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'Luta de Classes' mostra a habilidade de Spike Lee na condução de tramas

FolhaPress 31/08/2025 09:30

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 2013, Spike Lee fez uma refilmagem americana do filme sul-coreano "Old Boy", de Park Chan-wook. Quase ninguém gostou. O que um diretor inquieto e insistente como ele faz quando fracassa desse jeito? Tenta novamente.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Mas há uma grande diferença entre americanizar um filme oriental contemporâneo de sucesso e refazer um grande clássico do cinema japonês, "Céu e Inferno", de 1963, do magnífico Akira Kurosawa.

Além de levar a trama para os EUA, Lee preferiu torná-la contemporânea. Nesse processo, faz com sucesso algo que não conseguiu na outra refilmagem --se apossar do material trazendo-o para seus domínios.

Vemos Denzel Washington no papel que foi de Toshiro Mifune, do magnata que tem um dilema quando Kyle, o filho de seu empregado, é sequestrado por engano no lugar de seu filho, Trey.

"Highest 2 Lowest", o nome em inglês do filme de Spike Lee, é uma referência a "High and Low", título que o filme de Kurosawa recebeu nos EUA, além de rimar com os tons mais altos e mais baixos usados numa música, como também com as diferentes alturas por onde os personagens se movem, do topo de um edifício imenso ao submundo do crime.

É refilmagem de Kurosawa, certo, mas é também uma repatriação do romance "King's Ransom", de 1956, que serviu de base ao filme de 1963. O livro fez parte de uma série policial chamada "87th Precint", publicada entre 1956 e 2005 por Ed McBain, pseudônimo do escritor norte-americano Evan Hunter (1926-2005).

SESC PICASSO

O diretor de "Faça a Coisa Certa" --título que serviria como uma luva aqui-- faz de Washington um magnata da indústria fonográfica, não mais o dono de uma fábrica de sapatos de "Céu e Inferno".

David King, e não Douglas King, como no livro, é fundador e presidente da Stackin' Hits Records, descobridor de novos talentos com enorme faro e milionário com um monte de discos de platina para ostentar.

O funcionário que tem o filho raptado é Paul, vivido por Jeffrey Wright, seu motorista e grande amigo que no passado teve problema com a lei. O dilema é grande. King está perto de perder o comando de sua gravadora e planeja algo que lhe daria o controle da situação. Ter de pagar o resgate praticamente impossibilitaria esse movimento.

Não pagar, porém, é correr o risco de sujar suas mãos de sangue, além de queimar definitivamente sua reputação junto às mídias sociais, caso o sequestrador faça o que prometeu. O mundo conectado da internet surge então como um catalisador dos problemas do executivo, pois um movimento em falso pode ter consequências terríveis para seu futuro profissional.

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Mais uma mudança em relação ao livro e ao filme de Kurosawa --não são mais crianças muito próximas que o sequestrador confunde, mas adolescentes, muito unidos, e capazes de julgar. Isto faz com que o pai possa ser questionado pelo filho em sua decisão inicial de não pagar o resgate.

Outra mudança importante --o lar do magnata não é mais uma casa na colina com uma grande janela, que pode ser vista de uma favela, mas um prédio muito alto e estilizado, com vista para a ponte do Brooklyn.

Essa diferença tem grande consequência no aspecto visual do filme. Vemos o tempo todo aquela paisagem se desnudando aos olhos de quem habita o apartamento privilegiado. De baixo, quem está na luta para sobreviver também observa aquela pompa toda com inveja ou sentimento de injustiça social.

Por fim, para a entrega do resgate o sequestrador confiou em vários comparsas, que executam um plano envolvendo o metrô de Nova York e a interrupção brusca do movimento do trem para que ele parasse bem em cima de onde acontecia um festejo porto-riquenho.

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Ter um protagonista da indústria fonográfica ainda é pretexto para Spike Lee rechear a trilha sonora com grandes canções de soul e funk do passado, como em boa parte de sua carreira. Mas o filme começa devagar, com um exagero meloso ao piano.

Assim que a trama engrena, depois de uns vinte minutos, a música original melhora bastante, pela boa mão de Howard Drossin. Para um filme que trata de bom ouvido musical, é essencial ter uma boa trilha sonora.

A refilmagem de Lee é um pouco mais curta que o longa original. Mesmo assim, a introdução dos personagens parece mais lenta, com Washington sendo parado por aspirantes a músicos de sucesso e discutindo sobre o uso de inteligência artificial na música, o que para ele destrói o motivo pelo qual ele escolheu essa profissão.

"Luta de Classes" nunca deixa de nos entreter, mostrando a habilidade do diretor na condução de tramas que exigem uma boa dose de tensão, como a de "O Plano Perfeito", longa que realizou em 2007 em tom semelhante. Spike Lee em forma é motivo de comemoração.

Luta de Classes

Quando: Estreia na sexta (5), no Apple TV+

Classificação: 16 anos

Elenco: Denzel Washington, Jeffrey Wright e A$AP Rocky

Produção: EUA, Japão, 2025

Direção Spike Lee

Avaliação: *Muito bom*

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