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'Estômago 2' reinventa cult nacional em meio a alta de continuações brasileiras

FolhaPress 30/08/2024 15:36

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Já faz quase 20 anos que o cozinheiro Raimundo Nonato conquistou o público e a crítica com seus pratos inventivos dentro da cadeia. O filme "Estômago", de Marcos Jorge, que ultrapassou a boa recepção de uma comédia para se tornar uma espécie de cult nacional, ganhou uma continuação.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

"Estômago 2: O Poderoso Chef" venceu quatro kikitos no Festival de Gramado, onde teve a sua estreia, e o prêmio do júri popular. Ainda assim, dividiu a crítica, que em parte se empolgou com a inventividade de inserir a máfia italiana no roteiro e, por outro, não aprovou o tempo inferior de tela dado a Raimundo, vivido por João Miguel, que agora divide o protagonismo do filme com Dom Caroglio, mafioso italiano interpretado por Nicola Siri que chega a prisão.

Similar ao primeiro filme, a continuação se divide entre duas linhas do tempo. O presente, em que o clima na prisão azeda com a chegada do mafioso, e o passado de Dom Caroglio, todo filmado na Itália, que revela como o criminoso construiu sua reputação de mal-encarado até parar numa cadeia brasileira.

Raimundo, apelidado de Alecrim pelos companheiros prisioneiros devido ao seu talento culinário, cozinha para o diretor da cadeia e para o Etecétera, vivido por Paulo Miklos, agora um dos manda-chuvas do xadrez. Seus pratos elaborados continuam ganhando câmeras lentas de espaguetes de dar água na boca pulando sobre frigideiras, em oposição à decadência da prisão.

SESC PICASSO

Alecrim será o estopim de um conflito entre Etecétera e Dom Caroglio, que disputam o cozinheiro. Assim como o seu protagonista, Marcos Jorge, o diretor, diz não gostar de servir comida requentada. Para a continuação de "Estômago", ele queria "apresentar um prato diferente".

É dai que veio a ideia de tornar o passado de Dom Caroglio e sua aproximação do crime como uma das linhas narrativas principais do filme. "Os jovens mafiosos de hoje na Itália assistem aos filmes do [Francis Ford] Coppola, Martin Scorsese e à séries como 'Gomorra' para entender como devem se portar. Esses personagens se constroem também no palco da vida", diz Jorge.

CONTADOR - BONUS

Assim como Alecrim no primeiro filme, Dom Caroglio também está em busca de sua identidade —ou melhor, de dar certo na vida. Em crise no seu país de origem e filho da dona de um restaurante brasileiro, ele se apaixona pela filha do chefão da máfia local, que se apresenta sentado atrás de uma mesa luxuosa, com voz rouca e bem-vestido, em referência satírica à Marlon Brando em "O Poderoso Chefão".

"Eu reivindico para o cinema brasileiro um direito que às vezes não nos damos, que é o de não ser realista, mas fantasioso. Surreal, como o cinema italiano é. Por que o Yorgos Lanthimos pode fazer um filme totalmente surrealista e a gente aceita porque é falado em inglês?", questiona o diretor, referindo-se à produção de tom bizarro do grego, "Tipos de Gentileza".

O filme também é de ação, com cenas de violência, rebelião e até explosões que não ficam devendo a produções estrangeiras. Resultado do aporte italiano no longa, uma coprodução entre Brasil e Itália.

"É uma coprodução de verdade, e não como a maioria de nossas coproduções, que chamo de 'esmolafound', quando os europeus colocam € 50 mil no filme e levam os direitos europeus. Queríamos um comprometimento da Europa", diz Jorge.

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"Estômago 2" estreia no momento de uma espécie de nostalgia cinematográfica, em que clássicos nacionais ganham continuações e reexibições nos cinemas. Exemplos são o anúncio de "Auto da Compadecida 2", de Guel Arraes e Flávia Lacerda e a série de "Cidade de Deus", dirigida por Aly Muritiba.

"A série de 'Cidade de Deus' é luxuosa também. Estamos conseguindo fazer um cinema da alta qualidade técnica, por que não usar nossas franquias?", diz Jorge. Segundo ele, o primeiro "Estômago", quando lançado entre 2007 e 2008, não foi um sucesso imediato.

"Tínhamos 13 cópias e pouquíssima grana, mas o filme ficou seis meses em cartaz em alguns cinemas, porque o público embarcou na história", lembra. O longa foi premiado no Festival do Rio daquele ano, e Jorge venceu o prêmio Grande Otelo de melhor direção, contra Walter Salles, que apresentava "Linha de Passe", e Fernando Meirelles, com "Ensaio Sobre a Cegueira".

"Estômago", porém, se tornou cultuado pelas novas gerações depois que entrou na plataforma de streaming da Netflix. "É um indício do amadurecimento do cinema brasileiro, que começa a fazer sequências de seus clássicos", diz Jorge. "Existem sucessos imediatos, como 'Tropa de Elite', mas outros filmes demoram para amadurecer."

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