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Estados avançam na adoção de orçamentos sensíveis a gênero e raça contra desigualdades

FolhaPress 30/04/2024 08:13

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Estados e municípios, pressionados por entidades civis, organizações sociais e pela própria legislação, começaram a adotar orçamentos sensíveis a gênero e raça na tentativa de melhorar índices socioeconômicos da população e para avaliar se recursos aplicados em políticas públicas para esses grupos têm reduzido desigualdades.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Esse modelo não traz apenas investimentos em ações específicas para minorias, mas também um olhar sobre como políticas públicas amplas, de educação a segurança, impactam grupos mais vulneráveis de maneiras distintas, de acordo com Pedro Marin, coordenador de planejamento e orçamento público da Fundação Tide Setubal.

"Vamos olhar para o conjunto das políticas públicas, ver de que forma elas estão incorporando o combate às desigualdades de gênero e raça, e trazer isso para dentro do orçamento", diz.

Acre e Rio de Janeiro já aprovaram leis para construir um orçamento sensível ao gênero, e ambos estão produzindo um relatório para avaliar as políticas públicas para esse grupo. Na lei orçamentária deste ano, o estado do Rio destinou R$ 155 milhões ao Orçamento Mulher.

Um dos estados mais avançados no tema é o Ceará, segundo Pedro Marin. O PPA (plano plurianual) cearense de 2024-2027 conta com temas transversais e passará a levantar dados sobre como o estado tem atendido mulheres, pessoas negras e população LGBTQIA+, entre outros.

Mulheres e pessoas negras são as que mais utilizam serviços públicos como saúde e educação. A população preta e parda compõe a maior parte, quase 60%, dos alunos matriculados em escolas públicas, de acordo com dados do Censo Escolar de 2023.

Além disso, mulheres e negros são maioria (70% e 61%, respectivamente) dos usuários do SUS, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde, cuja última edição foi lançada em 2019.

SESC PICASSO

No Ceará, é a primeira vez que um plano plurianual vai avaliar indicadores sobre a população mais vulnerável. O governo vai destinar os recursos a partir dos problemas identificados, para construir políticas orientadas a dados e evidências.

Antes, o estado não tinha indicadores específicos para avaliar como as políticas estavam sendo entregues para a população mais vulnerável. No geral, as informações eram tiradas de relatórios nacionais, que não refletem por completo a realidade cearense.

Um exemplo prático dos efeitos da nova política será na área de combate à violência de gênero, de acordo com o PPA. O governo vai implantar um observatório para mapear agressões contra mulheres no estado, com informações sobre regiões onde há maior número de casos.

Com os dados, a gestão poderá direcionar para aquele local mais unidades móveis de atendimento à mulheres que sofreram violência e mais Casas da Mulher Cearense, que oferecem assistência psicossocial e jurídica às vítimas.

"O que interessa mesmo é a ação para reduzir essa violência independente da casa, porque a gente não vai poder construir um imóvel em cada unidade do estado. Mas o indicador de violência contra a mulher em determinado local vai chamar mais investimento para aquela unidade", afirma Sandra Machado, secretária do Planejamento e Gestão do estado.

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Ainda no combate à violência, o Ceará vai monitorar crimes letais e intencionais contra a população negra, com a implementação do observatório pela equidade racial. Entre as ações, o plano plurianual deste triênio já prevê a capacitação de agentes de segurança sobre a violência contra pessoas vulneráveis, incluindo pretos e pardos.

No Acre, as mudanças partiram de dados de violência contra a mulher. O estado é um dos que têm maior índice de feminicídios, com taxa de 2,4 mortes por 100 mil habitantes, de acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A lei de orçamento sensível ao gênero foi aprovada no Acre no ano passado. Agora, a gestão está desenvolvendo um relatório sobre, a partir desses dados, para avaliar quais áreas precisam de mais investimento, com apoio da Fundação Tide Setubal.

"Das políticas públicas hoje, vamos enxergar aquilo que está sendo efetivamente entregue à população, direcionado a reduzir lacunas de gênero, e aquilo que não está", afirma Denyscley Bandeira, gestor de políticas públicas no estado.

Segundo Bandeira, uma possibilidade seria construir novas creches, por exemplo, para permitir que mais mulheres tenham acesso à educação e ao mercado de trabalho.

O estado, que tem 78% da população preta, parda ou indígena, segundo o Censo 2022, também pretende expandir a política para demarcadores de raça, de acordo com o gestor. Isso deve ocorrer após concluírem a implementação do orçamento de gênero.

No governo federal, a discussão sobre orçamento sensível a gênero está em pauta desde 2004, com a formação da primeira secretaria especial de políticas para a mulheres, no primeiro mandato de Lula, segundo Tathiane Piscitelli, professora de direito da FGV.

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O tema avançou quando o Congresso aprovou a obrigatoriedade de elaboração do Orçamento Mulher na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2022. No entanto, o relatório referente àquele ano, publicado pelo Ministério do Planejamento no início de 2023, revelou a falta de gastos específicos para reduzir a desigualdade de gênero.

Assim como gênero, houve inclusão de raça em planos plurianuais, mas sem acompanhamento do orçamento.

De acordo com Piscitelli, o novo PPA do governo federal traz uma estrutura mais adequada para identificar despesas com políticas voltadas para mulheres e pessoas negras.

"O plano tenta estabelecer marcadores específicos que vão deixar mais transparente o estado da política pública. Hoje, há um cenário bastante favorável para que seja implementada efetivamente uma agenda transversal."

Atuando para que gestões públicas insiram a alocação de recursos voltada a grupos mais vulneráveis, a Fundação Tide Setubal é uma das realizadoras do prêmio Orçamento Público, Garantia de Direitos e Combate às Desigualdades. O concurso, que neste ano teve a terceira edição, dá até R$ 20 mil para autores de manuscritos acadêmicos inéditos relacionados a temas como orçamento público, sistema tributário, entre outros.

Na primeira edição, foram oito artigos selecionados, sobre temas como a redução do orçamento ambiental para a Amazônia, a atuação do Ministério Público do Trabalho na erradicação do trabalho infantil e uma análise da dinâmica orçamentária do Fundo de Amparo ao Trabalhador.

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