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Feira do Livro homenageia Porto Alegre, e Paulo Scott pede renúncia de prefeito

FolhaPress 02/07/2024 12:39

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Feira do Livro em São Paulo recebeu escritores gaúchos na noite fria desta segunda-feira para homenagear Porto Alegre, origem da feira literária que foi uma de suas maiores inspirações.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Em conversa mediada pela jornalista Tatiana Vasconcellos, seis autores que moraram no Rio Grande do Sul se reuniram para lembrar a "guerra climática" que o estado vive após as chuvas que deixaram tanta morte e destruição.

Mar Becker, Jeferson Tenório, Clara Averbuck, Veronica Stigger, Morgana Kretzmann e Paulo Scott são diversos em personalidade e estilo literário, mas se juntaram nessa mesa pelo pertencimento territorial.

"Porto Alegre está em meus livros, está na minha memória e também está no que eu me tornei", disse Kretzmann, autora de "Água Turva". O livro com título algo premonitório foi lançado antes das enchentes de maio.

Becker, que encantou o público com seu sotaque do interior sulista, falou do incômodo em rever seus escritos sobre água —"A Mulher Submersa" é o título de seu primeiro livro. "Muitos colegas escreviam sobre a chuva de uma forma tão romântica, e essa chuva agora é diferente, eu sinto a chuva de forma diferente", contou a autora nascida em Passo Fundo.

Embora não vivam mais no estado, os autores se abalaram com a tragédia por preocupação com parentes e amigos, além de um senso de pertencimento. "Foi um desespero que eu nunca tinha experimentado, nunca tinham mexido na minha raiz dessa forma", afirmou Averbuck.

SESC PICASSO

A autora, que deixou o estado há 22 anos, contou que se formou escritora devido às suas visitas à Feira do Livro de Porto Alegre, que inspirou o festival do Pacaembu.

Vasconcellos trouxe dados da pesquisa Datafolha para ilustrar a desigualdade escancarada com a tragédia: entre os que tiveram prejuízos materiais com as enchentes, 52% são pretos e 26% são brancos. E 47% das famílias que perderam casas, móveis, eletrodomésticos ou o próprio sustento ganham até dois salários mínimos.

"A grande parte da população afetada é o pessoal da periferia", afirmou Tenório. "Isso diz muito sobre racismo ambiental." Kretzmann trouxe dados para demonstrar a diversidade dentro do estado, que tem o maior número de terreiros e praticantes de religiões afro-brasileiras no Brasil.

"O Rio Grande do Sul é um estado do candomblé, da umbanda, do batuque —tem muitas pessoas, muitas comunidades que são resistência, e negar isso é ajudar no apagamento desses grupos", apontou a autora nascida em Tenente Portela. "A resistência gaúcha já viveu e ainda vive, e um exemplo disso somos todos nós, que estamos aqui hoje."

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Ao ser questionada sobre como as enchentes afetaram sua escrita, Averbuck afirmou que teve vontade de escrever um manifesto, e foi isso que Scott fez. Ao receber a palavra, o escritor porto-alegrense se levantou para ler uma carta aberta ao prefeito Sebastião Melo.

"O senhor não teve competência para gerir a manutenção dos equipamentos que poderiam evitar os trágicos impactos do desastre climático que causou estragos imensos a essa cidade e, por isso, deve ser responsabilizado civil e criminalmente", leu o autor para a plateia que o escutava atentamente.

"Pedimos que renuncie, junto com seu vice-prefeito, e deixe a população de Porto Alegre voltar a sonhar com uma cidade mais humana, menos truculenta, menos insensível, mais segura."

Ele também leu seu poema "Exu Mário Quintana": "Antes desse medo que hoje sinto de ti, cidade sem harmonia, perdão pelo ódio em teu verbo". O poema foi completado por Stigger, que fez referência a uma canção de Kleiton e Kledir: "Quando eu ando assim meio down / Vou pra Porto e, bah, tri legal".

Os autores evidenciaram ao longo de todo o bate-papo que as enchentes se tornaram uma tragédia climática devido à má gestão pública.

"Foi muita inoperância por parte tanto do prefeito, Sebastião Melo, quanto do governador, que também tem nome, se chama Eduardo Leite", falou Stigger, a primeira da mesa a apontar responsáveis. "Só para dar um exemplo, de 26 bombas que deveriam estar funcionando [para remover água acumulada], só quatro estavam."

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Diante de tantas perdas enfrentadas pelos gaúchos, os escritores chamaram a atenção para objetos aparentemente banais. Becker lembrou as pessoas que, após perderem a casa, se preocupavam em recuperar suas fotos.

"As pessoas perderam o que a gente poderia chamar de uma materialidade da memória", disse Stigger, que vê o escritor como um "guardião da memória" e contou da sua vontade de escrever as memórias perdidas dessas pessoas, recuperando seus relatos.

"A recuperação das fotos é muito simbólica, porque mostra o que de fato importa na nossa vida —as casas se foram, a cidade foi varrida, mas vejam o que preocupa as pessoas", disse Tenório.

Vasconcellos encerrou a mesa propondo à plateia um exercício. "Sugiro que todos aqui passem um minuto pensando o que perderiam se sua casa ficasse, de repente, coberta de água."

A Feira do Livro, em parceria com a comunidade Redelê, está fazendo uma coleta de doações de livros para bibliotecas escolares e comunitárias do Rio Grande do Sul que foram impactadas pelas enchentes. São aceitos livros de literatura, literatura infantil e juvenil, quadrinhos e gibis. O ponto de coleta é o expositor 10.

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