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Jards Macalé relê obra de Zé Kéti com Sergio Krakowski Trio em disco político

FolhaPress 30/01/2024 10:13

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Pandeiro, piano e guitarra parecem caminhar a esmo, tateando o ar e construindo uma atmosfera rarefeita e tensa. Depois de um minuto, uma voz dá forma mais definida àqueles sons, entoando os versos conhecidos de "Opinião", cantados em andamento bem mais lento do que o de costume. As palavras ganham outro peso. A certa altura, ouvimos uma lista de nomes de negros vítimas da violência policial.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

"Opinião" é uma das faixas de "Mascarada", álbum no qual Sergio Krakowski Trio e Jards Macalé unem forças para reler canções de Zé Kéti. A densidade angustiada da gravação, a inventividade livre do arranjo, a carga política presente ali —"Opinião" guarda muito das características do projeto, registrado em 2019 em Nova York e lançado agora em vinil e nas plataformas de streaming pela gravadora Rocinante.

"Mascarada" foi uma decorrência do trabalho que o Sérgio Krakowski Trio —grupo fundado em Nova York que, além do percussionista que o batiza, tem o guitarrista Todd Neufeld e o pianista Vitor Gonçalves— vem desenvolvendo nos últimos anos.

Depois de lançar em 2016 um disco de composições próprias, eles começaram a fazer experiências sobre o samba, inclusive com canções como "Mascarada". "Até que um dia Todd sugeriu que fizéssemos um disco em homenagem a Zé Kéti", diz Krakowski. "E ele mesmo trouxe a ideia de ser com Jards".

SESC PICASSO

Na hora, Krakowski aprovou com entusiasmo. Veio à sua memória o dia em que Jards deu uma canja numa apresentação do Anjos da Lua —grupo que comandava bailes de samba que marcaram época na Lapa nos anos 2000 e que tinha o percussionista na sua formação.

Krakowski conta como ficou impressionado ao dividir o palco com Jards naquela ocasião na Lapa. "O que une Jards e o trio é a reverência ao silêncio. O subentendido mais do que o explícito. Muito da expressividade dele se dá por aí. E naquela noite ele conseguiu criar a mágica, essa expressividade do silêncio, no Clube Democráticos, naquela zona, naquele esporro, naquela energia de festa. Tinha que ser ele agora. E Jards tem uma história de vanguarda, é o maluco que toparia essa aventura."

Pode-se dizer, porém, que a história de "Mascarada" começa bem antes, em 1965. Foi quando Jards começou a tocar no espetáculo "Opinião", que reunia Maria Bethânia —substituindo Nara Leão, cantora da formação original—, João do Vale e Zé Kéti. "Me tornei amigo de Zé Kéti. Saía com ele pela cidade, pra beber pelos bares, conhecendo seus sambas", afirma Jards.

CONTADOR - BONUS

Já ali, Jards se mostrava encantado pelas criações do compositor. "Em ‘Acender as Velas’, tem aquele momento em que a melodia sobe: ‘O doutor chegou tarde demais’. Isso é maravilhoso, é Villa-Lobos. E faz todo sentido com o que está sendo dito na letra", avalia.

"Acender as Velas" é uma canção sobre a banalidade da morte na favela. "Opinião" trata da manutenção da dignidade sob a opressão, na fala de uma pessoa que defende seu direito de morar no morro. "Prece de Esperança" clama pela paz "para não ver o mundo se matar". "Peço Licença" pede licença para o exercício do amor.

As quatro estão no disco. Krakowski conta que as letras dos sambas de Zé Kéti também motivaram a escolha por seu nome.

"O que ele fala é muito importante para a gente", diz o percussionista, ressaltando que a música de Zé Kéti não se resume ao aspecto social. "Ela tem o caráter da política mas também o do lirismo sem barreiras. Zé Kéti tem essa síntese, ao mesmo tempo é poético e combativo".

Krakowski vê na obra de Zé Kéti um posicionamento, poético e combativo, no mundo de hoje. Jards reconhece nela "uma conversa com o Brasil de hoje e de sempre". "Como ele canta em ‘Eu Sou o Samba’, ‘Essa é a melodia de um Brasil feliz’. A gente tá procurando esse Brasil feliz há muito tempo".

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A ideia do trio, na qual Jards se engajou de peito aberto, era reler Zé Kéti de maneira livre. Os quatro ensaiaram juntos e, quando adquiriram intimidade com o jeito de tocá-las, partiram para a gravação, num ambiente aberto de improvisação.

"Me lembrou meu disco com Naná Vasconcellos, ‘Let’s play that’", diz Jards. "Gosto de trabalhar assim. O ensaio é libertário, você constrói o chão no qual depois você pode se soltar".

Krakowski define a música do trio como "reverência ao samba sem cair no formalismo". "Nós respeitamos o pulso do samba, suas harmonias, na medida em que saímos deles e voltamos a eles. É uma tradição de invenção sobre o samba na qual nós temos interlocutores: o próprio Jards, Itamar Assumpção e mesmo o Paulinho da Viola de momentos como ‘Sinal fechado’".

Jards sintetiza: "‘Mascarada’ desmascara o samba. O samba fica livre". Jards considera a possibilidade de desagradar aos mais puristas. "Se tiver algum preconceito, foda-se. Invenção é invenção. O samba também é uma invenção do povo brasileiro".

MASCARADA - ZÉ KÉTI

Onde Disponível nas plataformas digitais

Autoria Jards Macalé e Sergio Krakowski Trio

Gravadora Rocinante

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