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Masp fecha o ano com histórias e contradições da comunidade LGBTQIA+

FolhaPress 15/12/2024 09:46

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Entre muros de tijolos, tão comuns nas comunidades brasileiras, paira uma enorme cruz de madeira. O lugar montado dentro do Masp, o Museu de Arte de São Paulo, parece uma pequena capela, que no lugar de vitrais sagra em suas paredes obras de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. O santíssimo altar é substituído por um enorme letreiro em inglês que diz "arrependa-se, e não peque mais!".

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O mandamento duplicado e impresso em dois quadros negros é a obra "Repent, and Sin no More!", de Andy Warhol, o grande criador da arte pop nos Estados Unidos. O trabalho foi emprestado pela Tate, o museu nacional de arte moderna do Reino Unido, para a exposição "Histórias LGBTQIA+", que encerra a programação deste ano no Masp com 150 obras de artistas que repensam a evolução da arte sob uma perspectiva queer.

A espécie de capela e a cruz são de Ventura Profana, artista e pastora trans que mostra, em suas obras, como corpos queer são condenados à repressão por normas religiosas -especialmente no momento em que igrejas neopentecostais ampliam sua influencia sobre comunidades vulnerabilizadas pelo país.

Dentro da capela estão também o secular "São Sebastião na Coluna", do renascentista italiano Pietro Perugino, e "São Sebastião de Cabeça para Baixo", de Leonilson, um dos principais artistas brasileiros contemporâneos.

O espaço remete à música "Like a Prayer", de Madonna, um hino de libertação para a comunidade LGBTQIA+ na passagem das décadas de 1980 para 1990 -o mesmo período em que a comunidade foi afetada pela epidemia da Aids.

A crise do HIV é o ponto de partida da mostra, que abarca especialmente artistas da década de 1980 em diante. A escolha tem a ver com o impacto profundo do vírus na comunidade, que se reorganizou para enfrentar a doença diante da rejeição social e negligência dos governos.

SESC PICASSO

"Cartazes estéticos e políticos viraram modelo de manifestação, e a revolta mundial, um modelo para as marchas do orgulho", diz Leandro Muniz, curador-assistente da exposição, que inclui pôsteres do coletivo americano Gran Fury. Os artistas que morreram por complicações da Aids têm seus nomes emoldurados por um retângulo preto, em referência a um cartaz do artista Félix Gonzalez-Torres.

Trabalhos gráficos, aliás, são comuns entre artistas queer que, deixados às margens do circuito da arte durante a história, produziram usando materiais mais baratos e de fácil acesso. Não por acaso, a primeira sala da mostra é dedicada a criar uma espécie de biblioteca, com zines de coletivos latino-americanos.

Reservar um núcleo à arte política é uma escolha que se repetiu também em outras exposições do museu voltadas a repensar a história da arte através da experiência social, por uma perspectiva mais ampla e diversa, como "Histórias Afro-Atlânticas", "Histórias da Sexualidade" e "Histórias Indígenas".

No ano passado, a Bienal de São Paulo também reservou um de seus ambientes à arte ativista. A 35ª edição foi a primeira a pôr em evidência artistas queer, muitos deles com trabalhos que referenciavam outros membros da comunidade --algo que se repete na exposição do Masp.

CONTADOR - BONUS

O primeiro núcleo da mostra é voltado a símbolos do movimento. No trabalho "Butch Heroes", de Ria Brodell, três mulheres lésbicas que viveram em séculos passados são representadas em três pinturas pequenas e delicadas. Xica Manicongo -a primeira travesti de que se tem registro no Brasil, tirada forçosamente do Congo pelos colonizadores portugueses- virou uma escultura abstrata pelas mãos da paraense Rafa Bqueer, enquanto Rodolpho Parigi faz uma versão do "Abaporu", de Tersila do Amaral, usando botas de látex e a calcinha nos joelhos.

Uma pintura de Roberta Close feita por Adir Sodré, de 1985, anuncia outro núcleo da mostra, dedicada ao sexo. Close foi a primeira modelo trans a pousar nua para a revista Playboy, mas sem mostrar a genitália. Na tela, ela aparece com um pênis fantasiado, colorido e alado -uma provocação à fetichização de pessoas trans.

As obras que abordam o desejo, aliás, não escondem as tensões que o envolvem. A série de pequenas pinturas "Vagalumes", de Adriel Visoto, mostram o interior de uma boate gay, e "O Freddy", foto do colombiano Miguel Rojas, flagra um homem dentro de um cinema pornô. Ambos evidenciam como homens gays vivem sua sexualidade na penumbra de locais públicos, como bares e parques, no limiar do que é socialmente aceito.

Enquanto isso, o sexo aparece sempre de forma contida em obras de lésbicas, que temem o assédio e, ao mesmo tempo, são relegadas a um espaço de não existência. É o caso de "Lesbian Beds", da americana Tammy Rae Carland, uma série de fotografias de camas com lençóis bagunçados que sugerem que algo aconteceu ali.

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Já Teresa Margolles fotografou mulheres trans entre as ruínas de um antigo bairro de prostituição para denunciar a hipersexualização e, ao mesmo tempo, a marginalização de travestis. "Sabemos que o Brasil é o país que mais consome pornografia trans e também o que mais mata essas pessoas", diz Muniz, o curador.

Na sala dedicada ao amor, aparecem os retratos de mulheres negras apaixonadas em séculos passados, gerados com inteligência artificial por Mayara Ferrão, e fotos de Zanele Muholi, que mostram duas mulheres nuas dormindo abraçadas.

Já o paquistanês Salman Toor expõe uma pintura que parece dar uma piscadela para as cenas cotidianas do impressionista francês Pierre-Auguste Renoir. Sua tela esverdeada e esfumaçada dá a sensação de embriaguez, enquanto mostra homens que trocam sussurros em público.

A montagem de "Histórias LGBTQIA+" levou também à compra de novas obras para o acervo do Masp. É o caso de "Wall", do chinês Xiyadie, de 1963, adquirido pelo curador chefe do museu, Adriano Pedrosa, durante a montagem da última Bienal de Veneza. Na tela, figuras homoeróticas são feitas com papel recortado, tradição manual ornamental e conservadora.

"Alibã Vuduzento Aquenda Forte", enorme placa de madeira recortada e colorida, de Assume Vivid Astro Focus, pseudônimo do brasileiro Eli Sudbrack, também foi comprada e está exposta em um cavalete de vidro de Lina Bo Bardi, na seção de acervo do museu.

HISTÓRIAS LGBTQIA+

Quando Ter., das 10h às 20h; quarta a domingo, das 10h às 18h. Até 13 de abril

Onde Masp - av. Paulista, 1.578, São Paulo

Preço R$ 70; grátis às terças

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