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Governo Tarcísio descumpre liminar ao tentar ceder área de pesquisa, segundo juiz

FolhaPress 19/11/2025 09:47

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um juiz do Tribunal de Justiça paulista considerou, em outubro deste ano, que o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) descumpriu uma liminar ao praticar atos administrativos para ceder parte de uma área de pesquisa à Prefeitura de Itapetininga, a 143 km da capital, para a construção de um aeroporto.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A liminar em questão é de outubro de 2022, ainda na gestão Rodrigo Garcia (à época, PSDB). A tutela de urgência impedia o estado de "dar seguimento a quaisquer atos e processos, preparatórios, auxiliares ou específicos, para concessão, permissão ou alienação" em 37 unidades mencionadas no processo, todas no interior paulista.

As áreas que receberam proteção incluem as de florestas e estações experimentais, como as das cidades de Itapeva e de Jaú. Elas são destinadas à pesquisa científica sobre espécies florestais nativas e viveiros de mudas.

Na nova decisão, o juiz Kenichi Koyama, 15ª Vara da Fazenda Pública da Capital, determinou a expedição de uma ordem judicial indicando que, caso houver novo desrespeito à tutela, haverá sanções como aplicação de multa e responsabilização individual dos gestores públicos envolvidos.

A Folha procurou a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) para comentar o caso. A pasta repassou o pedido à Procuradoria-Geral do Estado (PGE), que respondeu que ainda não havia sido intimada da decisão. A Prefeitura de Itapetininga deu a mesma resposta.

SESC PICASSO

Entre as unidades incluídas na ação está a Estação Experimental de Itapetininga, que conta com plantios experimentais e comerciais de Pinus elliottii, uma espécie de pinheiro. Dos 6.706 hectares da estação, cerca de 3.680 hectares são de áreas plantadas e o restante está destinado à área de preservação permanente (APP) e reserva legal, segundo a ficha da estação.

A ação civil pública movida pelo Ministério Público teve início em 2017. Nela, a instituição pediu a reparação integral do estado a danos ambientais causados nessas áreas pelo plantio de espécies de pinheiros e eucaliptos e a exploração madeireira. A Promotoria definiu a postura do estado nas unidades como exploratória e empresarial florestal.

Na decisão do mês passado que reconhecia o descumprimento da tutela de urgência, o juiz refutou o argumento do estado de que a cessão do espaço a um ente público não estaria restrito pela tutela. Ele afirmou que qualquer cessão ou doação de bem público consiste em alienação, o que foi proibido pela liminar de 2022. "Certo é que a interpretação administrativa adotada pelo Estado é inadmissível e revela inequívoco descumprimento da tutela concedida."

Com a decisão mais recente, o estado também ficou proibido de retirar a vegetação nativa e de plantar pinheiro ou eucalipto na área. Além disso, foram intimados a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo, Natália Resende, e o diretor da Fundação Florestal, Rodrigo Levkovicz. A fundação é responsável pelas unidades vinculadas ao processo.

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A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), que acompanha o caso como amicus curiae (amigo da corte), notou que o aeroporto de Itapetininga tomaria parte da estação por meio da propaganda política feita pela própria prefeitura.

Em agosto deste ano, o prefeito do município, Jeferson Rodrigo Brun (Republicanos), publicou um vídeo no Instagram com o secretário de agricultura do estado, Guilherme Piai, para anunciar que o governo doaria o terreno para construção do aeroporto da cidade.

"Depois da autorização do governador Tarcísio, nós começamos um trabalho técnico pelo Itesp [Instituto de Terras do Estado de São Paulo], terminamos o georreferenciamento, o laudo de avaliação, nota técnica, e o trabalho está concluído e a gente vem entregar hoje para o prefeito uma área de quase cem hectares", afirma Piai no vídeo. O secretário, em seguida, agradece à Fundação Florestal e disse que faltava aprovação da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

Ao se manifestar nos autos do processo, o estado de São Paulo afirmou que, a pedido da Prefeitura de Itapetininga, houve a análise de uma área de 69 hectares no interior da estação. Parte da área estudada tem em seu entorno uma APP.

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Documento assinado pelo procurador do estado Pedro Oliveira Mathias, no fim de setembro, argumentou que o município solicitou uma "gleba ínfima", mas que não houve decisão sobre sua transferência, o que demandaria outras etapas, inclusive análise técnica.

Mas o juiz considerou a análise técnica detalhada do terreno com drone e georreferenciamento, feita em julho de 2024 pela Fundação Florestal, bem como a declaração expressa da diretoria da fundação afirmando que a cessão é viável e de interesse público como atos administrativos concretos para destinar parte da estação ao município.

Agravou o caso o plantio de pinheiros que o estado realizou na estação em 2021 e 2024, segundo o juiz, o que indicou a permanência da política de exploração madeireira e plantação de espécies exóticas.

A Estação Experimental de Itapetininga está dentro do bioma cerrado, do qual restam 3% no estado. Apenas 0,1% dessa área está protegida por unidades de conservação de proteção integral, destacou o magistrado citando o Inventário Florestal do Estado de São Paulo.

A advogada Helena Goldman, da APqC, afirmou que não há oposição à construção do aeroporto. "Ninguém tem nada contra fazer ou não fazer o aeroporto, mas tem tantas áreas para se construir um aeroporto. Vai usar uma estação experimental onde tem vegetação nativa? O que nós entendemos é que aquilo é um espaço vocacionado para pesquisa e conservação e que deveria ser preservado."

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