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Igreja do Carmo e Rua Coronel Monjardim guardam três séculos da história de Vitória

Trecho do Centro Histórico reúne memórias de fé, poder político, educação, mudanças urbanas e até do primeiro café da capital capixaba

Vitória News 21/07/2026 09:37
Igreja do Carmo e Rua Coronel Monjardim guardam três séculos da história de Vitória
A partir da Fonte Grande, no centro, o Complexo do Carmo. Ao fundo, Ilha do Príncipe. Década de 1940. Imagem: Arquivo Municipal

Um pequeno trecho do Centro de Vitória concentra quase três séculos de transformações da capital capixaba. A Rua Coronel Monjardim, que liga as proximidades do Convento São Francisco à região da Fonte Grande, preserva histórias relacionadas à religião, à política, à educação e ao crescimento urbano da cidade.

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Antes conhecida como Rua da Capelinha, a via surgiu em uma área marcada por brejos, nascentes e cursos d’água. O caminho era atravessado por pequenas pontes de madeira e acompanhou o desenvolvimento do conjunto formado pela Igreja e pelo antigo Convento do Carmo.

Ao longo dos anos, a rua recebeu autoridades, religiosos, militares, comerciantes e integrantes de famílias influentes. Também abrigou instituições de ensino, imóveis ligados ao poder público e um dos primeiros espaços de convivência social da cidade.

Convento começou a ser construído no século XVII

A construção do Convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo começou por volta de 1682, após o donatário da Capitania do Espírito Santo, Francisco Gil de Araújo, convidar religiosos carmelitas para se instalarem em Vitória.

O conjunto incluía o convento, a igreja e a Capela da Ordem Terceira do Carmo. A arquitetura original tinha características coloniais e influências barrocas.

Naquela época, a região era cercada por terrenos alagadiços. As águas que desciam dos morros de São Francisco e da Matriz, onde atualmente está a Catedral Metropolitana, formavam córregos e áreas encharcadas próximas ao antigo campo dos Pelames.

A Ordem do Carmo se tornou uma das instituições religiosas mais influentes da província. Parte de sua prosperidade veio de uma fazenda recebida como herança em 1696, localizada em Piranema, atual município de Cariacica. A propriedade possuía terras produtivas, uma capela e pessoas escravizadas submetidas ao trabalho no local.

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Convento também funcionou como quartel

A partir do século XIX, restrições impostas pelo governo imperial à entrada de novos integrantes nas ordens religiosas contribuíram para o declínio da instituição.

Com a morte do último prior do convento, frei Antônio de Nossa Senhora das Neves, em 1871, parte do imóvel passou a ser utilizada pelo governo provincial como quartel da Companhia de Infantaria.

Nas décadas seguintes, o espaço assumiu diferentes funções religiosas, educacionais, assistenciais e administrativas.

Casa das Portas Vermelhas foi símbolo de poder

A antiga Rua da Capelinha também abrigou um dos imóveis mais conhecidos da Vitória colonial: a Casa das Portas Vermelhas, chamada ainda de Palácio dos Capitães-Mores.

A residência já existia por volta de 1760 e foi ocupada por autoridades que comandavam a Capitania do Espírito Santo antes da Independência do Brasil.

Posteriormente, o imóvel passou a pertencer à família Monjardim, uma das mais influentes da política capixaba.

A rua recebeu oficialmente o nome de Coronel Monjardim em 27 de fevereiro de 1881. A homenagem foi dedicada a José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim, que participou da Junta de Governo Provisório após a Independência, representou a província na coroação de Dom Pedro I e comandou a Guarda Nacional.

Um de seus filhos, Alfeu Adolfo Monjardim de Andrade e Almeida, tornou-se Barão de Monjardim e foi o primeiro governador eleito do Espírito Santo após a Proclamação da República.

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Primeiro café da cidade funcionou na região

Em 16 de dezembro de 1877, foi inaugurado nas proximidades o Café do Carmo, considerado por cronistas da época o primeiro estabelecimento do tipo em Vitória.

Instalado em um pequeno parque, o local se tornou ponto de encontro de famílias tradicionais, autoridades e visitantes.

O espaço simbolizou uma fase de modernização da capital, quando novos hábitos de convivência e lazer começaram a ser incorporados ao cotidiano urbano.

Dom Pedro II elogiou capela do conjunto

Durante uma visita ao Espírito Santo, Dom Pedro II registrou em seu diário a admiração pela Capela da Ordem Terceira do Carmo.

O imperador considerou o espaço um dos mais bonitos entre os que conheceu na província. A capela, porém, foi demolida no início do século XX durante as reformas de modernização e expansão de Vitória.

Colégio do Carmo marcou gerações

Após a criação da Diocese do Espírito Santo, o antigo convento passou a exercer novas funções.

Em 1897, o primeiro bispo diocesano, Dom João Batista Corrêa Nery, instalou-se no imóvel e dedicou a antiga igreja a Nossa Senhora Auxiliadora.

Pouco tempo depois, foi criado o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, conhecido popularmente como Colégio do Carmo.

Administrada pelas Irmãs da Caridade Filhas de São Vicente de Paulo, a instituição se tornou referência educacional para estudantes da capital e do interior capixaba.

O conjunto também recebeu o Orfanato Coração de Jesus, o Externato São José e outras atividades de caráter educacional e assistencial.

Reforma mudou a aparência da igreja

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Entre 1910 e 1913, o conjunto passou por uma grande transformação arquitetônica.

Novos pavimentos foram acrescentados à área residencial, enquanto a antiga aparência barroca deu lugar a elementos inspirados na arquitetura medieval europeia.

A fachada recebeu arcos ogivais, torres, pináculos e ornamentos de influência gótica. A escadaria frontal, por sua vez, ganhou composição inspirada no barroco italiano.

Essas intervenções deram à Igreja do Carmo a aparência que permanece como uma de suas principais características no Centro Histórico de Vitória.

Rua acompanhou mudanças no transporte

A Rua Coronel Monjardim também fez parte do trajeto dos antigos bondes de tração animal.

Por causa das ladeiras, alguns trechos exigiam esforço adicional dos animais e, em determinadas situações, os passageiros precisavam ajudar a empurrar os veículos.

Com o tempo, os bondes deram lugar a outros meios de transporte, enquanto a região passou por aterramentos, abertura de vias e expansão urbana.

Patrimônio permanece vivo

Depois de funcionar como convento, quartel, residência episcopal, escola, internato, orfanato e centro religioso, a Igreja do Carmo continua aberta para celebrações e visitas.

Parte do conjunto também permanece ligada a atividades educacionais e comunitárias.

A Rua Coronel Monjardim, apesar de curta, reúne vestígios de diferentes momentos da história de Vitória. Em poucos metros, estão memórias de autoridades coloniais, famílias tradicionais, religiosos, estudantes, comerciantes e moradores que ajudaram a formar a identidade da capital capixaba.

Fonte: Arquivo Público Municipal de Vitória

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