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Enchente arranca ponte e ameaça sobrevivência de município no RS

FolhaPress 04/06/2024 09:00

TRAVESSEIRO, RS (FOLHAPRESS) - "Tudo era muito prático. Em dez ou 15 minutos, a gente atravessava de carro de um lado para outro. Agora, está totalmente diferente", lamenta a professora Kelly Legramanti, 31, grávida de oito meses.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Ela se refere aos impactos da enchente do rio Forqueta, que, no início de maio, arrancou um trecho da ponte entre os municípios gaúchos de Travesseiro e Marques de Souza, no Vale do Taquari. Há um clarão entre as duas cabeceiras.

Com a destruição da estrutura, Kelly e outros moradores têm de usar uma passarela flutuante para cruzar o Forqueta a pé.

Instalada pelo Exército, a travessia provisória tem cerca de cem metros e só pode ser percorrida com o uso de coletes salva-vidas. Os equipamentos são distribuídos pelos militares que ficam nas duas margens do rio diariamente.

"Teve um dia em que atravessamos de manhã, mas, como teve vento, a passadeira foi retirada. Aí, tivemos de atravessar de bote à tarde", afirma a professora, que mora em Marques de Souza e trabalha em um turno em Travesseiro. "Ficou tudo bem mais complicado, bem mais difícil."

O relato exemplifica o caos logístico que afeta a população local após a enchente, principalmente do lado de Travesseiro (a cerca de 180 km de Porto Alegre).

Sem a ponte, a cidade perdeu a conexão rápida que mantinha com a BR-386. A estrada é chamada pelos gaúchos de rodovia da produção, devido ao fato de escoar mercadorias para diferentes regiões do estado.

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Marques de Souza ainda consegue acessar rapidamente a BR-386. O centro do município fica entre Travesseiro e a via.

Com a ponte em frangalhos, há preocupação a respeito dos impactos na economia local. "Reconstruir a ponte é questão de sobrevivência para o município", afirma o prefeito de Travesseiro, Gilmar Luiz Southier (MDB).

Segundo ele, 80% da economia do município está associada à agropecuária. Com 2.152 habitantes, a cidade também reúne algumas indústrias e comércios familiares.

Devido à perda da ponte, a chegada e a saída de produtos do município por uma via alternativa podem levar em torno de uma hora e meia a mais do que o habitual, diz o prefeito.

O reflexo é a redução da variedade de mercadorias no comércio local e o encarecimento de custos logísticos. "Ter a ponte é a alternativa viável para não ter desemprego. Essa é uma preocupação que nós temos", afirma.

Antes da ponte, inaugurada em 2006, a travessia era feita por meio de uma balsa, que conseguia receber veículos -o que não ocorre na passarela do Exército.

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"É como se estivéssemos retrocedendo 50 anos", afirma Southier, em referência ao prejuízo causado pela tragédia ambiental.

Conforme o prefeito, os municípios são os responsáveis por elaborar o projeto da nova ponte. Dependendo do material a ser utilizado, ele estima que a obra levará de seis a oito meses.

O valor necessário para a reconstrução fica entre R$ 8 milhões e R$ 10 milhões. Até o momento, a Prefeitura de Travesseiro anunciou que R$ 4,1 milhões foram aprovados pelo governo federal.

Preocupada com a crise, a atendente de farmácia Edna Kremer Stefani, 33, resolveu puxar uma mobilização para levantar recursos para a obra.

Ela está à frente de uma associação de amigos de Travesseiro e Marques de Souza que busca, por exemplo, doações via Pix. Até domingo (2), o grupo havia juntado em torno de R$ 85 mil.

"A aceitação está sendo muito boa", conta Edna. Ela e o marido, o jornalista Felipe Stefani, 33, moram em Marques de Souza e trabalham em Travesseiro.

O casal tem evitado a passarela flutuante para cruzar o rio Forqueta com o filho de três anos. Para fazer o trajeto de carro, o tempo gasto agora é de cerca de uma hora e meia. Antes, o caminho pela ponte era de menos de dez minutos.

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O empresário Sidinei Fussinger, 41, também anda preocupado. Ele é dono de uma fábrica de bolachas que emprega 33 funcionários em Travesseiro.

Cerca de 80% da produção é vendida fora do Rio Grande do Sul. Sem a ponte, o envio de mercadorias ficou mais caro, e há dificuldade para receber insumos, segundo o empresário.

"Hoje, ainda estamos absorvendo esse custo a mais. A empresa está reduzindo margem de lucro", diz.

O produtor rural Fábio Roberto da Silva, 49, é mais um morador de Travesseiro que lamenta a perda da ponte.

Após a cheia, diz, ficou mais complicado conseguir insumos como ração para as vacas que produzem leite na propriedade da sua família. O custo aumentou.

Outro reflexo da enchente foi o estrago de um pedaço de terra que havia sido adubado duas semanas antes da inundação. O investimento no local havia sido de cerca de R$ 2.000, diz Silva.

Para complicar a situação, ele afirma que teve o cancelamento de uma cirurgia de tendões que seria feita em Marques de Souza logo após a enchente.

Com a instalação da passarela flutuante do Exército, Silva pretende remarcar o procedimento em breve. Isso, contudo, não elimina a saudade da ponte antiga. "É 100% do que a gente precisa."

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