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Estruturas cerebrais e sinais de psicopatia não têm relação causal direta

FolhaPress 16/07/2025 10:24

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um estudo europeu relacionou o tamanho de estruturas cerebrais com sinais de psicopatia. Nele, os pesquisadores concluíram que volumes menores em regiões ligadas ao lobo frontal e estruturas subcorticais poderiam estar envolvidos em comportamento disfuncionais em pessoas com características de transtorno de personalidade antissocial (TPAS), conhecido informalmente como psicopatia.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Intitulado "Associations of brain structure with psychopathy" (Associações da estrutura cerebral com psicopatia, em português) e publicado pelo European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, o estudo utilizou a escala de classificação "Psychopathy Checklist" (PCL-R), que é separada em dois fatores.

O primeiro diz respeito a questões interpessoais e afetivas, ao passo que o segundo avalia comportamento impulsivo e antissocial. Os resultados mostram que apenas o segundo fator teve relações com o volume de áreas corticais e subcorticais.

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Um dos autores do estudo, o neurocientista Peter Pieperhoff, explica que "estudos comportamentais mostram que alguns dos traços do fator um, como comportamento instrumental e manipulador, não são necessariamente expressões de disfunções. Portanto, pontuações elevadas dessas características podem não ser necessariamente causadas por déficits estruturais".

Para chegar à associação, a pesquisa comparou um grupo de 39 pessoas com pontuação acima de 20 em uma escala de psicopatia e outros três grupos controle. No entanto, o estudo admite que uma limitação importante foi a falta de controle de fatores sociais, como uso de substâncias químicas. Os únicos fatores de inclusão foram sexo, idade, lateralidade (pessoas destras) e língua falada.

"Estudos anteriores mostraram que traços psicopáticos são, em certo grau, hereditários. Mas, tanto o trauma infantil, outras lesões cerebrais traumáticas e o uso de substâncias podem obviamente ter um forte impacto no comportamento ou condição psíquica em geral, e são relevantes especificamente neste grupo, mas é difícil diferenciar cada influência individual", afirma Pieperhoff.

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A psiquiatra Juliana Belo Diniz, especialista em pesquisa clínica pela Universidade Harvard e pesquisadora no Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (IPq-HC-USP), aponta o não controle do nível educacional e socioeconômico como uma falha grave.

"A associação [entre estrutura cerebral e psicopatia] é verdadeira, só que ela tem um furo que é, não necessariamente, quem tem associação estrutural é psicopata, e tem psicopata que não tem nada disso. Então não é uma coisa de causa e efeito direta", afirma.

Para ela, apesar da associação se repetir em diversos estudos e ser real, ela não explica o fenômeno como um todo. Principalmente pelo desenvolvimento cerebral em condições adversas, como por exemplo de privação de diversas ordens, se difere do desenvolvimento cerebral em outras condições.

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Diniz cita que, a correlação entre estruturas cerebrais e comportamentos de personalidade antissocial não são uma novidade. Estudos sobre o volume pequeno da amígdala —estrutura cerebral responsável por processar emoções como o medo e a agressão— e a psicopatia foram pioneiros por anos. Mas a tese acabou sendo esquecida pela sua precariedade explicativa.

Ela também cita Adrian Raine, psicólogo britânico autor do livro "A Anatomia da Violência" (Editora Artmed), que advoga contra o punitivismo, partindo do pressuposto que a relação entre alterações no cérebro e comportamentos psicopatas, bastante representadas na população prisional.

Apesar de Pieperhoff afirmar que o estudo não visa tirar a responsabilidade de ninguém pelos seus próprios comportamentos, algumas interpretações podem levar a essa afirmação e discussão da culpabilização do indivíduo e o livre arbítrio.

"Existe esse discurso não punitivista, mas toda vez que a gente faz uma associação como se existisse um determinismo biológico, a gente corre muito risco de cair numa ideia de eugenia. Isso é sempre perigoso", complementa Diniz.

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