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Maior demanda e balsas limitadas fazem motorista encarar longas filas em travessia no litoral norte de SP

FolhaPress 17/01/2024 16:28

ILHABELA, SP (FOLHAPRESS) - Na volta do feriado de Ano-Novo, o ambulante Celso Alves Cordeiro, 70, faturou alto. Ele vendeu R$ 1.700 em pipocas para os motoristas que encaravam a espera de até seis horas para pegar a balsa e fazer a travessia de Ilhabela para São Sebastião, no litoral norte de São Paulo.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Foi um dos dias mais rentáveis para ele, que vende pipoca no local desde 1992. "Naquela noite fomos embora meia-noite e ainda tinha gente esperando", lembra.

Neste domingo (14), perto do carrinho do pipoqueiro, o comerciante Tulio Castelani, 45, já contava duas horas de espera pela sua vez de atravessar a cancela para o continente após passar o fim de semana com a família em Ilhabela. "Para vir, demorei seis horas, sendo três na fila da balsa. Aqui é gostoso pelas praias, mas perde muito tempo parado. É cansativo", diz.

Ele conta que até cogitou desistir da viagem, mas, como já tinha pago as reservas de hospedagem, manteve o destino. "A fila estava passando na porta da pousada na sexta-feira", lembra.

A espera na fila foi ainda superior a seis horas no fim de setembro do ano passado. A demora foi causada pela conjunção de dois fatores que transformam a travessia em um teste de paciência: a alta demanda e as condições dos ventos no canal de São Sebastião.

O volume de carros, principalmente no verão, torna as filas maiores, mas são as paralisações no serviço provocadas pela velocidade do vento na travessia que somam ainda mais horas à já tradicional espera.

Nas últimas quatro semanas, 151,9 mil veículos de passeio fizeram a travessia de 2.400 metros pelo canal de São Sebastião, o que representa média de 5.200 por dia. Em 2023, a média diária foi de 3.900 veículos de passeio, segundo a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil).

SESC PICASSO

Das dez embarcações disponíveis para a travessia, seis param de funcionar quando o vento chega a 25 nós (46,2 km/h) e outras duas, com capacidade menor, ficam inoperantes quando há ventos de 14 nós (25,9 km/h). Há também duas lanchas exclusivas para o transporte de pedestres e ciclistas que só podem navegar em condições de vento de até 21 nós (38 km/h).

Os limites são determinados pela Marinha, responsável pelas regras de navegação, por questões de segurança e são definidos segundo a capacidade das embarcações, a maioria, fabricada há mais de 70 anos, que demanda ser retirada da água para reparos constantes.

Ventos de 67,5 km/h deixaram a travessia fechada por quase dez horas em outubro do ano passado. Empresários, comerciantes e moradores de Ilhabela iniciaram um abaixo-assinado intitulado "Governador Tarcísio, Ilhabela pede socorro". O colapso também fez a Câmara de Ilhabela convocar audiência pública para a semana seguinte para discutir o tema.

A Semil afirmou que a crise foi causada por alta demanda e condições climáticas adversas. Em relação à fila do dia 2 de dezembro, a secretaria informou que houve um erro no site e o tempo de espera não foi atualizado. Naquele dia, houve espera de até duas horas e meia.

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O professor de engenharia naval Marcos Pinto, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, explica que a travessia é comprometida porque a tração das embarcações não tem força suficiente para se sobrepor à força dos ventos e impedir, por exemplo, que a balsa seja jogada pelas ondas para as pedras. "Para evitar isso, seria necessário ter um rebocador reserva para ser acionado nessas ocasiões, o que encarece o serviço", diz. "Antes de trocar o equipamento é preciso fazer um estudo das condições de segurança e melhorar a análise das condições operacionais", continua.

As paralisações em decorrência das condições do vento no canal de São Sebastião são recorrentes e, no ano passado, a Semil contabilizou 55 ocorrências. "Temos uma limitação de infraestrutura. Só podemos operar com, no máximo, nove balsas e mais uma reserva. Se colocasse mais uma, ficaria à deriva", diz a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende.

Segundo ela, a gestão anterior entregou as travessias marítimas do estado em condições precárias. "Sabemos que ainda tem que melhorar bastante", diz. Procurada, a gestão do ex-governador Rodrigo Garcia (PSDB) não comentou.

O ex-governador João Doria foi procurado para comentar o assunto, mas não quis se pronunciar.

Nesta atual alta temporada, a Semil informou que a travessia foi paralisada por questões climáticas nos dias 26 de dezembro e 9 de janeiro, quando foram registrados ventos de 28,8 nós (53,3 km/h) e 30,8 nós (57 km/h). As paradas duraram, em média, uma hora e meia.

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As rajadas são favorecidas pela topologia de Ilhabela, de origem vulcânica, com montanhas de até 1.375 metros de altura. "A ilha tem picos muito altos e fica próxima à Serra da Mar, o que favorece a condição de corredores de vento e aumento da velocidade das correntes marítimas", explica o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Esse conjunto de fatores causa mudanças bruscas de navegabilidade no canal de São Sebastião, explica Pinto.

O governo Tarcísio projeta para o início de 2025 o leilão de parceria público-privada para as oito travessias marítimas do estado. A previsão de investimento é de R$ 80 milhões. Diferente de iniciativas anteriores de conceder a gestão das balsas à iniciativa privada, a secretária Resende explica que o novo projeto prevê contratos de longo prazo para amortizar o investimento a longo prazo e subsídios estatais. "É um serviço deficitário em que o custo é maior do que a receita", diz.

Em 2018, o ex-governador Doria (então no PSDB) anunciou a privatização das travessias litorâneas como promessa de campanha. A licitação foi autorizada em novembro de 2021, mas não houve interessados.

Para este ano, as travessias marítimas paulistas têm orçamento aprovado de R$ 211 milhões, abaixo dos R$ 279 milhões disponibilizados no ano anterior, dos quais foram executados 75%, segundo a secretária. Os cerca de R$ 220 milhões foram usados, em parte, para reformar duas balsas que ligam São Sebastião a Ilhabela, além de tornar adequar à acessibilidade a estrutura da balsa em Guarujá, no litoral sul.

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