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Exposição marca os cem anos de Waldemar Cordeiro, pioneiro da arte digital

FolhaPress 22/09/2025 10:29

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um amontoado de códigos e caracteres segue um plano branco de modo quase desordenado, não fosse a imagem que surge conforme o corpo do observador se distancia do quadro. No conjunto de elementos gráficos rudimentares, irrompe um rosto em aparente desespero, contorcido e em prantos, de uma jovem vietnamita.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Em "A Mulher que Não é a BB", obra de 1971 de Waldemar Cordeiro, o artista faz uso dos primeiros computadores existentes no Brasil para discutir a cultura de massa e o lugar da arte em seu tempo, tanto na forma como em seu conteúdo.

Essa obra, que fazia referência à Guerra do Vietnã e ao ícone pop Brigitte Bardot, integra o conjunto exposto na galeria Luciana Brito, na zona oeste de São Paulo. Trata-se da única mostra brasileira dedicada ao centenário de nascimento do artista ítalo-brasileiro, pioneiro da arte concreta e criador da chamada arteônica —termo que cunhou ao juntar "arte" e "eletrônica".

Além disso, a exposição marca a estreia do neto, Thomas Cordeiro, como curador da coleção familiar. Segundo ele, a fase de "computer art" do avô é a que culmina toda a sua pesquisa. Por isso, para Thomas, era fundamental dar visibilidade a esse momento, breve devido à morte do artista em 1973, mas de grande importância.

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Entre 1968 e 1973, Waldemar Cordeiro acessou os raríssimos computadores do país —então restritos ao Bradesco, à Universidade de São Paulo e à Unicamp. Com o físico Giorgio Moscati, transformou imagens em matrizes de pontos e linhas impressas em papel contínuo, cada uma demandando horas de processamento.

"Parte do trabalho de digitalização era feito manualmente, quadro a quadro, um processo exaustivo. É impressionante pensar na sofisticação dessas obras, feitas com recursos tão limitados", diz Thomas.

Quanto à passagem da arte concreta à "computer art", lembram Analivia e Thomas Cordeiro, ela não significou uma ruptura, mas um desdobramento. Para o artista, a pesquisa geométrica do concretismo já trazia embutida uma lógica estrutural que encontrou nos computadores um novo meio de se expressar.

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De acordo com Analivia, seu pai nunca deixou de ser concreto, apenas levou a busca para dentro da máquina. "O que muda é o suporte, mas a lógica é a mesma", afirma.

O interesse de Cordeiro pela tecnologia, contudo, não o afastava de suas preocupações sociais. A obra "A Mulher que Não É BB" exemplifica isso, ao contrapor um ícone da cultura pop às imagens que circulavam sobre a guerra do Vietnã.

Além disso, Analivia lembra que, ao escrever o Manifesto Arteônico em 1971, o artista já alertava para os impactos da urbanização desenfreada em São Paulo, outro ponto de inquietação em sua trajetória.

A relação com o mercado também revela o espírito radical do artista. Segundo Analivia, Cordeiro em vida nunca vendeu um trabalho —por convicção política e porque ganhava a vida como urbanista, não como artista.

Chegou a planejar uma edição popular em serigrafia da série "Derivadas", produzindo cerca de 300 exemplares de cada obra, com a intenção de assiná-los, embalá-los e distribuí-los em bancas, para que qualquer pessoa pudesse levar para casa uma obra de arte como quem leva um jornal. Morreu antes de concretizar o projeto, e os poucos exemplares existentes assinados se tornaram peças raras de museu.

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O caráter visionário de sua produção, porém, não passou despercebido. Desde os anos 1960, Cordeiro integrou a cena internacional de arte e tecnologia, participando de exposições no continente europeu e nos Estados Unidos, além de dialogar em vida com nomes como o escritor Umberto Eco, o teórico Giulio Carlo Argan e o cineasta Federico Fellini.

Para Analivia, sua atualidade reside justamente na capacidade de antecipar questões que só hoje ganham centralidade. "Ele previu a digitalização da sociedade, a internet, a democratização do acesso à cultura e até a aproximação entre arte e neurologia. Olhar suas obras é perceber que ele enxergou o futuro."

CEM ANOS DE WALDEMAR CORDEIRO

- Quando Ter. a sex., das 10 às 19h; sáb. das 11 às 17h. Até 4 de outubro

- Onde Luciana Brito Galeria - av. Nove de Julho, 5.162, São Paulo

- Preço Grátis

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