. "Um nocaute visual e uma metralhadora na edição", escreveu na época a revista americana Variety.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O filme foi indicado a quatro Oscars, direção, roteiro adaptado, fotografia e edição, tem figurado em diversas listas internacionais dos cem melhores filmes do século 21 e deu uma projeção ao cinema brasileiro raras vezes vista. E agora vai virar série, sob a direção de Aly Muritiba.

Mas por que falar sobre "Cidade de Deus" em um texto sobre o recém-lançado "A Festa de Léo"? Porque uma condição inescapável se impõe neste caso: qualquer filme sobre uma favela carioca realizado desde então acaba dialogando com o longa de Meirelles –por aproximação (nos temas, na linguagem) ou por afastamento, como o filho que nega o pai.

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Pode parecer, em um primeiro momento, que estamos diante de um discípulo que faz a sua reverência a "Cidade de Deus". Afinal, "A Festa de Léo" é o primeiro longa produzido pelo núcleo de cinema do Nós do Morro, projeto cultural do Morro do Vidigal, no Rio, que contribuiu muito para a autenticidade do filme de 2002.

Além disso, vários atores que estiveram em "Cidade de Deus" aparecem neste novo filme, como Jonathan Haagensen, Babu Santana e Roberta Rodrigues.

Mas a produção dirigida por Luciana Bezerra e Gustavo Melo, ambos ligados há décadas ao Nós do Morro, se firma muito mais como um contraponto ao filme de Meirelles.

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"A Festa de Léo" acompanha Rita, vivida por Cíntia Rosa, uma moradora do Morro do Vidigal que trabalha como vendedora na praia. A muito custo, ela consegue juntar economias para celebrar os 12 anos do filho, papel de Arthur Ferreira, mas a festa se torna improvável quando Rita descobre que foi roubada pelo marido, Dudu, encarnado por Haagensen, um pedreiro sob ameaça dos traficantes da favela.

Além da tentativa de botar a comemoração de pé outra vez, ela busca ajudar o pai do seu filho, embora sinta raiva dele.

Um dos pontos centrais do novelo de personagens de "Cidade de Deus" é a corrida masculina pelo poder, que vira-e-mexe acaba em violência. "A Festa de Léo" vai por outro caminho: é um filme sobre a persistência das mulheres, que evitam que o caldeirão social exploda de uma vez.

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As tensões percorrem o drama de Bezerra e de Melo, mas são muito mais comedidas do que as vistas no filme de 2002. Não que os obstáculos sejam menores –a ausência do poder público é tão alarmante quanto antes. Mas as dificuldades surgem muito mais incorporadas ao cotidiano, são regra, não exceção.

Este tom moderado também se reflete na edição e na fotografia, que destoam da cartilha da celeridade de "Cidade de Deus".

Assim, a trama avança, sem arroubos, por meio da determinação da personagem vivida com vigor por Cintia Rosa. Em "A Festa de Léo", o Vidigal é dela.

A FESTA DE LÉO

- Avaliação Bom

- Classificação 12 anos

- Elenco Cíntia Rosa, Jonathan Haagensen, Arthur Ferreira, Mary Sheyla, Neusa Borges e Babu Santana

- Produção Brasil, 2022

- Direção Luciana Bezerra e Gustavo Melo

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