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Feito só de cartões postais, filme 'Betânia' une gêneros sem jeito

FolhaPress 11/05/2025 11:18

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um filme para mostrar as maravilhas naturais e a riqueza cultural do estado do Maranhão, localizado após a curva em que o Nordeste vai se avizinhar à região Norte. Não é só isso que diz a carta de divulgação de "Betânia" à imprensa, atração do 74º Festival de Berlim. Mas ao ver o filme fica a impressão de que poderia ser esse o único motivo para a sua realização. A maior preocupação, ao menos, parece ser essa.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Ninguém pode negar a beleza e a riqueza cultural do Maranhão, como de outros estados brasileiros, e não há nada que impeça que essas coisas sejam mostradas e mesmo que um filme se apoie nesses elementos. As paisagens são belas, às vezes belíssimas, e bem captadas. São facilitadas, é certo, pela paisagem natural e pela luz deslumbrante do Nordeste, um trunfo que não se pode ignorar.

Os Lençóis Maranhenses fazem o tipo de paisagem que deveria ser explorada por cineastas brasileiros do mesmo modo que John Ford se apropriou do Monument Valley em alguns de seus faroestes. A paisagem é uma personagem e, como tal, influencia outros personagens.

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O diretor Marcelo Botta, com a ajuda de um elenco todo maranhense, bem que tenta extrair um drama forte nessa locação impressionante. Mas um filme não é feito só de cartões postais, por mais belos que sejam.

Além disso, ser selecionado para festivais, por maiores que sejam, não significa que o filme esteja livre de ser criticado com isenção. Muitos filmes bons passam ao largo dos principais festivais e muitos ruins são selecionados. O critério de qualidade artística, subjetividades diversas à parte, não é o único definidor dessas escolhas. Por vezes, aliás, é um critério ignorado.

Na trama, após perder o marido, a parteira Betânia, vivida por Diana Mattos, se muda para o vilarejo Betânia, no coração dos Lençóis Maranhenses, como diz a placa, onde reencontra familiares.

É ali que ela vai tentar se reconectar com a alegria de viver, perdida enquanto trazia novas vidas ao mundo, e se reconecta também com a natureza acolhedora do local, vulnerável às mudanças de estação, ora cheia de lagoas, ora dominada pelas imponentes dunas.

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Seus familiares vivem em função dos turistas, que mesmo em período de seca insistem em querer conhecer as famosas lagoas entre as dunas. Tonhão, sobrinho de Betânia, é o principal guia para os passeios.

Num deles, turistas franceses insistem em sair da rota para um banho numa lagoa que avistaram a uma certa distância --"as distâncias aqui enganam", alertou o guia. Não deu outra: eles se afastaram demais do planejado, não encontraram a rota de volta e mobilizaram uma equipe de resgate, ou seja, dos familiares e amigos de Tonhão.

A recompensa para os resgatados é um banquete de comida maranhense, preparado por Betânia para gáudio dos franceses. Esse momento é bom, mas é quase um curta-metragem inserido no longa.

"Betânia" mistura gêneros sem muito jeito. Parece um filme empenhado em conversar com o grande público, mas sem ideia de como fazer o diálogo. A montagem é bem equivocada em alguns trechos; a direção, por vezes, parece de vídeo publicitário e as atuações são bem desiguais.

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É bem cansativa, por exemplo, a estratégia de interromper um momento de calmaria com uma explosão, como a que acontece quando Betânia repreende seu neto pela quantidade de sal que ele colocava na comida. É uma maneira um pouco canhestra de mostrar a dor da perda.

O filme tem vários momentos que denotam pouca habilidade para desenvolver uma narrativa convencional e incapacidade de promover uma ruptura convincente, como o cinema brasileiro sempre soube fazer. Fica num meio-termo desajeitado.

Um drama como o de Betânia necessita de um elenco afiado e de alguma precisão no posicionamento de câmera e nos cortes. Infelizmente, "Betânia" anda na corda bamba nesse sentido, sempre desequilibrado, prestes a sucumbir.

Betânia

Onde: Nos cinemas

Classificação: 12 anos

Elenco: Diana Mattos, Nádia D'Cássia, Caçula Rodrigues

Produção: Brasil, 2024

Direção: Marcelo Botta

Avaliação: *Regular*

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