Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 09h14m
Vitória News — Um jornal de verdade
Variedades

Filme 'Copa de 71', sobre futebol feminino, ataca machismo no esporte

FolhaPress 09/04/2024 11:36

FOLHAPRESS - Já ouviu falar na italiana Elena Schiavo? E na mexicana Silvia Zaragoza? Muito provavelmente não. Essas atletas de ponta são pouco lembradas mesmo nos seus países de origem.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

São duas das jogadoras que se sobressaíram na Copa do Mundo de futebol feminino de 1971, no México. O torneio reuniu mais de 100 mil pessoas no Azteca, o maior estádio do país, em pelo menos duas partidas, a abertura e a final. Era gente a perder de vista nas arquibancadas que, por vezes, se assemelhavam ao que a capital mexicana havia presenciado um ano antes, na Copa de futebol masculino de 1970, vencida pelo Brasil.

Aqueles jogos de 1971 receberam muita atenção de TVs, rádios e jornais, especialmente na Europa e no México. Após décadas praticamente banido mundo afora –os médicos diziam que esse esporte era prejudicial para a saúde das mulheres– , o futebol feminino parecia prestes a deslanchar em popularidade.

SESC PICASSO

A história desse torneio, um momento de brilho intenso, mas muito fugaz do futebol praticado por mulheres, é apresentada no documentário inglês "Copa de 71", que está na programação do festival É Tudo Verdade. Trata-se de um filme a respeito do esporte, mas, principalmente, uma produção sobre as armas do machismo para sufocar o sucesso feminino.

No final dos anos 1960, as mulheres começaram a encontrar brechas em países como Inglaterra para jogar futebol em campos muito modestos e em parques. Tinham, porém, que enfrentar situações constrangedoras, para dizer o mínimo.

Como conta a ex-atleta francesa Nicole Mangas, a maioria do público dos jogos no seu país era formado por homens interessados em vê-las usando shorts. Muitos gritavam: "Volta para a cozinha!". Em um programa da TV francesa da época, um comentarista definiu o futebol feminino como "curiosidade cômica e erótica".

CONTADOR - BONUS

Em meio a tanta resistência, a festa com que o México as recebeu foi uma surpresa para grande parte das jogadoras das seis seleções: Argentina, Dinamarca, França, Inglaterra e Itália, além do país-sede —o Brasil não participou porque não era ligado à Federação Internacional de Futebol Feminino.

Além dos jogos, as atletas eram festejadas nas ruas e na imprensa, o que indicava o acerto da aposta feita por essa federação e pelos empresários locais. A oposição da Fifa à realização do evento não parecia um obstáculo —não naquele momento.

A celebração durou pouco, como mostra o filme dirigido por Rachel Ramsay e James Erskine. Passados 53 anos, a disputa continua fora dos registros oficiais das principais entidades do futebol.

Anuncio - Raimundo - Bonus

É um assunto e tanto, e os diretores sabem como lidar com ele. Exploram muito bem o rico acervo de filmagens dos jogos e dos treinos, além das fotografias da época. Nos registros das ruas das capitais europeias e na trilha sonora, eles associam a revolução comportamental dos anos 1960 à rebeldia das garotas que insistiam em jogar bola.

Alternando momentos tensos das partidas, depoimentos bem selecionados das ex-jogadoras e imagens do México de cinco décadas atrás, a montagem tende a manter o interesse dos espectadores ao longo de uma hora e meia, sejam ou não aficionados por futebol.

A crítica exposta em "Copa de 71" é implacável: o futebol feminino poderia ter iniciado uma trajetória bem-sucedida àquela altura, o que não ocorreu. Mas o documentário reconhece uma evolução posterior na popularidade e na profissionalização –não pela sensatez deles, mas pela persistência delas.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas