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Estratégias de marketing mascaram baixa qualidade nutricional de alimentos para crianças

FolhaPress 29/11/2024 14:04

RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Estratégias promocionais como QR Codes para jogos ou uso de personagens licenciados e mascotes em embalagens de alimentos estão mascarando a baixa qualidade nutricional de produtos destinados ao público infantil no Brasil.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Um estudo conduzido por pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostrou que mais da metade (54,5%) dos produtos brasileiros destinados a crianças se enquadravam no grupo com os maiores teores de energia por açúcar e gordura. Segundo o levantamento, entre os mais nocivos, havia duas ou mais estratégias de marketing direcionadas aos pequenos.

Os alimentos avaliados também se mostraram pobres em micronutrientes, como vitaminas e minerais, e 87% podiam ser classificados como ultraprocessados e de "qualidade nutricional insatisfatória."

Segundo Veridiana Vera de Rosso, professora do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/ Unifesp) e líder da pesquisa, preocupa a elevada concentração de nutrientes críticos, pois açúcares, gorduras saturada e sódio deveriam ser limitados.

"A gente observa também uma presença muito baixa de proteínas, de fibras, que são considerados nutrientes positivos e são extremamente necessários para o desenvolvimento infantil", afirma Rosso.

O trabalho foi publicado esta semana na revista Food Research International e avaliou rótulos de 8.942 produtos em supermercados brasileiros entre fevereiro de 2021 e setembro de 2023. O foco da análise foram os 959 itens (10,7% da amostra) identificados como destinados ao público infantil.

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A pesquisa destaca que personagens e mascotes nos rótulos selecionados estiveram presentes em 76% dos produtos avaliados. A estratégia, diz o estudo, é reconhecida "por influenciar significativamente as escolhas alimentares das crianças."

Em nota, a Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos) diz que o "setor defende a liberdade de comunicação comercial responsável e ética e repudia qualquer publicidade enganosa ou abusiva."

Declarou que "a publicidade dos produtos, quando existente, não tem relação com o perfil nutricional" e que o "direito de se fazer publicidade está garantido pela legislação, salvo "apenas a publicidade ‘que se aproveita da deficiência de julgamento e experiência da criança"’, a ser analisado caso a caso."

O artigo demonstrou também que o uso de adoçantes foi pouco frequente. Já os corantes estavam em quase metade dos produtos. Vermelho e azul foram os mais presentes e os artificiais predominaram na amostra. O estudo destaca que há necessidade de mais estudos sobre os efeitos a longo prazo do uso para crianças.

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Os pesquisadores reforçaram ainda a importância da formulação de políticas públicas e a regulação da indústria alimentícia, ressaltando a necessidade de diretrizes que limitem o marketing de alimentos não saudáveis para crianças.

A metodologia incluiu classificações internacionais e aceitas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), avaliando os alimentos quanto ao grau de processamento e o perfil nutricional em parâmetros como calorias, gorduras, açúcares e sódio.

Segundo Rosso, na hora da compra, os pais precisam estar atentos e evitar comprar só pelo marketing da embalagem. A docente diz que nem todos os itens encaixados na classificação de ultraprocessados são necessariamente pobres nutricionalmente. É o caso dos pães multigrão ou integrais e os probióticos, como iogurtes.

No entanto, bolachas, balas, snacks, sorvetes e chocolates dessa categoria tem baixíssima qualidade nutricional, na grande maioria das vezes. Rosso explica que os selos de "alto conteúdo" de açúcar, gordura e/ou sódio adotados pela legislação brasileira são de extrema importância por serem fáceis de identificar na embalagem, contribuindo, de fato, para uma boa decisão do consumidor.

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"Alimentos com selos devem ser evitados, reduzidos e até realmente excluídos da nossa dieta, porque esse tipo de produto não vai trazer benefício nenhum sobre o aspecto nutricional, pelo contrário".

Para a pesquisadora, os dados do estudo reforçam que produtos de baixa qualidade nutricional, aqueles que possuem os selos de alto conteúdo, deveriam ter estratégias de marketing infantil proibidas, como foi feito no Chile, e regulamentação de embalagens.

"Não existe nada relacionado à questão dos rótulos no Brasil. E isso nos preocupa demais, pode impactar a saúde das crianças devido ao elevado consumo de açúcar, sódio e gordura saturada", diz Rosso.

O Ministério da Saúde e a Opas (Organização Panamericana da Saúde) apontam que 12,9% das crianças brasileiras entre 5 e 9 anos de idade e 7% dos adolescentes de 12 a 17 anos têm obesidade. A OMS (Organização Mundial de Saúde) considera a doença crônica um dos mais graves problemas da atualidade devido aos custos econômicos e sociais que acarreta com suas comorbidades associadas e aumento do risco de morte.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde

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