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'Frankenstein', de Guillermo del Toro, é filme irregular e belo

FolhaPress 22/10/2025 07:52

(FOLHAPRESS) - Um dos pontos de venda do novo "Frankenstein" nas telas é tão batido quanto a história que fundou a ficção científica como a conhecemos, publicada em 1818 por Mary Shelley como resultado de um concurso de pesadelos na orgiástica vila de lorde Byron às margens do lago Genebra, ocorrido dois anos antes.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Como a máquina de divulgação da Netflix não nos deixa esquecer, Guillermo del Toro sempre sonhou em filmar a tragédia do monstro nascido de pedaços humanos. Para qualquer conhecedor da obra do cineasta, talvez o mais criativo de sua geração, isso seria desnecessário.

A inadequação e as maravilhas do mundo que escapam a olhos cerrados permeiam toda a filmografia do mexicano, seja com as desventuras da garotinha em "O Labirinto do Fauno" ou no questionamento de lugar no mundo do diabão Hellboy, em especial no segundo episódio com o protagonista.

Certa vez, Del Toro disse que temia filmar um projeto dos sonhos, dado que o ideal despareceria independentemente do resultado. Ele pode dormir tranquilo: embora irregular, seu "Frankenstein" terá lugar de destaque na infindável galeria de obras em torno do objeto.

Isso se deve principalmente a Jacob Elordi, jovem ator sensação de "Saltburn" e "Euphoria". Trazido às pressas ao projeto, dada a desistência de Andrew Garfield, ele apresenta uma criatura única que, fazendo jus à essência do personagem, é uma amálgama de monstros passados.

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A referência mais óbvia é o lado ingênuo e doce do monstro de Boris Karloff no seminal filme de 1931, quando James Whale criou a imagem definitiva da criação do barão Victor Frankenstein. Elordi nasce uma criança adulta, perdida em passos trôpegos e domínio incerto da linguagem.

Seus movimentos e olhar inseguros capturam, numa das subversões do cânone que Del Toro insere, a mocinha da história, Elizabeth, vivida aqui por Mia Goth. Ao contrário do livro e de vários filmes, ela é uma noiva voluntária e desejosa, que se apaixona pela criatura -que mantém os traços do bonitão Elordi sob quilos de maquiagem.

Aqui, há uma correlação com o outro ícone do horror gótico, o conde Drácula, na forma do recente e brilhante "Nosferatu", curiosamente também projeto de infância do diretor Robert Eggers. Nele, a dama em apuros é quem conjura o vampiro, bem longe do estereótipo de uma vítima inocente.

Elordi também bebe na fonte de Robert De Niro, o motivo para que o "Frankenstein de Mary Shelley" de Kenneth Branagh não tenha sido relegado ao esquecimento. Como aquele monstro, ele rapidamente se torna ciente de que é uma aberração.

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A criatura não é só sede de vingança, moderando o uso da força e buscando no fim apenas perdoar o pai para encontrar a paz. A simbologia cristã não deixa dúvida sobre as associações pretendidas: até a geringonça que dá a vida ao monstro tem a forma de uma cruz.

O criador, por sua vez, vive às turras com a influência de seu pai abusivo, o que expõe o perigosamente frágil elo do filme na figura de Oscar Isaac. Vivendo Victor, o ator escorrega para a caricatura do cientista louco em diversas vezes, sendo efetivo apenas em algumas cenas com Goth.

Del Toro dividiu a trama em um dispensável prólogo no Ártico -como no livro e na obra de Branagh- e depois criou um segmento sentimental demais, no qual Victor conta sua história que quase afunda o filme. Ele é salvo e ganha vida, como que atingido por um raio, quando o monstro resolve dar sua versão em primeira pessoa dos acontecimentos.

As camadas são sobrepostas com fluidez pelo mexicano, que entrega o usual espetáculo visual arrebatador, com sets detalhados e ricos em vermelhos e marrons. Só destoa da qualidade da produção o uso de lobos criados por computador, convincentes como uma nota de R$ 3.

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Para os aficionados, há "easter eggs" (referências) em abundância -a maioria erudita- como na tocante sequência em que Elordi lê "Ozymandias", o definitivo poema de ninguém menos do que o marido de Mary Shelley, Percy, sobre a transitoriedade das relações de poder e da vida. Prometeu, que está de forma óbvia no subtítulo do "Frankenstein" original, também dá as caras.

Sem comprometer demais, o diretor sofre um pouco da doença infantil do projeto pessoal, a excessiva reverência ao material de origem. Não que evite desvios: são muitos e, se Elizabeth e o novo papel para o irmão de Victor na trama funcionam, a introdução do personagem do cada dia mais careteiro Christoph Waltz é um erro.

Mas a sensação deixada por Del Toro é a de temor de aprofundar mais radicalmente as inovações no enredo, o que acaba por realçar suas facetas mais convencionais. Resta ver o que a inquieta Maggie Gyllenhall fará com a história em "A Noiva!", que será lançado em 2026, abordando o tradicional destino que o mexicano poupa a Goth no seu filme.

Ao fim, ele entrega um filme de horror sem horror, a despeito do abundante "body horror", na forma de uma bela declaração de amor a seu real protagonista --o monstro.

FRANKENSTEIN

Avaliação Bom

Quando Nos cinemas a partir de 23/10

Produção Jacob Elordi, Oscar Isaac, Mia Goth, Christoph Waltz, Charles Dance

Direção Guillermo del Toro

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