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Embaixada dos EUA fará aporte para conservação de navio escravista naufragado em Angra

FolhaPress 10/12/2024 10:15

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Está naufragado em Angra dos Reis, município do sul fluminense a cerca de 156 km do Rio de Janeiro, fragmentos do que pode ser uma das últimas embarcações documentadas a transportar africanos para o Brasil, vítimas do período da escravidão.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Foi um naufrágio proposital, segundo documentos da época. O capitão Nathaniel Gordon, do Maine, nos Estados Unidos, afundou o brigue Camargo em 1852, depois de desembarcar 500 pessoas que saíram à força de Moçambique para trabalhar nas fazendas de café em Angra. Muitos morreram durante a travessia.

Gordon queria ocultar registros do navio porque a lei Eusébio de Queiroz proibia o tráfico de pessoas escravizadas no Brasil desde 1850.

O capitão Gordon foi capturado no Congo, condenado e sentenciado à morte em 1862, nos Estados Unidos. É o único americano executado por tráfico de africanos.

O Camargo, embarcação à vela, de dois mastros, é o último navio escravista documentado, até o momento. Estudos arqueológicos estão perto de confirmar que os pedaços do Camargo estão no fundo da enseada do Bracuí, em Angra dos Reis.

SESC PICASSO

O Instituto AfroOrigens, organização que se dedica a mapear registros da diáspora africana, receberá aporte de US$ 295 mil (cerca de R$ 1,7 milhão) para ações de conservação dos destroços. O valor é do Fundo dos Embaixadores dos Estados Unidos para Preservação Cultural (AFCP, na sigla em inglês).

O aporte foi oficializado nesta terça-feira (10) pelo Consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, em cerimônia no Muhcab (Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira).

O fundo selecionou 34 projetos ao redor do mundo em 2024, apenas um no Brasil.

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"Este projeto foi um bom exemplo dos tipos de que gostamos de fazer em todo o mundo. Este programa não é somente para o Brasil, é uma seleção global, o que significa quão importante ele é", afirma à Folha de S.Paulo o cônsul-geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, Ryan Rowlands.

Este, contudo, será o 11° projeto brasileiro de conservação financiado pelo fundo, lançado pelo Departamento de Estado americano em 2001.

Já foram contempladas ações como a preservação de coleção fotográfica compilada por dom Pedro 2°, a documentação da cultura indígena no Mato Grosso do Sul, a manutenção do sítio arqueológico do Cais do Valongo, no Rio, e a preservação de conhecimento do povo tikmuun-maxakali, no Vale do Mucuri, em Minas Gerais.

O aporte para conservação do que pode ser o navio Camargo prevê atividades de mergulho, mapeamento 360° do sítio arqueológico e a preservação, documentação e análise de estruturas e artefatos que forem encontrados. O projeto, com duração prevista de três anos, também vai contemplar a proteção da memória da comunidade quilombola que vive na região de Santa Rita do Bracuí.

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Os moradores do lugar têm sido importantes no projeto. Na tradição oral da comunidade quilombola já existia a história de um naufrágio proposital. O relato foi colhido por pesquisadores. Um dos sítios arqueológicos subaquáticos foi indicado através dessas histórias.

Membros da comunidade foram contratados. O acordo prevê que eles aprendam técnicas de iniciação à arqueologia, mergulho submarino, documentação e produção audiovisual.

"Entendemos que criamos um vínculo forte com qualquer país se valoramos sua história e sua cultura. As comunidades afrodescendentes, os quilombolas aqui no Brasil e os afro-americanos dos Estados Unidos, contribuem muito à sociedade e têm uma história difícil. Aprender essa história e avançar é o objetivo do projeto", afirma o cônsul-geral.

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