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Fronteira acende alerta com alta de apreensões de cigarro eletrônico

FolhaPress 02/01/2024 09:14

CIUDAD DEL ESTE, PARAGUAI (FOLHAPRESS) - Encontrar cigarros eletrônicos nas ruas de Ciudad del Este, primeira cidade paraguaia após cruzar a ponte da Amizade, que a divide de Foz do Iguaçu (PR), é tão fácil quanto achar um motoboy disposto a passar pela fronteira transportando mercadorias contrabandeadas.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Seja com vendedores ambulantes, com comerciantes disfarçados de pedestres nas proximidades da aduana do Paraguai ou mesmo em grandes lojas instaladas em shoppings, os cigarros eletrônicos estão a uma nota de US$ 5 (R$ 24,60) de distância do consumidor.

As apreensões feitas pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) no Paraná subiram 1.131% neste ano e acenderam um alerta nos serviços de repressão existentes na fronteira paraguaia.

De 9.500 unidades flagradas entre janeiro e outubro de 2022, o total subiu para 117 mil neste ano, no mesmo período, conforme o superintendente da PRF no Paraná, Fernando César Oliveira.

Ele afirma que, até 2021, praticamente não havia registro de apreensões de cigarro eletrônico não só na fronteira, mas em todo o estado.

"A gente acompanha que o número de fumantes no Brasil vem caindo, mas parece que esses atrativos, digamos assim, como o cigarro eletrônico, o narguilé também, são coisas que acabam atraindo os jovens para o tabagismo. E são contrabando por serem proibidos por uma norma da Anvisa", diz o superintendente.

Oliveira relata que o estado lidera as apreensões de cigarros convencionais, com 53% do total apreendido no país pela PRF e que metade disso é flagrada em outra fronteira, na da também paranaense Guaíra com Salto del Guairá (Paraguai).

SESC PICASSO

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) sugeriu, no início de dezembro, manter a proibição da venda de cigarros eletrônicos no país e aprovou por unanimidade a abertura de uma consulta pública de 60 dias sobre a proposta.

Essa discussão foi reaberta pela agência há quatro anos e, desde então, recebeu manifestações de entidades médicas, da indústria e de outros países sobre a questão. O órgão recomendou manter o veto, além da adoção de medidas de fiscalização e campanhas educativas.

O debate sobre os cigarros eletrônicos, porém, passa alheio aos olhos e bolsos de consumidores na cidade paraguaia que faz fronteira com Foz do Iguaçu, do lado brasileiro.

"Você compra um cigarro desses por US$ 5 e vende na balada em São Paulo por R$ 150. Óbvio que isso estimula [o contrabando]. Se a pessoa comprar dez cigarros, fará mais de R$ 1.000 de lucro", conta Cezar Augusto Vianna, chefe da fiscalização da Receita Federal na ponte da Amizade.

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As apreensões ocorrem de várias formas. Um casal de idosos foi flagrado numa Range Rover avaliada em mais de R$ 500 mil com cem cigarros eletrônicos. O produto também já foi achado numa ambulância que cruzou a fronteira.

"A orientação não é só procurar em veículos antigos, de valor mais baixo. A ilegalidade pode estar em qualquer lugar", afirma Vianna.

Veículos utilizados para o transporte de mercadorias contrabandeadas podem também ser apreendidos pelas equipes de repressão, razão pela qual as células criminosas têm optado por carros mais baratos, para o prejuízo ser menor em caso de retenção.

Só neste ano, até setembro, foram apreendidos pela Receita Federal R$ 60,3 milhões em veículos em Foz do Iguaçu.

Na ponte da Amizade, a Folha de S.Paulo acompanhou a apreensão de cartelas de cigarro eletrônico com três mulheres, que alegaram à Receita não saberem que a quantidade caracterizaria contrabando. No caso do produto, a entrada no país é ilegal independentemente da quantidade.

Em Ciudad del Este, as marcas oferecidas são as mais variadas possíveis e as ofertas de compras em grandes quantidades barateiam o custo. Uma embalagem com 30 chegou a ser ofertada por US$ 90 (US$ 3 cada, ou R$ 14,76).

'TENHO DROGAS, ARMAS E VIAGRA'

Assim como o cigarro eletrônico, a Folha de S.Paulo obteve facilidade para encontrar comerciantes de cocaína e armas em Ciudad del Este.

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Um vendedor se aproximou da equipe –que não estava com crachás de identificação no pescoço– e propôs vender um revólver calibre 38 por R$ 1.500. Ao saber que ambos moravam no estado de São Paulo, disse que seria possível entregar a arma na capital paulista ou em qualquer cidade do interior com um frete de R$ 300, totalizando R$ 1.800. "Sem preocupação nenhuma de passar a ponte, vocês ficam tranquilos. Só pagarão quando receberem a arma."

A reportagem agradeceu a oferta e a recusou, no que o vendedor e outro que se aproximou para ouvir a conversa ofereceram cocaína e maconha. Para comprar, contam eles, bastava nos dirigirmos a uma portinha distante cerca de 50 m de onde estávamos, em meio a bancas de camisas de clubes de futebol falsificadas que permitiam o ingresso a um corredor aparentemente interminável.

Com a nova recusa, foi a vez de uma cartela com 30 comprimidos azuis —o vendedor jurava ser Viagra— ser oferecida por R$ 10. A cartela não tinha inscrições sobre origem, validade e, tampouco, conteúdo.

Nos 100 m seguintes, outros quatro ambulantes ofertaram o que chamaram de medicamento para disfunção erétil pelo mesmo valor. "O meu é de verdade", arriscou um deles.

A Folha de S.Paulo procurou a embaixada do Paraguai e questionou o governo do país vizinho sobre eventuais medidas tomadas para enfrentar o contrabando e quais seus efeitos, mas não houve resposta.

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