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Fernanda Montenegro magnetiza a plateia em peça em que lê Beauvoir

FolhaPress 22/06/2024 13:48

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Fernanda Montenegro vira uma página de texto e o gesto, aparentemente simples, se transforma em um ato teatral denso, cheio de significados e emoções no palco ocupado pela atriz de 94 anos no espetáculo em que lê trechos de obras de Simone de Beauvoir (1908-1986).

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A leitura dramática, que celebra os 80 anos de carreira da artista, estreou em São Paulo na quinta-feira (20), no Sesc 14 Bis, após uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro.

"Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir" é um manifesto feminista e amoroso, uma celebração da longevidade e das vidas saborosas das duas mulheres que estão em cena, a escritora e a atriz --a grande companheira do filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980) e a mulher que compreende na pele essa relação persistente, sobrevivente inclusive à existência de outros amores.

Um silêncio cheio de expectativas precede a abertura das cortinas e a visão de Montenegro, vestida de preto e usando óculos, sentada em uma cadeira diante de uma mesa ocupada por um copo de água e pelas páginas com o compilado dos pensamentos de Beauvoir.

A atriz lê, com a conhecida voz capaz de ocupar todos os espaços, e o público entra em contato direto com a trajetória da escritora, repleta de reflexões ainda atuais sobre a condição feminina, na visão libertária e revolucionária da filósofa existencialista.

SESC PICASSO

Os trechos selecionados pela atriz falam, entre outros temas, do direito das mulheres serem ou não mães, da descolonização da existência feminina e da crítica ao homem como centro do mundo, cabendo historicamente à mulher ser a outra.

"Ao ler, no palco, Simone de Beauvoir, nós nos conscientizamos da liberdade que essa mulher impôs e propôs a todas as gerações que a sucederam", diz Fernanda sobre o espetáculo.

Ela se aproximou dos escritos da intelectual aos 20 anos e ressalta que Beauvoir foi uma referência para a sua geração. Em 2007, o ator e diretor Sérgio Britto (1923-2011), companheiro da atriz no Teatro dos Sete, propôs a ela uma montagem sobre a filósofa, que foi concretizada dois anos depois no espetáculo "Viver Sem Tempos Mortos", com encenação de Felipe Hirsch e direção de arte de Daniela Thomas.

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Em março de 2023, Fernanda retomou o trabalho, com acréscimo de outros trechos, ao realizar uma apresentação na Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira 17 desde março de 2022.

A intimidade de Montenegro com o texto chega ao público de forma prazerosa, na medida em que a leitura avança ao longo dos 75 minutos de espetáculo. É um prazer que passa por revelações feitas pela escritora sobre a convivência intelectual com uma amiga, a relação igualitária com Sartre e o sexo com o filósofo e com outros homens e mulheres.

Há também as dores --a amiga de juventude morreu devastada pelos preconceitos burgueses, Beauvoir lidou com incompreensões sobre a sua vida libertária, enfrentou a guerra, a distância de seu amor, experimentou a rejeição sexual por parte de Sartre, após longos anos de relacionamento e, por fim, esteve ao lado do companheiro quando ele vivia seus últimos momentos.

Montenegro não interpreta a filósofa, mas usa sua expressividade e concentração teatral para magnetizar a plateia e transmitir o impacto dos pensamentos de Beauvoir, voltados a uma mulher que não tenha o homem como referência absoluta. Concentração, aliás, que não foi abalada sequer por um celular que tocou na plateia duas vezes na noite da estreia.

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Há uma comoção em torno da temporada da leitura dramática em São Paulo. A procura por ingressos online travou o sistema de vendas do Sesc e as tentativas para conseguir ver a atriz no palco viraram assunto nas redes sociais e nas conversas entre amigos. Os que conseguiram, comemoraram.

Montenegro foi aplaudida longamente antes e depois da estreia -aplausos que são para a encenação do momento, mas também para a longa e reconhecida carreira da veterana no teatro, no cinema e na TV.

Ao público, ela dedica um abraço simbólico e avisa que não pode receber todos que gostariam de se aproximar, devido aos quase 95 anos. Nas palavras da atriz, eles parecem irreais, mas existem e pesam.

"O que me surpreende é a impressão de não ter envelhecido, embora eu esteja instalada na velhice", escreveu Beavouir, em texto que ecoa na voz imortal da atriz brasileira.

FERNANDA MONTENEGRO LÊ SIMONE DE BEAUVOIR

Quando: Até 21/7; de quinta a sábado, às 20h, domingo, às 18h. Ingressos esgotados.

Onde: Sesc 14 Bis

Autoria: Simone de Beauvoir

Elenco: Fernanda Montenegro

Direção: Fernanda Montenegro

Avaliação: *Ótimo*

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