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Hong Sang-soo brilha ao reforçar suavidade com que enxerga a vida

FolhaPress 22/11/2025 13:24

FOLHAPRESS - Já se disse de Hong Sang-soo que era o Eric Rohmer coreano. É uma meia verdade. Hong faz, como Rohmer, filmes de câmara, com poucos personagens e muita conversa. Ambos também parecem não se preocupar em terem seu trabalho muito visto.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Mas as diferenças também são sensíveis. Hong trabalha quase sempre com um mesmo ator, que pode ser seu alter ego ou não, mas o acompanha em praticamente todos os filmes —Kwon Hae-hyo, que em "O que a Natureza te Conta" faz o pai da moça que, pela primeira vez, traz o namorado, um jovem poeta por nome Ha Dong-hwa.

Outra diferença importante em relação ao francês: nos filmes de Hong quase sempre as coisas se resolvem em torno de uma mesa e a poder de muita bebida. Aqui as coisas são até certo ponto um tanto diferentes. Os pais de Kim, a garota em questão, moram em uma bela casa, cercada de plantas, árvores, flores e com vista privilegiada para a natureza.

Razão de sobra para que o jovem poeta se espalhe e escreva. Mas também a mãe da garota é poeta, o que desde o início parece ser um problema: a mãe já tem certo nome, publica há anos. A poesia do rapaz não é profunda e talvez nem seja sincera. A mãe não deixa de expor essas fragilidades.

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O filme se faz de conversas cordiais e passeios com muitas ofertas de novos ângulos da propriedade capazes de proporcionar novos olhares —e novas incursões poéticas— ao rapaz.

Alguma coisa dá errado na história dele: a filha parece realmente interessada no jovem, com quem já tem relacionamento sólido há algum tempo; a mãe se mostra gentil, mas um tanto esquiva, enquanto o pai se mostra conversador e empenhado em apresentar novas paisagens ao rapaz.

O problema é: será que a natureza vai inspirar de fato o rapaz? E também: será isso uma espécie de prova para verificar se ele está apto a casar com a filha ou não? Diante da natureza, parece dizer o filme, é que podemos descobrir quem somos.

A mãe sabe as fragilidades da poesia incipeinte do rapaz. Mas podemos perguntar: o que têm as suas virtudes de poeta com ser um bom marido para a filha?

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Em parte a questão nos leva a outra semelhança com os filmes de Rohmer: como o francês, Hong sabe como ocultar aonde estão levando as histórias que contam e qual o destino de seus personagens. É o que torna seus filmes intrigantes —e, sobretudo no caso de Rohmer, discretamente carregados de suspense.

O fato é que aqui a natureza pode até mesmo mostrar muitas coisas, mas descobrir quem é realmente o rapaz vem de outra parte. É a irmã de Kim quem, afinal, revela que ele vem de uma família importante, embora faça pose de poeta.

Essa origem fala muito sobre ele. Fala, sobretudo, sobre o que ele desconhece: a si mesmo. Saber quem somos é o fundamento principal. Algo que atravessa o que desconhecemos de nós mesmos —ou o que fazemos questão de desconhecer.

Não por acaso, entre a casa, a paisagem, os pais e a moça sobressai um objeto misterioso —o velho automóvel azul pelo qual o rapaz demonstra grande afeição. Ele parece indicar uma ligação essencial do jovem namorado, ou talvez essa fixação sinalize que algo deve mudar em sua vida.

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Não há indiscrição em dizer que o velho carro azul sofre uma pane no final. O filme nem a natureza parecem nos dar pistas mais diretas sobre o assunto, mas parece significar que algo precisa mudar na vida de Kwon.

É coisa simples: essa pane tem ligação com o fato de não assumir ser quem é, um garoto rico e mimado. Essas pequenas coisas vão surgindo que talvez expliquem as fraquezas de sua poesia. Afinal, a poesia não aceita meio-termo. Isso é o começo: Kwon mostrará melhor quem é quando sob o efeito de bebida, aí veremos se está ou não preparado para ser um bom marido.

Em Hong Sang-soo, o que nos envolve não é a surpresa final ou algo assim, mas a percepção de um suave combate com a vida que, filme após filme, vai acumulando um mundo de peças desiguais, niveladas pelo olhar de Kwon Hae-hyo, o onipresente ator, e pelas aguardentes, que cedo ou tarde embalam o conto que as imagens e conversas nos contam.

O QUE A NATUREZA TE CONTA

- Avaliação Muito bom

- Quando Em cartaz nos cinemas

- Classificação 14 anos

- Elenco Kwon Hae-hyo, Ha Seong-guk e Kang So-yi

- Produção Coreia do Sul, 2025

- Direção Hong Sang-soo

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