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Flipei, evento literário periférico, acusa gestão Ricardo Nunes de censura por tentar cancelá-lo

FolhaPress 03/08/2025 00:13

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - A Flipei, Festa Literária Pirata das Editoras Independentes, acusa a Fundação Theatro Municipal de "censura política e ideológica" após ser comunicada de que não poderá mais usar a praça das Artes, na capital paulista, para realizar sua próxima edição, que começará na próxima quarta-feira (6), agora em outros pontos da cidade.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A fundação, vinculada à Secretaria Municipal de Cultura da gestão de Ricardo Nunes (MDB), é a entidade que gere os contratos do complexo cultural que reúne o teatro e o Paço das Artes.

Procurada na noite deste sábado, a Prefeitura de São Paulo não respondeu aos questionamentos da reportagem até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

A Flipei, que não será desmarcada, foi transferida para outros endereços, como o Galpão Elza Soares, o Armazém do Campo e o Sol y Sombra.

Seu diretor, Abraão Mafra de Oliveira Lopes, é quem assina o ofício usado para comunicar o cancelamento à organização social Sustenidos, atual gestora do complexo cultural e com quem a Flipei assinou contrato de cessão onerosa para uso do Paço das Artes para o evento.

SESC PICASSO

Na mensagem, o diretor cita "conteúdo e finalidade de cunho político-ideológico" para justificar a decisão. Bens públicos, segundo ele, não deveriam estar à disposição para atividades do tipo, "especialmente quando estas não estejam diretamente vinculadas à proposta pedagógica, artística ou institucional das escolas geridas".

No ano passado, no entanto, a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro recebeu o título de cidadã paulistana no Theatro Municipal, que também já foi palco de obras de cunho religioso voltadas ao público evangélico.

O cancelamento ocorreu a menos de uma semana do evento e horas depois da transmissão ao vivo da mesa da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, com o historiador israelense Ilan Pappe, que contou ter sido alvo de uma campanha para que não participasse de eventos com falas públicas no Brasil. Ele também participará da Flipei.

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Para os organizadores da Flipei, o cancelamento está associado à presença de um "incômodo com os temas abordados pela festa" e seria uma retaliação por duas participações previstas no evento: de Pappe, crítico do governo Binyamin Netanyahu no conflito de seu país contra o Hamas, e do ativista Thiago Ávila, brasileiro detido por Israel em junho.

Ávila era, junto com Greta Thunberg, um dos tripulantes da Flotilha da Liberdade, que tentava levar ajuda humanitária à população da Faixa de Gaza e denunciar o cerco imposto por forças israelenses ao território palestino.

A Flipei também diz enxergar digitais do Executivo paulistano na derrubada de três emendas parlamentares que dariam apoio estrutural à sua realização, dos vereadores de oposição Nabil Bonduki (PT), Luana Alves (PSOL) e Silvia Ferraro da Bancada Feminista (PSOL).

As emendas garantiriam verba para contratação de palco, som, iluminação e banheiros químicos, entre outras coisas. A saída será contar com o auxílio de outros parceiros.

Em nota à Folha encaminhada por um de seus idealizadores, o editor Cauê Ameni, a Flipei se posiciona como " uma festa pirata, não porque seja clandestina, mas porque se recusa a aceitar o naufrágio cultural promovido pelo mercado e pelo conservadorismo".

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Diz que o contrato para ocupar a Praça das Artes estava assinado havia cinco meses e que é "uma pena e uma vergonha" que a fundação o rasgue agora. Nas palavras da organização, ela teria se curvado ao "lobby sionista" para censurar uma festa literária que reúne mais de 180 editoras, feita de forma gratuita para o público de São Paulo.

Segundo a Flipei, trata-se de um "ataque à cultura, à liberdade de expressão e à circulação de ideias". "É injustificável a direção do Theatro Municipal cancelar um evento cultural reunindo mais de duzentas editoras e livrarias. A Flipei está programada desde março para a Praça das Artes, com o apoio das leis de incentivo estadual e federal e da Sostenidos, organização social que administra o Theatro", afirmou o vereador Nabil Bonduki (PT).

"É inadmissível o poder público, em uma democracia, interferir ou vetar debates sobre livros e literatura. Espero que o prefeito Ricardo Nunes reveja essa posição, que lembra os tempos da ditadura militar."

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