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Edvard Moser, Nobel de Medicina, defende investimento contínuo em ciência básica para inovações

FolhaPress 27/11/2025 10:49

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma pesquisa científica começa com um passo a passo: fazer uma pergunta, testar uma hipótese, refutá-la (ou não) e seguir para a próxima experimentação. Às vezes, esse caminho pode ser surpreendido por uma descoberta inovadora que –com alguma sorte– pode mudar algum paradigma científico.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

"Começamos muitos projetos que não levam a nada e é preciso reverter o curso. E isso faz parte da natureza da ciência: se você quer fazer grandes descobertas, então também precisa assumir alguns riscos. O desafio é reconhecer quando o seu projeto está diante de um beco sem saída antes que seja tarde demais."

Este é o conselho do neurocientista e professor do Instituto Kavli de Neurociência de Sistemas, em Trondheim (Noruega), Edvard Moser, para os jovens interessados em fazer ciência. Ele foi laureado em 2014 com o Nobel em Fisiologia ou Medicina.

Moser veio ao Brasil nesta semana a convite da Nobel Prize Inspiration Initiative (NPII), uma iniciativa global do Nobel Prize Outreach, que conecta laureados com estudantes, e tem patrocínio da AstraZeneca. Após uma agenda intensa em São Paulo, incluindo uma conferência em parceria com a USP e uma palestra na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), ele conversou na última terça-feira (25) com a reportagem por videoconferência.

Após quase três décadas da chamada pesquisa "básica", onde ele buscou entender as bases cognitivas do desenvolvimento cerebral a partir de experimentos com ratos em laboratório, ele e sua ex-mulher, May-Britt Moser —que dividiu o Nobel com o seu ex-parceiro e o americano John O’Keefe— fizeram uma descoberta surpreendente: um novo tipo de neurônio, chamado células de grade.

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As células de grade, presentes também nos humanos e em diversos outros mamíferos, são encontradas no hipocampo e indicam a posição espacialmente, funcionando como um "GPS cerebral". Elas têm esse nome porque o experimento com ratos usou um mapa que lembra um tabuleiro de dama chinesa (hexagonal). Ao passar por pontos desse mapa que indicavam a localização específica, as células eram ativadas no cérebro dos roedores. Alguns anos depois, o casal Moser viu que ela não determina apenas espaço, mas também tempo.

A pesquisa dos Moser abriu o caminho para uma série de aplicações como, por exemplo, elucidar por que pessoas com Alzheimer frequentemente não sabem onde estão ou confundem as datas. Mas investigar a perda cognitiva e o que isso traz a um paciente com condição neurológica nunca foi o objetivo final dos seus estudos.

"Muito antes do Alzheimer ou da manifestação da condição na perda da memória, já observamos uma deterioração da área cerebral onde estão presentes estas células, o que pode indicar que a perda de memória e do sentido de espaço ocorre antes do desenvolvimento da doença. A região vai ficando gradualmente menor porque há morte celular. Não sabemos o que exatamente torna essa região particularmente vulnerável, mas existem várias linhas de pesquisa agora que podem ser exploradas", afirma.

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Se, por um lado, grandes descobertas podem levar anos para surgirem, por outro é fundamental ter um investimento contínuo em ciência fundamental, sem a qual não é possível chegar a inovações e aplicações tecnológicas, defende o neurocientista.

"Quando há altos e baixos, isso torna-se prejudicial para a ciência a longo prazo. Você precisa planejar muitos anos à frente, e quando ocorrem cortes, como os que estamos vendo agora nos Estados Unidos, é muito prejudicial, pois interrompe programas em andamento há anos, perde-se mão de obra qualificada e, principalmente, perde-se o valor da ciência."

Embora haja, segundo o pesquisador, uma forte pressão por parte das agências de fomento por resultados práticos, foi uma conjunção de "sorte" e de "saber vender o seu peixe" o que fez com que eles recebessem financiamento do governo norueguês para a sua pesquisa. "Acho que, considerando as ferramentas disponíveis à época, fizemos algumas escolhas tanto inteligentes quanto sortudas que tornaram possível encontrar essas células", afirma.

Sim, há de se argumentar que a descoberta de um sistema de mapa geográfico cerebral é fundamental para interpretar comportamentos e também como certos hábitos de vida podem acelerar o declínio cognitivo. E que ela também não é uma descoberta corriqueira, e sim fruto de anos de investimento em pesquisa. "Hoje o conjunto de ferramentas é muito maior, então você obtém muito mais dados. Você pode treinar redes para procurar padrões no cérebro, você pode estudar a cognição das células no nível de comunidades neurais, não apenas células únicas."

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Para aqueles que desejam manter a saúde cerebral em dia, o neurocientista brinca: "o enriquecimento, a diversificação de atividades, é a melhor forma de manter um cérebro em forma. Uma pessoa ativa, que faz diferentes tarefas, provavelmente terá um cérebro mais robusto e estará mais protegida contra doenças neurodegenerativas, porque você tem mais conexões entre células", e resume: "Bom, talvez não só fazer ‘scroll’ no Instagram, mas mesclar também com a leitura de textos mais complexos, por tempo maior de dez segundos."

Por fim, Moser deixa um recado aos jovens meninos e meninas que desejam seguir uma carreira na ciência. "Se você está curioso sobre como as coisas funcionam, busque uma carreira na ciência. Mas é preciso escolher a área que se adapte a você. A ciência deve ser divertida, deve ser uma felicidade. Isto aumenta as chances de você ter sucesso em obter uma bolsa e eventualmente encontrar um emprego."

Raio-X

Edvard Moser, 63, nasceu em Ålesund, Noruega. Em 1990 graduou-se em psicologia pela Universidade de Oslo e, em 1995, obteve o título de doutorado em Neurofisiologia na mesma instituição. É professor de neurociência e diretor do Instituto Kavli de Neurociência de Sistemas em Trondheim.

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