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Incêndio é novo episódio de tensão entre Casa Civil e COP30

FolhaPress 21/11/2025 20:33

BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - O incêndio no pavilhão principal da COP30 é o mais novo episódio de tensão entre a ala negociadora do Brasil do evento e a Casa Civil do governo Lula (PT).

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Nesta quinta-feira (20), as negociações ficaram paradas por cerca de seis horas em razão do fogo e das inspeções necessárias após o incidente, o que naturalmente afetou o ritmo das tratativas. O presidente da cúpula, o embaixador André Corrêa do Lago, afirmou que o caso gerou atraso em negociações já difíceis.

A avaliação de diplomatas não só do Brasil é que problemas estruturais —desde a questão dos hotéis caros em Belém até os problemas nos pavilhões— interferem no humor dos negociadores, o que afeta as discussões.

O secretário extraordinário da Casa Civil para a COP30, Valter Correia, por sua vez, afirmou que, depois do incêndio, as negociações foram retomadas normalmente. "A única coisa que a gente sabe, segundo o Corpo de Bombeiros, é que não foi nada da estrutura" disse.

O fogo aconteceu em um dos momentos mais delicados da negociação, no penúltimo dia oficial das tratativas, quando o impasse entre países —sobretudo europeus e árabes— ameaça travar as discussões.

Os grupos divergem quanto a temas centrais da COP30, como o mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis, o financiamento climático e para adaptação e o debate em torno das medidas unilaterais de comércio.

Desde o início deste ano, diplomatas relataram à Folha, sob reserva, o receio de que os problemas com hotéis, transporte, logística e segurança transbordassem para as tratativas climáticas e prejudicassem os seus resultados.

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Também há quem reclame da postura do Governo do Pará, sob Helder Barbalho (MDB), por não ter atuado devidamente para controlar a manifestação que tentou entrar na área reservada do pavilhão —ainda no segundo dia da conferência—, e por, depois, ter dito que não tinha responsabilidade, tentando se descolar do problema. A segurança externa está a cargo da Polícia Militar, enquanto a interna é da ONU.

Após o incêndio, quatro negociadores, de diferentes países, divergiram sobre os impactos que o transtorno poderia ter. Parte afirmou, também sob reserva, que isso atrapalharia o humor dos representantes; outros ponderaram que seria necessário ter mais tempo para concluir as conversas, mas que elas não seriam atrapalhadas pelo incidente.

Mas todos relatam que a sequência de problemas, no mínimo, incomoda, já que não é usual que os trabalhos sejam atravessados por esses contratempos.

A sequência de problemas se arrasta desde o primeiro semestre, mas a crise se acentuou logo após as reuniões preparatórias da COP30 que aconteceram na Alemanha. Como revelou a Folha, em julho, dezenas de negociadores enviaram uma carta ao governo Lula e à UNFCCC (o braço climático das Nações Unidas), pressionando para que ao menos parte da conferência fosse transferida para outra cidade.

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No documento, são citados sobretudo os altos preços de hospedagem da cidade de Belém, mas também preocupações com a logística. Estes temas são de responsabilidade da Casa Civil e do governo Barbalho, mas transbordaram para a diplomacia. André Corrêa do Lago foi diversas vezes questionado sobre esse assunto.

Durante o segundo semestre, reuniões entre países que deveriam tratar dos temas da conferência acabaram falando de logística. O tema foi tratado inclusive nos corredores de um retiro organizado pelo Azerbaijão, que tinha como objetivo ajudar os negociadores a conversar em um clima mais leve e informal.

A própria UNFCCC relatou preocupação com o tema de hospedagem neste período, sob receio de que países não conseguissem arcar com os custos de estar na cidade de Belém. Em resposta, a Casa Civil montou uma força-tarefa para tentar resolver, caso a caso, a estadia de diferentes delegações.

Ao mesmo tempo, o Brasil endossou o pleito de outros países para que a ONU ampliasse o auxílio dado a diplomatas, como forma de ajudar a resolver o problema —e a demanda foi atendida.

O problema dos hotéis foi aos poucos resolvido, mas, com o início das negociações, outros problemas surgiram, dessa vez com o pavilhão principal da COP30. Houve reclamações de que o ar condicionado não dava conta de resfriar o espaço, banheiros tiveram falta de água e chegaram a ser interditados, e a chuva forte na cidade causou goteiras e alagamentos.

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O novo estopim da crise foi quando, no segundo dia do evento, cerca de 150 manifestantes que pediam o fim da produção de petróleo e a taxação dos super-ricos conseguiram romper as barricadas de segurança feitas nos arredores da chamada zona azul —área reservada apenas aos credenciados e onde acontecem as reuniões diplomáticas— e quase conseguiram entrar no prédio. Os manifestante —dentre eles, indígenas— foram expulsos pelo policiamento da ONU quando já haviam derrubado as portas do local.

Após o acontecido, a UNFCCC fez uma carta criticando o governo Lula pelas condições de infraestrutura e pedindo aumento na segurança. Novamente o tema logístico passou a ser comentado pelos diplomatas, acentuando a crise entre os negociadores e a Casa Civil.

Três dias depois da manifestação na zona azul, outro ato aconteceu em frente à entrada da COP30, mas sem tumulto. Corrêa do Lago e a CEO da COP30, Ana Toni, deixaram suas agendas e foram pessoalmente conversar com os manifestantes, primeiro na rua e depois em uma reunião fechada, para evitar que a tensão escalasse. As ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Sonia Guajajara (Povos Indígenas) também participaram do encontro.

Ao fim, a avaliação foi que a rápida ação dos diplomatas foi o que ajudou a resolver o tema.

Os problemas de estrutura foram aos poucos resolvidos pela organização do evento e a segurança, de fato, foi reforçada. Sob reserva, críticos da Casa Civil afirmaram que, apesar dos problemas graves iniciais, a resposta da pasta foi a contento.

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