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'Eddington' brilha ao rever o faroeste a partir dos rituais da pandemia

FolhaPress 13/11/2025 11:01

FOLHAPRESS - Após dividir seu fã-clube com "Beau Tem Medo", primeiro longa de Ari Aster a se afastar, ainda que não totalmente, das histórias de terror que o consagraram, o cineasta elegeu o faroeste para contar sua nova fábula. Na esteira de um consenso abaixo do esperado, "Eddington" chega ao Brasil com meses de atraso desde a primeira exibição, no Festival de Cannes, e de seu lançamento nos Estados Unidos.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Descrito pela crítica como um "western moderno" —espécie de atualização do gênero, consagrado pelas disputas do velho oeste, com desertos deslumbrantes, duelos entre peritos do gatilho e homens à beira do colapso—, o longa transporta a pandemia da Covid-19 para o fim de mundo, numa cidade-título tomada pela briga eleitoral entre Joe Cross, um xerife negacionista vivido por Joaquin Phoenix, e Ted Garcia, um prefeito neoliberal na pele de Pedro Pascal.

Não há exagero no rótulo atribuído à produção. Ao se apropriar de uma mitologia elementar para o cinema americano, Aster representa um universo incompatível com sequências dirigidas por John Ford e quadros dominados pelo olhar de Clint Eastwood. Ao esvaziar símbolos que um dia tiveram tanto significado, o diretor conduz um filme sem imagens, sem botar a corda no pescoço.

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Afinal, este é um faroeste em que os bares estão vazios e as pessoas estão dentro de casa. Um faroeste estrelado por um xerife abestalhado —figura longe de ser qualquer novidade, mas que agora não usa máscaras, sejam reais ou figurativas—, e que demora para mostrar cenas violentas.

Quando acontecem, isso se dá entre várias pausas e quase sempre longe da câmera. A exceção é o momento em que o protagonista de Phoenix carrega uma metralhadora. Os disparos imprimem flashes de luz na tela e afetam a nitidez com que as ações são gravadas. Isso, é claro, além de atrapalhar o discurso ameaçador do ator.

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Em primeiro lugar, as falhas entre as tradições desse gênero, os simbolismos por trás dos registros e a percepção do espectador denunciam ritos pandêmicos. Aster resgata os tempos recentes em que dois ou mais corpos não ocupavam o mesmo espaço —o político vivido por Pascal, por exemplo, insiste no distanciamento e é ridicularizado pelo xerife reacionário— e de comunicações aos trancos e barrancos.

Além disso, o cineasta brinca com a natureza das imagens ao levar as plataformas digitais para o deserto. Entre seitas religiosas e correntes políticas, diferentes narrativas se concentram nesse ambiente, forjadas pelos que resistem ao pandemônio. No processo, militantes gastam saliva ao justificar demandas e a população não se compromete com nada. Seus tuítes parecem mais fortes do que qualquer protesto.

São conflitos que se escondem em redes invisíveis e o diálogo surge em microdoses. Resta um conjunto de ícones falhos, e Aster brinca com um gênero não compatível com a atualidade. O resultado ironiza menos a queda de uma nação e mais de uma Hollywood que há muito deixou de ser política.

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Por isso, ele condena os seus personagens a um mundo vazio. Não por acaso, o destino de Eddington é iluminar a escuridão de seu deserto com um grande e promissor data center. Financiado pelo prefeito, o projeto aparece desde a cena de abertura, quando um bêbado vaga em direção ao centro da cidade —ele sai de cena, mas o espectador é obrigado a observar o terreno onde haverá um centro de inteligência artificial.

Aster usa a sobriedade do mundo pandêmico —onde sintomas da Covid-19 se confundem com a solidão dos celulares— para denunciar uma indústria que vem proibindo a imaginação. Chega ao ponto em que um drone, sobrevoando o nada, é o mais próximo que temos para sonhar com um planeta além do nosso.

EDDINGTON

- Avaliação Muito bom

- Quando Em cartaz nos cinemas

- Classificação 18 anos

- Elenco Joacquin Phoenix, Pedro Pascal e Emma Stone

- Produção Estados Unidos, Reino Unido, Finlândia, 2025

- Direção Ari Aster

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