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Mães amamentavam os filhos até os 5 anos em áreas rurais do Império Romano

FolhaPress 25/01/2025 12:33

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Os bebês que viviam nas grandes cidades do Império Romano costumavam ser desmamados bem mais cedo do que os da zona rural, e uma possível explicação pode estar nos manuais médicos da Antiguidade, que recomendavam o fim do aleitamento materno no máximo aos dois anos de idade.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A hipótese vem de um estudo que comparou os padrões de desmame em quatro locais que integraram o território imperial durante séculos: os centros urbanos de Pompeia, na Itália, e Tessalônica, na Grécia, e vilarejos rurais em Bainesse (atual norte da Inglaterra) e Óstia, o antigo porto de Roma, a uns 25 km da capital.

No trabalho publicado no último dia 14 na revista especializada PNAS Nexus, a equipe liderada por Carlo Cocozza, do Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha, detalha as análises dos chamados isótopos estáveis nos dentes da população do império.

O termo designa variantes de um elemento químico que não sofrem alterações radioativas ao longo do tempo (daí a sua estabilidade). Os isótopos estáveis relevantes para a investigação feita pela equipe são formas mais "pesadas" dos elementos químicos carbono e nitrogênio, o carbono-13 e o nitrogênio-15.

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A proporção deles na matéria orgânica, quando comparada à de formas mais comuns desses elementos, ajuda a estimar qual era a alimentação de seres humanos (ou outros animais) ao longo do tempo. O consumo de leite materno, por exemplo, tende a fazer com que ocorra um acúmulo proporcionalmente maior de nitrogênio-15 no organismo.

Como esqueletos de crianças pequenas nem sempre se preservam com facilidade, sem falar no fato de que, na Antiguidade, era comum que elas morressem antes de ser desmamadas, Cocozza e seus colegas acharam uma maneira engenhosa de obter uma espécie de "filme" do processo de amamentação e desmame.

A chave é um dente, o primeiro molar permanente da nossa espécie (designado com a sigla M1). O ciclo de desenvolvimento dele faz com que ele incorpore componentes derivados da alimentação entre os três meses e os 9,5 anos de idade. Esse "sinal" pode ser analisado a partir das camadas de formação da dentina, parte do dente que fica embaixo do esmalte.

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Ou seja, as camadas da dentina trazem pistas sobre as mudanças na alimentação ao longo de todos esses anos da infância, abrangendo inclusive o período crítico do desmame e da introdução de outros alimentos na dieta da criança.

Com base nisso, a equipe não precisou obter a dentição de meninos e meninas da época romana: bastou examinar a composição isotópica de primeiros molares permanentes com a dentina bem preservada. A amostragem total usada por eles incluiu 45 indivíduos das quatro localidades.

Após a medição dos isótopos, eles verificaram que, nas cidades de Pompeia e Tessalônica, cerca de 75% das pessoas foram desmamadas antes ou em torno de completar dois anos de idade. Já nos sítios rurais de Óstia e Bainesse o padrão se inverte, com cerca de 80% dos indivíduos passando pelo desmame após os dois anos de vida -em alguns casos, por volta dos cinco anos.

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A idade preferida para o desmame nos centros urbanos imperiais coincide, em linhas gerais, com as orientações de manuais médicos da época, como a "Ginecologia", de Sorano, e a "Higiene", de Galeno (ambos do século 2º d.C.) e as "Collectiones Medicae" de Oribásio (século 4º d.C.). Tais médicos defendiam um início do desmame a partir dos seis meses de vida, com a paulatina substituição do leite materno por mingaus e, depois, alimentos cada vez mais sólidos, completando o processo aos dois anos de idade.

O conhecimento desses médicos pode ter chegado à população com maior renda das cidades por meio de consultas a profissionais de saúde ou mesmo pela leitura dos tratados especializados.

Por outro lado, o desmame relativamente precoce pode ter ocorrido apenas por conta de mudanças culturais e econômicas relacionadas à vida em grandes cidades, enquanto a zona rural do império mantinha tradições mais antigas quanto ao cuidado com os bebês.

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