Rotina intensa, pouco tempo livre e dificuldade de brincar sozinha podem afetar comportamento e bem-estar infantil
Com a chegada das férias de julho, muitas crianças encerram o semestre depois de uma rotina intensa, dividida entre escola, esportes, idiomas e outras atividades extracurriculares. O período de recesso deveria ser uma oportunidade para desacelerar, mas também tem revelado um desafio crescente dentro de casa: a dificuldade de lidar com o tempo livre.
Segundo a psicopedagoga Paula Furtado, que atua na área há 30 anos, muitas famílias têm percebido crianças mais ansiosas, imediatistas e dependentes de estímulos externos para se divertir, especialmente os oferecidos pelas telas.
“O comportamento infantil mudou. Há alguns anos, era muito comum encontrar crianças por horas criando histórias, inventando brincadeiras ou explorando seus interesses. Atualmente, muitas ficam desconfortáveis quando não existe um recurso imediato disponível, proporcionado pelo universo on-line. Também percebo mais ansiedade, mais imediatismo e uma dificuldade crescente em lidar com a frustração”, afirma Paula.
Embora estejam cada vez mais conectadas digitalmente, muitas crianças também podem estar mais isoladas emocionalmente. Por isso, a especialista destaca a importância de resgatar interações simples, presenciais e lúdicas na rotina, especialmente durante o período sem aulas.
Com a pausa na rotina escolar, duas preocupações costumam aparecer entre os pais: como preencher o tempo dos filhos e como reduzir a dependência das telas. Sem os horários estruturados da escola, algumas crianças podem ficar mais irritadas, resistir mais aos limites e depender dos adultos para se entreter.
Nesse contexto, o tédio pode ter um papel importante. De acordo com Paula, quando a criança não encontra uma resposta imediata no ambiente, precisa recorrer à própria criatividade para brincar, imaginar e explorar novas possibilidades.
“Desse processo, surgem novas descobertas. O tédio também ensina a esperar, a lidar com decepções e a desenvolver independência emocional”, explica.
A construção da autonomia também passa por pequenas decisões do dia a dia. Permitir que a criança participe da escolha de um passeio, ajude a organizar uma atividade ou assuma responsabilidades compatíveis com a idade pode fortalecer a autoconfiança e o senso de responsabilidade.
“Permitir que assumam pequenas responsabilidades, adequadas à idade, ajuda a fortalecer a autoconfiança, o senso de responsabilidade e a capacidade de lidar com desafios e resolver problemas”, afirma Paula.
A especialista também recomenda valorizar passatempos fora das telas. Jogos de tabuleiro, quebra-cabeças, leitura, desenhos e brincadeiras de faz de conta estimulam a mente, a memória, a criatividade e a percepção. Já atividades com bola, corda, bicicleta e brincadeiras ao ar livre favorecem o movimento e a socialização.
Para Paula, as férias não precisam ser perfeitas nem cheias de grandes programações. O mais importante é que sejam significativas para a criança.
“As melhores memórias da infância raramente surgem dos passeios mais caros ou das programações mais elaboradas. Elas nascem dos momentos de presença, afeto, escuta e convivência”, afirma.
Segundo a psicopedagoga, quando a criança se sente vista, ouvida e acolhida, leva dessas experiências algo mais valioso do que qualquer atividade estruturada: a sensação de pertencimento e conexão.
Com informações da psicopedagoga Paula Furtado.